Política

Desterritorialização e extra-territorialidade

Autor

Nesta batalha já longa entre o mercado global e a democracia doméstica, a desterritorialização e a extra-territorialidade convertem-se nos principais adversários do velho Estado-nação vestefaliano.

A desterritorialização e o seu corolário lógico, a extra-territorialidade, são as grandes questões políticas do século XXI e todos somos cidadãos migrantes imersos neste grande paradigma da mobilidade. A desterritorialização do século XXI transforma a (i)mobilidade na grande restrição do nosso tempo, enquanto o tempo e o espaço da extra-territorialidade se transferem, em boa medida, para o ciberespaço.

A desterritorialização, a questão política do século XXI

Nesta batalha já longa entre o mercado global e a democracia doméstica, a desterritorialização e a extra-territorialidade convertem-se nos principais adversários do velho Estado-nação vestefaliano cuja matriz inicial assentava, justamente, na soberania territorial e na delimitação da sua jurisdição respectiva. Para o ilustrar, nos dias de hoje, basta lembrar a proposta de arbitragem extra-territorial contida no projecto de tratado transatlântico (TTIP), as inúmeras comunidades online que circulam no ciberespaço, a imensa nebulosa da economia do cloud computing e do Big Data, os 3D das plataformas tecnológicas e respectivas aplicações (desterritorialização, desmaterialização e desintermediação), a especial desterritorialização da economia ilegal e clandestina e da economia de guerra, entre outros exemplos. Vejamos, mais de perto, algumas dimensões deste movimento profundo de globalização, desterritorialização e extra-territorialidade.

1. A topoligamia do cidadão migrante e cibernauta
Todas as “fixações ou imobilidades” dos territórios da primeira modernidade são progressivamente substituídas pelo conceito de mobilidade migrante, isto é, todos somos cidadãos migrantes; o capitalismo tem por objectivo central dissolver e eliminar todas as barreiras e todas as fronteiras; podemos mesmo falar de topoligamia do cidadão cibernauta, pois estamos “casados”, simultaneamente, com vários territórios reais e virtuais.

2. O paradigma da rede é multiterritorial
A desterritorialização dá, assim, lugar à multiterritorialidade, um espaço-arquipélago, múltiplo e descontínuo, onde não há abandono mas conexão e articulação de múltiplos territórios; por isso, a multiterritorialidade assumirá a forma de um mix de territórios de geometria fixa e de geometria variável, donde a “jurisdição multiterritorial e dos comuns” assumirá uma importância crescente no próximo futuro.

3. Uma multiterritorialidade feita de múltiplas diásporas
Multiterritorialidade quer dizer, também, multi-pertencimento; na era tecnológica e digital, os trabalhadores e os territórios-precários da globalização estarão imersos numa mobilidade e velocidade constantes, isto é, serão parte de múltiplas diásporas, elas também cada vez mais curtas e intensas, uma espécie de bricolage identitário num presente perpétuo em constante movimento.

4. O poder é extra-territorial, o campo do free raider e do moral hazard
A desterritorialização é o outro lado da globalização, por isso, doravante, o grande poder é extra-territorial e está nas mãos do mercado; o domínio extra-territorial é a grande praça forte do capitalismo transnacional que tudo fará para impedir a sua internalização, institucionalização e regulação, já para não falar do seu combate contra projectos políticos como a União Europeia; por outro lado, o domínio extra-territorial é o campo privilegiado da corrupção, da evasão, do branqueamento de capitais e, de uma maneira geral, de todos os comportamentos de free raider e moral hazard.

5. O ciclo vertiginoso dos territórios-precários
Os territórios também se abatem, todos os territórios são postos em causa, todas as ameaças são extra-territoriais e muitos lugares são desmaterializados (não-lugares); um território é um espaço em perpétuo movimento e encurtam-se os ciclos de desterritorialização-reterritorialização-multiterritorialidade; por causa deste movimento perpétuo, estamos sempre a sufocar os micro-poderes em benefício dos macro-poderes e da acumulação capitalista, um movimento que se reveste de uma violência simbólica impressionante.

