O fenómeno nasceu nos Estados Unidos, mas rapidamente atravessou fronteiras e oceanos – sobretudo no universo digital. Falo dos bebés ‘Reborn’, que conquistaram um lugar de destaque nas redes sociais e no imaginário de muitas pessoas. São réplicas extremamente realistas de recém-nascidos: a pele, feita de silicone, é extremamente fina, os olhos são de vidro e o cabelo é implantado fio a fio. Tão reais, que por vezes são confundidos com bebés reais. E este é o problema.
Miúdos e graúdos brincam com estes bonecos. Nas redes sociais, multiplicam-se os relatos e rotinas dos ‘Reborn’. Este fenómeno tornou-se o centro da vida de muitos ao ponto de, no Brasil, terem sido criadas “maternidades” em vários estados, onde simulam partos e emitem documentos, como certidões de nascimento e boletins de vacinas. Também estão a ser criadas creches e há babysitters que estão a ser contratadas. Há até quem queira disputar a guarda parental de um bebé ‘Reborn’!
À primeira vista, este fenómeno parece bizarro. Ao longo da minha carreira já acompanhei casais que carregam o peso de perdas gestacionais, abortos espontâneos e diagnósticos de infertilidade, que lhes causam um vazio enorme. Em alguns casos, os ‘Reborn’ surgem para preencher esse vazio, são aconselhados por alguns profissionais, principalmente no estrangeiro, e uma espécie de resposta emocional. O problema surge quando os casais não conseguem distinguir o imaginário da realidade e aquele boneco se torna real.
Quando, no Brasil, uma mulher recorre às urgências com um bebé de silicone e alega que precisa de cuidados médicos, percebemos que aquele objeto se tornou um perigo. É um sinal de que a dor foi longe demais. Estas pessoas, muitas vezes incompreendidas precisam de ajuda. Aquele boneco, que supostamente iria ajudar a lidar com a perda, causa mais problemas do que resolve.
Nesta ligação aos ‘Reborn’ há também um sentimento de controlo. São bebés que não crescem, alguns choram e comem, não exigem decisões complicadas e estão totalmente dependentes de terceiros. Todas estas características representam para algumas pessoas uma zona segura, uma espécie de maternidade previsível. Mas, como sabemos, essa segurança é ilusória e não substitui o tratamento do sofrimento.
Do ponto de vista clínico, há ainda um outro fator relevante: o custo. Os ‘Reborn’ podem atingir as largas centenas de euros e chegar mesmo até aos milhares. Atualmente, com os tratamentos de fertilidade, esse valor seria suficiente para iniciar um ciclo de tratamento. Com a orientação clínica adequada e multidisciplinar, é possível canalizar a vontade de cuidar para o caminho da parentalidade efetiva. Mas para isto é preciso garantir acesso, sensibilidade e acompanhamento contínuo. É preciso mais e melhor.
Não se trata de julgar, mas sim de compreender. O fenómeno ‘Reborn’ deve ser tratado com pinças. É, em muitos casos, um sintoma silencioso de sofrimento. Deve ser tratado com empatia e responsabilidade. Porque, por detrás de cada boneco de silicone que não respira, há muitas vezes um luto que ainda não encontrou espaço para respirar.