1 As expectativas pré-eleitorais devem contar nas análises e avaliações feitas no dia seguinte às eleições? Claro que sim. As expectativas são uma componente fundamental do comportamento social. Por expectativas frustradas começam-se revoluções. Por expectativas erradas conduzem-se sociedades a guerras mais devastadoras e duradouras do que o previsto. Em economia, as expectativas são fundamentais na estabilização da inflação, nas decisões de consumo e no investimento.
E, claro, no comportamento político – das massas e das elites – as expectativas são absolutamente determinantes. Qualquer um de nós, quando vai votar, baseia-se em expectativas. Expectativas não apenas daquilo que os políticos vão fazer depois de eleitos, mas também de como é que os restantes cidadãos irão votar e do peso eleitoral previsto de cada partido. Qualquer decisão de voto estratégico depende de expectativas. Quando os políticos convocam eleições antecipadas ou planeiam estratégias de acção, baseiam-se em expectativas. As posições negociais e o peso político de cada partido dependem, em parte, de expectativas.
Portanto, claro que as expectativas pré-eleitorais devem contar também na análise política. As expectativas não são tudo – é importante nunca perder de vista os restantes factos da realidade concreta e material – mas contam.
2 O Chega teve um mau resultado? Ao longo da última semana, alguns argumentaram que o resultado do Chega foi excelente, uma vez que deve ser comparado com o das últimas eleições autárquicas realizadas em 2021, nas quais o Chega conseguiu apenas cerca de 200 mil votos e 19 vereadores. No domingo, o Chega conquistou cerca de 650 mil votos e 137 vereadores, o que corresponde a um crescimento bastante considerável.
Outros argumentaram que o resultado do Chega devia ser comparado com o das legislativas de Maio deste ano, nas quais o Chega teve 1 milhão e 340 mil votos (em território nacional) e foi a segunda maior força política em número de mandatos.
Há 5 meses, o Chega disputou o lugar de segunda maior força política do país, taco a taco com o Partido Socialista. Esta semana, teve menos 1 milhão de votos que o Partido Socialista. Há 5 meses o Chega ficou em primeiro lugar em 60 concelhos do país. Esta semana, os eleitores destes mesmos concelhos afirmaram que não confiam nos quadros do partido para gerir a sua terra: apenas em 2 destes 60 concelhos o Chega ganhou também nas eleições autárquicas (em São Vicente, na Madeira, o Chega elegeu uma presidência de câmara, mas a AD havia ganho as legislativas por larga margem).
Como disse Miguel Pinheiro, no programa Realpolitik da Rádio Observador, esta semana, “fica a parecer que os eleitores do Chega querem partir isto tudo, mas não à porta de sua casa.” Os mesmos eleitores que em Maio expressaram o seu descontentamento profundo com o sistema político vigente disseram agora que não confiam nas pessoas do Chega para gerir a sua cidade.
Acima de tudo, o Chega teve um resultado que espelha a sua natureza. O Chega é um partido com um líder nacional de inteligência e capacidade políticas reconhecidas, mas sem quadros intermédios ou locais que inspirem confiança ou esperança nos eleitores.
Nem mesmo Rita Matias ou Pedro Pinto, quadros nacionais com projecção, conseguiram dar ao Chega um primeiro ou segundo lugar autárquicos em terrenos favoráveis como Sintra e Faro.
Ainda não é desta que o bipartidarismo foi totalmente derrubado. A capilaridade e sucesso territorial dos dois principais partidos continuam sem paralelo no Chega. Estas organizações partidárias têm um valor – político, eleitoral, organizativo e de governação – que não é de desprezar.
No entanto, e ao contrário de leituras demasiado negativas sobre a performance do Chega nestas eleições, a percentagem de votos obtida pelo partido no total nacional (11,86%) é boa e deve alegrar Ventura. Há uma base de eleitores que já demonstra fidelidade ao partido e à sua marca, o que representa um enorme activo político para a durabilidade e futuro sucesso do Chega.
O resultado do Chega e de Rita Matias em Sintra, não sendo uma vitória autárquica, é um excelente resultado que revela esta base eleitoral fiel ao partido – os 26% das legislativas desceram apenas para cerca de 23%. Em Loures, o Chega consegue ficar em segundo lugar e em Palmela e Sesimbra fica a poucas centenas de votos da vitória.
Ventura elevou a fasquia para estas autárquicas de tal forma que uma leitura de derrota se torna difícil de escapar. Mas também é verdade que os resultados revelam um partido cujo crescimento recente parece ter bases suficientemente fortes para continuar e que poderá, no futuro, desafiar cada vez mais os dois principais partidos, mesmo a nível territorial.
3 O PS teve um bom resultado? Mais uma vez, importa olhar para as expectativas. Para quem vinha de um humilhante terceiro lugar (em número de deputados eleitos) nas últimas legislativas, um segundo lugar quase que sabe como uma espécie de vitória.
Parece dar margem para respirar e mostra que, em força territorial e organização partidária, o seu lugar e o bipartidarismo continuam.
