Com a morte do Papa Francisco, o primeiro papa jesuíta da história, e a eleição de Leão XIV, agostiniano de origem e formação, abre-se um novo capítulo no governo e liderança da Igreja Católica. Muito já foi dito sobre o legado de Francisco — um pontificado marcado por uma liderança próxima, global, pastoral, reformista e querendo chegar a todos — mas ainda pouco se pode dizer – não obstante termos opinião “informada” por todo o lado e isso tem sido visto nos jornais e televisões – sobre o que virá com Leão XIV. Penso que o único ponto que se pode concluir é que nem Francisco abdicou de ser sempre um jesuíta nem Leo XIV : tal como Francisco nunca deixou de ser jesuíta, Leão XIV jamais deixará de ser agostiniano. E isso é o que pode moldar a liderança.
Francisco, o Papa Jesuíta: Estratégia, Abertura e Influência
Ser jesuíta é pertencer a uma ordem com uma identidade clara e um modo de proceder profundamente pragmático e estratégico. Francisco mostrou isso desde o início. A sua liderança combinou três vertentes:
- A ação política discreta – sem medo de abordar temas difíceis, mas sempre com diplomacia e extrema simplicidade.
- A força educativa e cultural – reformando o discurso da Igreja com apelo global e tocando em múltiplas feridas.
- A influência por presença – próximo das periferias, das margens, dos invisíveis.
O seu soft-power esteve na capacidade de transformar a linguagem do papado, redesenhando-o para um mundo plural e muito para além da sua igreja. Chegou a todo o lado. Como bom jesuíta, não rompeu com a doutrina, mas deslocou o foco para a misericórdia, o discernimento e a escuta — sempre atento aos sinais dos tempos.
Leão XIV, o Papa Agostiniano: Interioridade, Comunhão e Esperança
O novo Papa, vindo da tradição agostiniana, traz consigo outra matriz espiritual — menos voltada para a mobilidade estratégica e mais ancorada na interioridade, na comunhão e na busca da verdade.
Se os jesuítas são os arquitetos do campo de batalha cultural e diplomático, os agostinianos são os mestres da consciência. A sua liderança poderá ter tendência a ser:
- Silenciosa, mas densa – exercida pelo exemplo e pelo pensamento profundo.
- Comunitária – promotora da unidade, da vivência em conjunto e da criação de pontes, aliás logo perceptíveis desde a sua nomeação.
- Enraizada na escuta interior – o poder da verdade, que se procura mais do que se impõe.
É plausível imaginar que Leão XIV traga à Igreja uma liderança menos orientada para a geopolítica e mais virada para a reforma espiritual — talvez mais lenta, mais orgânica, mais focada na cura da própria Igreja.
Dois Caminhos, Uma Missão
Ambos os estilos — o jesuíta e o agostiniano — partilham um amor incondicional pela Igreja e igualmente pela reforma, mas talvez divirjam nos métodos. Francisco liderou com o olhar voltado para o mundo e para a transformação da linguagem institucional. Leão XIV poderá conduzir com o olhar voltado para dentro, restaurando sentidos, ritmos, profundidade e espiritualidade.
A liderança, neste contexto, não se resume à ação visível. É também a forma como se encarna uma tradição. E tal como Francisco nunca deixou de ser jesuíta — na astúcia espiritual, na inteligência tática, na pedagogia global — Leão XIV não deixará de ser agostiniano — na busca da verdade interior, no convite à comunhão e no poder discreto da esperança.
Acabemos, pois, com a designação de mais progressista ou mais ortodoxo e com outras caracterizações espúrias. A forma como devemos olhar e prever a ação deste novo papado será dada pela ordem e obediência agostiniana, que não deixará jamais de ser verificar.
O tempo mostrará o alcance desta nova liderança. Mas entre o pragmatismo jesuíta e a interioridade agostiniana, a Igreja caminha entre dois estilos complementares, não obstante sempre unidos por uma mesma missão: conduzir, com fé e sabedoria e influenciar o mundo para o bem.