Este título veio-me à memória em 2013, quando li o artigo de Eduardo Lourenço intitulado “Crise de Identidade ou Ressaca Imperial?”, publicado em 1983 na Revista Prelo.

Se fazia sentido então, é minha convicção, de que nunca como hoje, Portugal e, por conseguinte, os Portugueses, necessitam de se empenhar numa catarse coletiva. É urgente um entendimento profundo sobre aquilo que somos, se gostamos daquilo que somos e, se não gostamos, o que precisamos de fazer para mudar.

Do ponto de vista da psicanálise, que não é a minha área, confesso, a catarse é o método psicanalítico que consiste em trazer à consciência recordações recalcadas, bem como a libertação de emoção ou sentimento que sofreu repressão (definições do dicionário online Priberam).

Ora, é na linha destas definições que proponho uma catarse coletiva para Portugal. Porquê? Em minha opinião, é a falta de um entendimento comum, racional e emocional, do passado e do presente, por um lado, e, por outro, não haver uma perceção, também racional e emocional, sobre o que significa ser Português, que nos impede de evoluir como país, seja em termos sociais ou económicos.

Sejamos claros. Todos nós sabemos que atualmente somos governados por pessoas incapazes para realizar tão nobre tarefa. No entanto, nada fazemos para alterar este miserável status quo, simplesmente não passamos do diz que disse, um desporto nacional a meu ver, pessoalizamos os assuntos em demasia e, cereja podre no topo do bolo estragado, desconfiamos uns dos outros.

Estamos tão presos na lama, com uma falta de autoestima tal e sem qualquer perspetiva de futuro para os nossos jovens, que uma simples aparição de Pedro Passos Coelho acende um rastilho que, como sempre neste nosso Portugal, se apaga depressa.

Por acaso, também considero que devíamos fazer já um par ou ímpar viciado e trocar de governantes, mas para quê e porquê? Para no dia a seguir à sua indigitação voltarmos à casa partida? A um país de gente desconfiada e sem qualquer empenho a sério nas tarefas sob sua responsabilidade? Não, obrigado.

Querem mudar de governantes? Mudem vocês primeiro. É urgente? Estou inteiramente de acordo. Trocar sem fazer diferente? Completamente contra.

Precisamos urgentemente de mudar a nossa mentalidade coletiva, a nossa forma de estar (pouco) séria perante os desafios, sejam eles pessoais ou profissionais. A nossa (falta de) ambição, enquanto país, é miserável.

E isto não se trata de palavras retiradas de um livro de desenvolvimento pessoal (nada contra), é o meu sentimento no final de 2020, que provavelmente se vai estender a 2021, porque simplesmente não somos capazes de enfrentar a dura realidade, de nos olharmos ao espelho e percebermos que não somos os maiores do mundo que nos tentam vender.

Temos muito a mudar e até isso acontecer não vale a pena estar a pedir aos céus pelo regresso de Pedro Passos Coelho. Desta vez, teremos de ser nós a mostrar que o merecemos como Primeiro-Ministro.