A maior parte das pessoas tem 4 dentes do siso. Porém, extraordinariamente, por vicissitudes da evolução humana, há quem nasça com menos. Há quem tenha 3, 2, 1 ou até zero dentes do siso. No domingo, foi descoberta uma nova excepção dentária: João Cotrim Figueiredo é o primeiro ser humano com dentes de indeciso. Os dentes de siso aparecem na idade em que começamos a ter juízo; os dentes de indeciso aparecem quando temos de tomar uma decisão que, por mais óbvia que seja, se revela insuportável.

Foi o que aconteceu a Cotrim na noite das presidenciais. No seu discurso, ao referir-se aos candidatos que passaram à 2.ª volta, Cotrim afirmou que não vai recomendar nenhum dos dois, pois considera que os portugueses enfrentam uma péssima escolha.

Ora, eu votei em Cotrim. Dei-lhe o benefício da dúvida na explicação atabalhoada de não saber onde tinha a cabeça. Confiei na sua sensatez. Mas alguém que olha para António José Seguro e André Ventura e os considera igualmente péssimos não revela possuir grande discernimento. Eu percebo que Cotrim não aprecie nenhum dos dois, mas esperava que houvesse uma gradação de desgosto. São dois graus de desagradabilidade ligeiramente diferentes. Se perguntarem a Cotrim: “Prefere que lhe cortem o cabelo ou a cabeça?”, tenho esperança que dê a resposta ajuizada e não diga: “Uma péssima escolha. Não gosto que me cortem partes do corpo, quaisquer que sejam. Prefiro não optar, outros que decidam por mim”. Por mais que uma pessoa se afeiçoe ao penteado – e eu, se fosse Cotrim, também não ia gostar de estragar aquela magnífica melena – o mero bom senso reconhece que as opções não são comparáveis.

Cotrim revelou aqui um bizarro afastamento da realidade portuguesa. Falta-lhe conhecimento do povo que pretendia chefiar. Se há matéria em que somos notáveis é em distinguir os termos presentes numa comparação, evitando confundi-los. Atesta-o o extenso acervo de sabedoria popular que, ao longos dos séculos, fomos recolhendo e continuamos a usar como alerta. Desde pequenos que somos ensinados a não comparar alhos com bugalhos. Ou o cu com as calças. E, já agora, as bordas desse mesmo cu com a Feira de Castro. A também não cotejar merda com ervilha-de-cheiro. Nem a Estrada da Beira com a beira da estrada. Ou o género humano com Manuel Germano (este da autoria de Mário de Carvalho). O mesmo para a obra-prima do Mestre com a prima do mestre-de-obras. E a minha predilecta: por favor não comparar abacaxi, apricot e ameixa com certa movimentação anatómica de cariz sexual cuja descrição é foneticamente aproximada à lista de frutos (porém imprópria para publicação), prestando-se à confusão.

Que Cotrim ache que a ideia de país que defende, materializada na sua candidatura, é igualmente possível quer com Seguro, quer com Ventura como Presidente, mostra que está baralhado. Ventura elogia Salazar, renega os princípios básicos da democracia liberal (sublinho liberal), apresenta propostas contrárias à ideia de regime defendida pelos partidos do sistema (onde se inclui a IL) e fá-lo com linguagem e modos alarves que não são próprios de alguém que quer representar os portugueses. Seguro, com todos os defeitos que possa ter, não. É muito simples: comparar os dois é confundir o sal da terra com o boçal da terra.

Os portugueses também são conhecidos pela capacidade em aproveitar ingredientes sensaborões para cozinhar óptimos e nutritivos pratos. Em momentos de aperto, o desenrascanço safa a situação. Pão duro, alho, coentros e água não parecem muito interessantes, mas quando há pouco para comer, uma açorda é deliciosa. António José Seguro, esnobado por tantos, dentro e fora do seu partido, vai ser Presidente. Chegados a esta decisão, é altura de dizer “Açorda, Portugal!”