No dia 17 a Assembleia da República aprovou o projeto-lei que proíbe o uso de roupas que ocultem o rosto em espaços públicos (a imediatamente chamada “lei da burka”).

Na minha zona – o centro histórico de Lisboa – vejo com tristeza muitas mulheres escondidas dos pés à cabeça, debaixo do que parece mais uma tenda portátil do que vestuário. De cada vez, penso: “de facto isto é perigoso, tanto pode ser uma mulher, como um terrorista com uma bomba debaixo daquele pano todo” (não acho que seja, acho só que poderia ser).

Também me ocorre que se eu entrar numa loja com uma máscara de Carnaval tipo “Casa de papel”, que impede a identificação, é legal que me impeçam de entrar. Porque é que eu tenho de ser identificável, mas as pessoas de burka não?

E, sobretudo, quando passo por estas mulheres em dias de 42ºC, em que me sinto desmaiar de calor apesar das mangas cavas, e imagino o sofrimento físico que sem dúvida estão a passar, também penso com fúria nos homens que inventaram esta regra só para elas, enquanto eles andam por aí de roupas leves e cara à mostra.

É claro que, se não gostarem destas novas regras, eles (e elas, se quiserem realmente usar a burka), são livres de partir para um país onde isso seja usual.

Devo dizer que já estive em vários países muçulmanos. Em todos, por respeito, e apesar do calor insuportável, andei de roupas leves, mas de mangas e calças compridas. E num deles, à saída da fronteira, iam-me matando (é uma maneira de dizer, mas foi assustador, com muitos gritos e dedos apontados à mistura), porque eu tinha uma cruzinha ao pescoço, que eles por acaso não tinham detetado à entrada para me obrigarem a tirá-la, pois qualquer minúsculo símbolo de outra religião que não o Islão, é totalmente proibido.

A bem da grande discussão que já grassa sobre este assunto, nas redes sociais e não só, é importante saber que a burka (que cobre todo o corpo e o rosto, com uma rede nos olhos) é um costume cultural pré-islâmico, da região do Afeganistão e Paquistão, não é verdadeiramente um símbolo religioso nem tem origem no Corão que, pasme-se, se limita a recomendar modéstia no vestir, tanto para homens quanto para mulheres.

No entanto, é interessante ver como os partidos de esquerda, que normalmente se arrogam direitos especiais (vá-se lá saber porquê) sobre certos temas, como o feminismo, a igualdade de género ou o laicismo, sempre que se trata de qualquer tipo de opressão sobre as mulheres por parte de leis ou costumes islâmicos, esquecem imediatamente a defesa das mulheres e quase rasgam as vestes devido ao que, como dizia um deputado do PS ontem, é uma iniciativa apontada “àqueles que têm uma fé diferente”.

Suponho que, para os partidos de esquerda, as mulheres ocidentais (e, já agora, os homossexuais, mas isso fica para outra conversa) tenham mais direito à sua proteção cuidadosa, e que as “fés diferentes” sejam claramente superiores à fé cristã que, por ser demasiado habitual e, portanto, “pouco diferente”, deve ser duramente combatida, não vá ela ter ideia de se infiltrar nas leis democráticas, qual sharia católica, ou coisa que o valha.

Devo dizer que aplaudi esta lei porque acho que não é má ideia dizer que todo o ser humano tem o direito de respirar ar puro, de ver o mundo sem grades de tecido à frente dos olhos, e que respeitar os usos e costumes dos países que nos acolhem, só fica bem a quem entra.

Para mim, isto não tem a ver com política ou religião, tem simplesmente a ver com bom-senso e humanidade.