A política é, também, um espetáculo e como qualquer espetáculo vive de atores. Numa área executiva, como é a das câmaras municipais, não basta a percepção de competência e seriedade de um candidato para ganhar eleições, é preciso algum carisma e não ser penalizado por factos salientes socialmente relevantes. A mudança de atores é relevante em política, mas é apenas a mudança de quem comanda o navio. É refrescante a mudança de atores, mas se o barco tiver problemas estruturais não irá longe.

O rescaldo das eleições autárquicas suscitou a questão de saber se será que esta vitória do PS, com um PSD em crescendo nalguns importantes municípios urbanos, indicia um novo ciclo político? Parece-me que não. Um novo ciclo político iniciar-se-á no dia em que Costa anunciar que mete os papéis da reforma de primeiro-ministro, seja em que momento for. Antes disso apenas se o evidente desgaste de seis anos de governo o levar a tomar medidas salientemente impopulares. Porque é nesse dia que se abrirá a sucessão no PS, onde o candidato provável (se não cometer erros crassos até lá) é Pedro Nuno Santos (PNS), que facilmente ganhará o PS, mas que não terá a popularidade, nem os votos, de Costa e terá então de lutar taco a taco com o PSD. Os milhares de milhões, que chegarão da Europa nos próximos anos, serão um bálsamo para Costa como o foram para Cavaco nas suas duas maiorias absolutas.

Quer isto dizer que as eventuais mudanças nas lideranças partidárias da oposição são irrelevantes? Não são pois criarão dinâmicas diferentes. No CDS, já se percebeu bem a estratégia de Chicão, o de ser o side-car do PSD não indo a votos nas legislativas. A maioria dos bons quadros do partido vai-se afastando (agora a vez de Ana Rita Bessa) pois já se percebeu que, quer a fragilidade do líder quer a sua estratégia, levará à extinção do partido. Daí o avanço de Nuno Melo. No PSD é Rangel quem se mostra capaz de federar a oposição interna a Rui Rio, e chegará o tempo da contagem de espingardas. Aquilo que tem faltado a Rio é explicar como é que a sua estratégia política de acordos em áreas estruturais com o PS (na Justiça, no sistema político, na segurança social) – necessários para o país – é viável quer técnica quer politicamente quando o PS não se mostra disponível para a conversa. O PCP, um dos derrotados destas eleições, irá provavelmente manter Jerónimo até final da legislatura, viabilizando orçamentos se necessário, e preparará a sua sucessão em 2023. O BE, ainda mais derrotado, nunca foi um partido autárquico. A menos que Catarina Martins queira dar o seu lugar, seja por cansaço, seja por acreditar que alguém poderá fazer melhor, não se esperam novidades.  Nos pequenos partidos (IL, PAN) também não, e o Chega continuará o seu caminho, com demissões e outros golpes de teatro, para crescer e se consolidar como grupo parlamentar, a menos que Ventura dê tiros nos pés.

O debate sobre possíveis mudanças de atores políticos, tão do agrado do debate público, não toca em aspetos essenciais para o futuro do país:  o funcionamento da administração e das empresas públicas. A demissão do Presidente da CP, Nuno Freitas, que originou críticas públicas inéditas de Pedro Nuno Santos (PNS) a João Leão, é ilustrativa do estado da nossa administração. É razoável que uma empresa pública, com o volume de emprego, o ativo e o passivo da CP, chegue a Outubro do ano 2021 sem um plano de atividades e orçamento aprovados? Não. É razoável que a CP em 2020, com nove meses de pandemia e quebras dramáticas nas receitas, tenha recebido menos receitas da parte do Estado (via indemnizações compensatórias), do que em 2019? Não.  Há algumas responsabilidades do Ministério das Finanças (MF) nesta situação pois há problemas estruturais que têm de ser resolvidos. A entidade que tem a responsabilidade de acompanhar o setor público empresarial (a UTAM) não tem os recursos humanos, nem a estabilidade, nem a orgânica institucional  que deveria ter para exercer a sua função e está muito atrasada na apreciação dos planos de atividades e orçamentos (PAO) bem como na apresentação dos seus relatórios de atividades (ultimo online é o de 2018). O problema não é, porém, só do Ministério das Finanças. É também da dificuldade de implementar o contrato de serviço público, algo que também envolve o Tribunal de Contas. É ainda da CP que alegadamente não terá fornecido toda a informação necessária para apreciação do seu PAO. Na saída, Nuno Freitas queixou-se das dificuldades de gestão da CP derivadas das burocracias associadas a estar no perímetro orçamental do Estado  (o que faz com que contribua para o défice e a dívida pública). Está, efetivamente, pois é considerada pelo EUROSTAT e INE como uma empresa pública não mercantil segundo os critérios do sistema europeu de contas. Tal não se altera facilmente e Pedro Nuno Santos, apesar de dizer que facilmente resolveria o problema, não explicou como. Esta indireta ao seu colega das finanças é sobretudo uma pressão política pública em época de elaboração do Orçamento de Estado. O que PNS fez foi trazer para a praça pública as suas reivindicações em vez de as fazer no conselho de ministros onde existe sempre uma tensão dos ministros setoriais com o ministro das finanças. A sua dama, mais do que a TAP – que é e será um pesadelo – é a ferrovia. Mais do que João Leão quem leva com o ricochete destas palavras é o primeiro-ministro.

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