Está dito e redito. Estamos a viver as presidenciais mais disputadas de que há memória, só comparáveis às de 1986. Vamos ter seguramente uma segunda volta, pela primeira vez em quatro décadas, ainda que as sondagens, num sinal da sua influência, comecem a indiciar movimentos de voto útil especialmente à esquerda.

Mas um dos aspectos mais interessantes destas eleições é o paradoxo (aparente?) de ver cada um dos dois lados do espectro político a funcionar como se quisesse que o seu adversário ganhe. A esquerda a actuar como se quisesse dar a vitória à direita, o mesmo se passando com o lado direito. Não será estranho, nesta diferença entre o parecer e o ser, o facto de termos um candidato sem o apoio explicito de nenhum partido. E, claro, uma vez lançadas as candidaturas é preciso lutar pelo eleitorado do seu espaço político.

Embora a esquerda reúna o maior número de candidatos – António José Seguro, Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto -, tal não corresponde a uma elevada dispersão dos votos, a crer nas sondagens. Levando em conta o radar de sondagens do Observador, António José Seguro está a conseguir passar a mensagem do voto útil, numa subida lenta parecendo ser Catarina Martins a mais prejudicada.  Se considerarmos os resultados das legislativas e comparando com o último valor do radar de sondagens, Seguro está a concentrar 88% dos votos no PS.

Deixando de parte para já o candidato Henrique Gouveia e Melo, por não ser explicitamente apoiado por nenhum partido, a direita tem menos candidatos – Marques Mendes, Cotrim de Figueiredo e André Ventura -, mas está a registar uma muito maior dispersão de votos, sem que nenhum consiga, pelo menos por enquanto, fazer valer o raciocínio do voto útil. Fazendo o mesmo exercício, Marques Mendes só está a conseguir cerca de metade dos votos obtidos pela AD nas legislativas d de 2025. Cotrim de Figueiredo ultrapassa largamente a IL e André Ventura está a fazer praticamente o pleno do seu eleitorado.

Com este quadro, e embora seja bastante arriscada esta leitura, Henrique Gouveia e Melo parece ter perdido, ao longo da campanha, votos para Seguro e ganho eleitores de Marques Mendes. A ser assim e se isto se confirmar, a sua campanha contra Marques Mendes terá surtido efeito.

É daqui que partimos para a questão se vale tudo para vencer o adversário. Só os resultados eleitorais nos vão permitir avaliar que tipo de efeito teve o modelo de ataques, realizados primeiro Cotrim de Figueiredo e depois Gouveia e Melo a Marques Mendes. Vários podem ser os efeitos: neutros, o que não parece provável; podem retirar votos a Marques Mendes que tanto podem ser ganhos ou divididos entre os  “atacantes” e quem se manteve à margem, como António José Seguro, ou mesmo André Ventura.

Embora Gouveia e Melo esteja agora focado em António José Seguro, não parece que vá ter a mesma eficácia que aparentemente teve com Marques Mendes. Não só porque António José Seguro se manteve sem responder, mas igualmente porque o tipo de criticas que lhe são dirigidas são mais fáceis de ignorar do que as que foram feitas a Marques Mendes.

Os ataques de Gouveia e Melo a Marques Mendes são muito difíceis de combater especialmente num país que valoriza pouco a iniciativa privada. Não o podendo acusar de tráfico de influências, que é um crime, o almirante fixou-se pelas suspeições implícitas na expressão maldosa de “facilitador de negócios”.  Talvez a facilidade com que se lançou para esses ataques, que nem André Ventura alguma vez ensaiou, seja explicada pela falta de mundo de Gouveia e Melo, já que não só teve uma única actividade profissional, como também tal exigiu de si pouca amplitude de qualificações.

Um advogado que trabalhe para empresas, como é suposto saber-se, tem nas suas tarefas a tradução da complexa legislação que o país lamentavelmente tem, para lhes abrir o caminho nos investimentos ou projectos que querem concretizar. Apenas e só se entrarem pela via do tráfico de influências podem estes advogados ser acusados de estarem a cometer um crime. Infelizmente é muito difícil, se não impossível, explicar isso em campanha eleitoral marcada por pinos, luvas de boxe e danças. E ainda amais difícil num país onde só a expressão “negócio” é suficiente para começar a manchar qualquer um.

É a exploração desta fragilidade do país das mil e uma leis e regras intrincadas, que torna necessária esta actividade dos advogados – e também economistas –, e uma cultura ainda avessa aos negócios que podem explicar a táctica desenhada por Gouveia e Melo para fragilizar o seu adversário Marques Mendes. Vamos ver se será eficaz.

Outro aspeto interessante desta campanha é ver como André Ventura é racional e disciplinado na “persona” que quer ter em cada momento. Mais moderado nos ataques do que é habitual – quer Gouveia e Melo como Cotrim de Figueiredo foram bastante mais agressivos – , Ventura tem poupado em primeiro lugar o almirante e a seguir António José Seguro.  E parece estar a garantir a entrada na segunda volta com boa parte dos analistas a considerar que não terá hipótese, depois, de ganhar. Serão, pensa-se, todos contra Ventura. A posição dúbia de Cotrim de Figueiredo já esta semana, a não excluir votar Ventura na segunda volta, pode não dar assim tanta certeza.

Vivemos de facto umas eleições presidenciais muito interessantes, com a direita a parecer estar a jogar a favor da esquerda e a esquerda a favor da direita. Em 1986 Mário Soares financiou Maria de Lurdes Pintasilgo para dividir o voto de Salgado Zenha, como o próprio confessa no livro de Joaquim Vieira aqui citado. Os resultados e o passar do tempo vão permitir também resolver algumas das perplexidades destas eleições presidenciais.