A situação no Leste da Ucrânia continua a agravar-se rapidamente e as partes beligerantes não dão sinais de que a solução do conflito esteja para breve, bem pelo contrário: ambas accionaram planos de mobilização geral.

“Dentro de dez dias, na República Democrática de Donetsk terá lugar uma mobilização geral, planeia-se mobilizar até 100 mil homens”, declarou Alexandre Zakhartchenko, chefe dessa auto-proclamada república pró-russa.

Se ele, como já aconteceu várias vezes, não vier desmentir as suas próprias afirmações, as forças militares da sua república irão juntar-se às da auto-proclamada República Democrática de Lugansk.

A justificação para esta medida é a resposta à mobilização por etapas anunciada por Kiev, que promete mobilizar 104 mil homens durante 2015.

Quanto às conversações de paz, a situação vai de mal a pior. Os separatistas pró-russos alegam que não assinaram qualquer documento sobre a linha de separação das partes beligerantes, elaborando em Setembro do ano passado, no âmbito dos Acordos de Minsk. Kiev diz que esse documento é para ser cumprido, mas os separatistas exigem que passe a servir de linha de separação a actualmente existente no terreno, que lhes permitirá controlar os novos territórios conquistados na ofensiva iniciada em Janeiro.

Quanto aos jogadores externos, a Rússia continua a fornecer aos separatistas armamentos cada vez mais modernos e a deixar entrar no país vizinho milhares de “voluntários” para combater contra o “regime fascista” de Kiev. Serguei Choigu, ministro da Defesa da Rússia, anunciou reforçar tropas e forças nas direcções estratégicas devido à situação político-militar criada em torno do seu país e o Presidente russo, Vladimir Putin, esclarece o alvo dessa política: “já não são forças armadas [ucranianas], mas uma legião estrangeira, neste caso uma legião estrangeira da NATO”.

Do outro lado, a NATO decidiu criar “postos de comando” em seis dos países membros próximos da Rússia: Polónia, Roménia, Bulgária, Estónia, Letónia e Lituânia, mas não existe unanimidade entre os países membros sobre a forma como reagir à política expansionista de Moscovo. Se os Estados Unidos se inclinam cada vez mais para a decisão de fornecer à Ucrânia “armamentos letais”, a chanceler alemã Angela Merkel continua a insistir no diálogo como forma de travar o alastramento do conflito com base nos Acordos de Minsk. Mesmo que a situação continuar a deteriorar-se, é difícil acreditar que os países da União Europeia cheguem a uma decisão unânime sobre o fornecimento de armas a Kiev e o mais provável é que alguns países da UE se juntem aos Estados Unidos na realização dessa tarefa.

Anton Tchekhov, clássico da literatura russa, escreveu: “Não se pode colocar no palco uma espingarda carregada se ninguém tencionar abrir fogo”. Neste conflito, resta esperar para ver que tipo de armas vão ser colocadas no teatro de guerra, sabendo à priori que elas poderão ser utilizadas.

Será que esta guerra só será travada num limiar igual ou semelhante ao da Crise das Caraíbas de 1962? A julgar pela propaganda russa, parece que sim e o desfecho deverá estar para os próximos meses.

P.S. Independentemente do tempo que irá durar este conflito, já há um vencido claro: Vladimir Putin. O Presidente russo colocou o seu povo e país numa aventura em que eles irão pagar um alto e doloroso preço. Putin revelou ser um mau táctico e um mau estratega no conflito da Ucrânia.