Estive em Amesterdão várias vezes. A última já este ano. Recordação que necessitou de confirmação insistente. Em Janeiro, outros tempos. Outra vida. De qualquer forma, dessa vida, lembro-me de uma cidade confusa. Carregada pelo cinzento de um dia de inverno e de gente. Percebia-se espanhol e português por entre o arranhado holandês.

Hoje, já na Era contemplativa dos tempos do confinamento, olhando para a mostra televisiva habitual do estado dos países a enfrentar um presente mais duro do que o pior dos pesadelos, vejo imagens de uma versão melhor do a que me recebeu.

Vejo-a livre. Assim como Roma e outras grandes cidades europeias, Madrid e Lisboa mais próximas ao meu coração.

Livre está também a minha cidade. Vi-a outro dia, quando lá fui espairecer brevemente. Está livre de nós. Nós que as fizemos para as encher. Todos os dias e a bel prazer. De atividades e teres que fazer. De passeios e discussões. De ir ali e voltares, mais ou menos a horas, mais ou menos intencionados, bem, mal ou médio sucedidos.

As mudanças deste tempo inovador são de muita variedade e anormal dimensão, mas o esforço de arrumação está-me absolutamente entranhado (provavelmente pela sua sobreutilização doméstica atual). Não resisto em tentar fazer caber em poucas palavras.

Estamos perante um regresso. Um retrocesso para dentro, caminhando necessariamente em direção ao que interessa. Destino: Raíz.

As cidades, respiradas e arejadas, carregam-se uma vez mais do que antes já lá estava mas que se perdeu pelo pó levantado pelo nosso pisar acelerado. Os países são seus próprios novamente. Quem estava fora, por mais ou menos tempo, com mais ou menos vontade, regressa. Quem por aqui anda, cá pertence.

Em varandas estrangeiras canta-se ópera, outros, ao trocar o turno dançam sevilhanas. Nós, cá estamos. De hábitos alterados, com cuidados para aos quais não reconhecíamos utilidade e com medos que não sabíamos viver em nós. Vamos improvisando com as preparações inexistentes que a falta de capacidade de adivinhação nos permitiu. Desenrascando. Palavra cujo som tipicamente português sempre apreciei.

Numa onda de encorajamento, que hoje parece chegar a altos níveis de marés (é de aproveitar!), reparo nas plantas que florescem mesmo sem ninguém para as olhar. Que as canas picam e os pássaros dão sinal. E nós que gostávamos de consolar o ego a pensar que eram para nós. Percebemos finalmente. São de si.

Resta-nos sermos de nós. Sermos para nós. E chegarmos. Sermos suficientes. (Soa melhor em inglês. Ou falta-me a arte para fazer soar bem. Ou inspiração. Afinal já decorei as paredes e perdi a conta aos dias.)

Arrisco a flexibilidade do elástico para deixar um pedido. Sacuda-se, definitivamente, o tom depreciativo do desenrascanço nacional. Adaptámos. Produções, serviços, mentalidades e até tradições. Esperando. Mesmo como quem chama pela grandiosidade do termo Esperança. Esperamos que seja suficiente e que o final nos encontre ainda aqui, o melhor que pudermos manter-nos.