No entanto, os socialistas não se devem iludir com estes resultados. Como disse, as expectativas são importantes, mas não nos devem iludir sobre factos relevantes da realidade material. E a realidade é que o PS não conseguiu sair vitorioso nos cinco maiores concelhos do país. Ficou ainda bastante longe da vitória em Lisboa, uma autarquia simbólica cuja dimensão e orçamento seriam importantes para uma organização partidária sem lugares nos órgãos de governo nacional. Reconquistar câmaras nas principais Áreas Metropolitanas deve ser uma das prioridades do partido nos próximos anos.
Para além disso, escondido nos resultados eleitorais de domingo, há outro motivo para que o PS (e o PSD) não se devam deixar levar por ilusões. Nestas eleições municipais, dado o sistema eleitoral utilizado, em que a presidência da autarquia fica para o primeiro classificado, há uma pressão para o chamado voto útil nos dois partidos que podem contestar a eleição. Nas legislativas, apenas em distritos muito pequenos é que esta pressão também existe. Nos outros, os eleitores não precisam de concentrar os seus votos nos dois maiores partidos da sua região e têm margem para escolher o seu partido preferido.
Uma vez desaparecida esta pressão para a bipolarização da eleição autárquica, será que PS e PSD podem realmente contar com todos estes eleitores que no domingo votaram neles? Parece-me que não, tal como me parece evidente que há muitos eleitores que apreciam os candidatos locais dos dois principais partidos, mas rejeitam fortemente as suas lideranças nacionais.
4 João Ferreira foi responsável pela vitória de Moedas em Lisboa? Sendo impossível ter a certeza do que aconteceria caso a CDU decidisse entrar numa coligação com o PS para Lisboa, parece-me altamente improvável que Alexandra Leitão tivesse conseguido ganhar contra Moedas, mesmo nessa situação.
A verdade é que as margens não parecem dar essa garantia: Moedas conseguiu 41,69% dos votos e a coligação de Alexandra Leitão em conjunto com a CDU somou apenas 44,04%. Mas estas contas não têm em conta que muitos eleitores de João Ferreira poderiam não ter ido votar caso as opções fossem outras ou poderiam ter escolhido outro candidato. E, numa eleição contrafactual com uma frente de toda a esquerda com a CDU, a pressão para o voto útil em Moedas, no campo oposto, seria ainda maior.
Simplesmente, a candidata do PS não foi a melhor escolha e não conseguiu mobilizar todo o eleitorado potencial desta área política. Numa análise dos resultados por freguesia, observamos que a coligação encabeçada por Leitão teve menos votos do que os partidos que a compunham em 2021, ainda que a participação eleitoral total no domingo passado, em Lisboa, tenha sido bastante superior. Em algumas freguesias, a coligação de Alexandra Leitão tem até menos votos do que a coligação de PS e Livre que Medina apresentou em 2021.
Esta tendência de perda de eleitorado natural e potencial, essencial para entregar a câmara ao PS, acontece em freguesias de direita, mas também em freguesias lisboetas mais à Esquerda. Isto é, mesmo em zonas onde o PS-Lisboa é forte, Leitão perdeu votos e Moedas cresceu. Isto sugere uma dinâmica eleitoral que não seria vencedora, mesmo com a CDU.
5 Quais as lições que o P.S. deve retirar destas eleições? Nesta semana de rescaldo, destacam-se leituras nacionais do contraste entre o resultado do PS em Lisboa, onde este se apresentou com uma frente de esquerda, e o resultado do PS em Loures. Ricardo Leão, o autarca socialista em Loures, foi reeleito com 43,83% dos votos, mais 12 pontos percentuais que há quatro anos.
Ricardo Leão ficou conhecido como um autarca da periferia da Área Metropolitana de Lisboa com um discurso mais assertivo em matérias de imigração, segurança, criminalidade e gestão de bens públicos, embora seja do P.S. Será que isto significa que o P.S. deve, a nível nacional, adoptar a plataforma de Leão e rejeitar a plataforma simbolizada por Alexandra Leitão?
Creio que tais leituras podem ser demasiado precipitadas. Se é certo que Portugal não é Lisboa, o país também não é todo como o concelho de Loures. Um partido nacional precisa de equilibrar o seu discurso para apelar e representar várias regiões geográficas e sociológicas do país, se quer ser realmente abrangente. E, para além das plataformas, a qualidade dos candidatos e o seu discurso importam muito para o resultado final, quer a nível nacional quer local.
Esta semana, também no programa Realpolitik, o socialista Sérgio Sousa Pinto sugere uma leitura que me parece feliz: o PS encontra-se numa tenaz entre o eleitorado que disputa com o Chega e o eleitorado que disputa com o PSD. e a sua esquerda. Essa tenaz é também uma tenaz entre a necessidade de representar as classes populares e a necessidade de representar as classes médias. Um verdadeiro partido grande, para ter sucesso, precisa de construir uma coligação suficientemente abrangente, em vez de se acantonar num discurso nem demasiado extremista nem sociologicamente limitado.