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Quando comecei a escrever este artigo, tive sérias dificuldades em procurar uma tradução para a expressão “Gender Gap”, que faria parte do título imaginado – Closing the Gender Gap in Tech. Como estou habituada a usar a expressão em inglês ,nunca pensei realmente no que seria a sua tradução para Português, então decidi ir ao Google Translate e procurar a melhor tradução possível. Comecei por pesquisar somente por “Gap” e deparei-me com os termos “lacuna”, “intervalo” e “separação”. Senti que havia uma certa conectividade negativa, no entanto, também encontrei palavras que me fizeram reflectir, tais como “abertura” e “brecha”.

Eu faço parte do mundo das tecnologias e durante o meu percurso profissional trabalhei em empresas de Portugal e Londres. Focando-me neste mundo, que é o meu, a, chamemos-lhe, “Lacuna de Géneros” é clara, principalmente nas áreas de liderança. Porque será que isto acontece? Porque é que as mulheres não conseguem chegar a cargos de liderança? O que é que está a acontecer para os homens dominarem essas posições? Será que o próprio facto de os homens dominarem as posições de liderança prejudica não só as mulheres como também aqueles que se identificam como mulheres a alcançarem essas posições? São muitas as perguntas em aberto, e ainda bem que assim o é. É bom que as questões estejam a ser levantadas e que estejamos a trazer o tema para a mesa. Quando fazemos uma pesquisa com os termos “Gender Gap” obtemos centenas de resultados contendo artigos que saem quase mensalmente, investigações ou estudos sobre o tema e agora com mais frequência o tema “Gender Gap in Tech”.

O problema está exposto, o tema está a ser abordado. Mas qual é a resposta para fecharmos esta “Gap”? Essa é a pergunta para um milhão de euros. Antes de tudo temos que nos educar. Educar, educar, educar… A nós próprios, os nossos parceiros, os pais e avós, os amigos e colegas, as nossas empresas e, não menos importante, aqueles que não fazem parte do mundo tecnológico, porque toda a gente precisa de saber que este problema existe, que quando a filha, namorada, esposa está a progredir na sua carreira o seu trajeto não é tão linear como o de um homem.

Atualmente tenho a sorte de estar numa empresa que se quer educar, que reconhece que existe um problema e que quer ser melhor. Por isso eles convidaram todas as mulheres e aqueles que se identificam como tal a concorrerem a um “Leadership Program” (Programa de Liderança) patrocinado por eles. Tudo o que tínhamos que fazer era arranjar uma iniciativa sobre a qual gostaríamos de trabalhar e escrever um pitch. No meu caso, o meu pitch foi em como eu ia estudar o tema “Gender Gap in Tech”, e sim, estudar é o termo a usar. O meu pitch foi um sucesso e estou então neste momento a ler, pesquisar e a educar-me sobre o cenário global, a consciencializar-me sobre o assunto antes que possa agir sobre ele. Estou também a planear inquéritos com perguntas para as quais não tenho resposta, a questionar a equipa de recrutamento sobre quais as técnicas que eles usam e se existe alguma coisa que podemos melhorar, a falar com mulheres em cargos de liderança que conseguem reter talento na empresa e tantas outras coisas…

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Não seria ótimo se as empresas pensassem a longo termo também? Incentivar o público mais jovem a seguir uma carreira na tecnologia, apoiar escolas, providenciar estágios, fazer parcerias com associações. Trabalhar e tentar mudar o pensamento das nossas empresas que querem o benefício imediato e acima de tudo apontar para um futuro melhor, um futuro em que este tema já não tem necessidade de ser tema.

Deixo aqui o “MEU” projecto, o projecto que eu gostaria que fosse “NOSSO”, com a esperança de que todas as empresas tenham alguém a trabalhar para garantir que não existe discriminação e que todas as pessoas têm a oportunidade merecida. E finalmente, para que nós possamos gradualmente tornar uma Lacuna de Géneros numa Abertura para todos os Géneros.

Lúcia Mendes é Quality Assurance Engineer na Beyond, uma empresa do Reino Unido que abriu um escritório em Lisboa à pouco mais de 1 ano e conta também com presença nos Estado Unidos. Formada em Engenharia Biomédica com Mestrado em Tecnologia Biomédica – Instrumentação e Sinais Médicos, a Lúcia começou a sua carreira em Lisboa mudando-se mais tarde para Londres. Em 2021 regressou a Portugal. Adora viajar, ler e o mundo da moda e tudo o que o envolve.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.