Agora que António José Seguro foi eleito Presidente da República, podemos pensar no futuro da política portuguesa. As eleições presidenciais ajudaram a reforçar três ilusões da política nacional. Mais: os defensores das três ilusões conseguem ir buscar dados aos resultados da primeira e da segunda voltas para validarem os seus argumentos. Vamos às três ilusões, seguindo uma ordem arbitrária.
À primeira ilusão podemos chamar “atrás de Seguro vêm as esquerdas.” O entusiasmo da noite eleitoral em sectores do PS (não todos) e a rapidez com que José Luís Carneiro “surfou” a onda Seguro, levantaram a ilusão do regresso ao poder mais rápido do que temiam os socialistas. Calma, “boys and girls” do PS. Umas eleições presidenciais não são eleições legislativas. A primeira volta mostrou que as esquerdas juntas continuam onde estavam em Maio de 2025, valem cerca de 35%. Na segunda volta, Seguro cresceu para a direita, para eleitorado que dificilmente votará no PS. Desconfio que não será fácil as esquerdas voltarem a ser maioritárias nos próximos anos. Seria necessário conquistar cerca de 15% do eleitorado. Sem maioria parlamentar, não haverá governo socialista, mesmo que o PS ganhe as eleições. Também não me parece que Seguro queira associar o seu futuro político a ajudar as esquerdas ou até ao PS.
A segunda ilusão é “uma nova maioria AD.” Muitos no PSD sonham com o dia em que o Chega ficasse reduzido a menos de 10%. Isso daria francas hipóteses a uma maioria parlamentar entre a AD e a IL. Os sonhadores socias democratas declaram que na primeira volta Ventura teve menos votos do que o Chega nas últimas legislativas. É necessário ser um enorme sonhador para ver nessa ligeira margem o início da queda do Chega. A realidade é muito simples: a partir do momento em que se deixou o Chegar subir até estar entre os três maiores partidos portugueses, as hipóteses da AD voltar a conquistar uma maioria absoluta (mesmo com a IL) são muito escassas.
A terceira ilusão é “um dia Ventura será PM.” A segunda volta das presidenciais expôs os limites do crescimento do Chega. Um dia, o partido de Ventura até poderia ficar em primeiro nas eleições legislativas, mas sem maioria absoluta, não formaria governo. Aconteceria o mesmo a que assistimos agora: governo de bloco central (e se necessário com a IL também) para manter o Chega na oposição. As eleições presidenciais mostraram que Ventura só seria PM se o Chega alcançasse maioria absoluta. O eleitorado do Chega também tem os seus sonhadores, mas é necessário sonhar muito para imaginar o Chega com maioria absoluta.
O Portugal político ainda não aprendeu a lidar com o aparecimento do Chega. Parece muito razoável assumir que no futuro previsível o Chega será um partido entre os 20% e os 30%. Isso significa três coisas:
- Não haverá uma maioria absoluta das esquerdas.
- Não haverá uma maioria absoluta da AD (nem com a IL).
- O Chega não terá maioria absoluta.
A doutrina dos três blocos, a que aderiram PSD, CDS e IL por influência socialista, condena Portugal a governos minoritários. Ou seja, a governos fracos e instáveis. Foi tão evidente para aqueles que sempre combateram as linhas vermelhas. Não há qualquer sinal político de que Portugal possa sair deste impasse cedo.
As únicas maiorias parlamentares possíveis são uma maioria de direita entre a AD e o Chega (desejavelmente com a IL). Neste momento, Montenegro e Ventura claramente não querem essa opção. Só eles a podem construir.
A outra maioria parlamentar possível é um bloco central entre PSD e PS (julgo que o CDS ficaria de fora). Obviamente, Montenegro também recusa esse cenário. Além de outras razões, a dimensão política do Chega não o permite.
Teremos assim um governo minoritário. Os exercícios de política comparada são muito úteis. Entre os principais países da União Europeia, só a França tem governo sem maioria parlamentar. Vejam com atenção o estado em que se encontra. Este governo pode durar até ao fim da legislatura. Mas nunca ninguém terá a certeza que isso aconteça. Não será fácil liderar o governo com essa instabilidade permanente.