6. Da cultura identitária para a indústria da cultura
Neste presente perpétuo, a história deixa de ser fonte de cultura identitária para ser um manancial de recursos low cost ao serviço da indústria da cultura; de certa forma, a história é pilhada e trazida para o presente sob múltiplas formas: vintage, revivalismo, ecletismo, nostalgia, romantismo, pastiche; os eventos e os refúgios nostálgicos são a imagem de marca onde se revelam as novas próteses identitárias; na internet nós pertencemos a várias tribos, por isso, o antigo mito da comunidade é actualizado pelo paradigma da rede, um intercambio constante entre massa (incógnito) e rede (reconhecimento).

7. O excesso de ruído virtual e a economia da distração
Neste oceano imenso de informação tribalizada, as relações dão lugar às comunicações que são um terreno fértil para a pós-normalidade feita de aparências, imagens e ilusões, enfim, do ruído como matéria-prima das redes técnicas e virtuais; do mesmo modo, neste tempo de presente perpétuo, também os sinais e os signos do futuro são trazidos para o momento presente: as artes, a inovação, a criatividade e a cultura são celebradas sob múltiplas formas e são o alimento privilegiado da economia do entretenimento e da distração.

Notas Finais

Como fica claro, o grande paradoxo do nosso tempo é a transnacionalidade do mercado global contraposta à domesticidade da democracia nacional e, em consequência, o “abismo extra-territorial” que se abre à nossa frente. Como se sai daqui?

  • Em primeiro lugar, não estamos em condições de impedir, pelo menos no mundo livre, a topoligamia do cibernauta e a multiterritorialidade das múltiplas diásporas;
  • Em segundo lugar, não podemos permitir que cresça o “abismo extra-territorial” sob pena de nos abeirarmos perigosamente do “caos neo-medieval e das suas invasões”;
  • Em terceiro lugar, precisamos urgentemente de um governo mundial que feche ou reduza o “abismo extra-territorial”; neste momento, porém, o internacionalismo liberal e as suas instituições não sabem como lidar com a multipolaridade do poder tal como ele se apresenta hoje em dia;
  • Em quarto lugar, emerge na cena internacional um “neo-imperialismo de áreas de influência”, um novo equilíbrio de poderes protagonizado por “homens duros”, no quadro de um multilateralismo informal de múltiplas conveniências;
  • Por último, o exemplo comunitário da União Europeia, uma experiência de neo-regionalismo democrático, pode frutificar em outras paragens e, neste contexto, seria um exemplo para o mundo a reabilitação da ideia e do projecto de “União para o Mediterrâneo”.

Universidade do Algarve

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

Populismo, Portugal e o Mar

Gonçalo Magalhães Collaço

A capacidade que a Esquerda tem, e sempre teve, para se impor, dominar e exercer o condicionamento mental que exerce, é admirável.

Política

As direitas a que Portugal tem direito /premium

Alberto Gonçalves

Visto que em Portugal a direita se define por ser tudo aquilo de que a esquerda não gosta, eu defino-me por não gostar de tudo aquilo o que a esquerda é. Quanto à direita, tem dias. E tem direitas.

ADSE

As guerras da saúde fazem sentido? /premium

Rui Ramos
289

Na cínica “ideologia do SNS” não temos qualquer preocupação com a saúde pública, mas um projecto de domínio da sociedade pelo poder político e ainda um cálculo eleitoral partidário. 

Governo

Pode alguém pedir que se aja com escrúpulos?

Rita Fontoura
544

A falta de escrúpulos está a destruir o nosso país. Fomos enganados e estamos a ser enganados. É algo que não salta à vista e por isso engana, o que não espanta já que quem nos governa teve bom mestre

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)