Um ciclone passou pela política. Depois de, na primeira volta, os candidatos de direita se terem dedicado com inusitado sucesso a anular-se entre si, Ventura e Seguro protagonizam agora, por razões meteorológico-políticas, a mais estranha campanha que alguma vez vimos: ignoram-se como se cada um deles fosse candidato noutro país. Falam sobre o tempo, criticam o Governo e procuram avaliar os riscos para as suas candidaturas dum passo em falso. O vento que levantou telhados roubou o chão a Seguro e Ventura.
É certo que as coisas já iam bizarras com Seguro a ser levado para Belém numa espécie de andor da Virtude (devidamente maiusculada) perante um Ventura desconcertado não tanto com a aclamação a Seguro, que era mais que esperada, mas com a possibilidade de o seu sucesso ser também o seu fracasso. Ventura conseguiu o que mais nenhum líder conseguiu em Portugal – afirmar em poucos anos um novo partido e torná-lo um dos “grandes” – contudo o seu eleitorado cresceu demais para que o PSD ainda o possa ver como um parceiro mas não o suficiente para aspirar a formar Governo.
Neste momento, Seguro e Ventura protagonizam esta campanha-crónica da vitória antecipada de Seguro e da derrota-vitória de Ventura (para o líder do Chega estar na segunda volta é já uma vitória e se conseguir ultrapassar os 31,21 que a AD obteve nas legislativas terá uma dupla vitória). Mas a ambos (e não necessariamente pelas mesmas razões) há um número que não passará desapercebido: o dos eleitores que votam em branco ou anulam o voto. Um grupo minoritário que cresceu significativamente na primeira volta destas eleições.
A 18 de Janeiro, 64.817 votos foram declarados nulos e 60.899 foram votos em branco. Ou seja 1,13 % dos votos foram nulos e 1,06 em branco. Pode parecer pouco mas se acrescentarmos que estas percentagens representam um aumento de 62% e 23%, respectivamente, em relação às eleições presidenciais de 2021, teremos de constatar que há aqui algo que pode estar a mudar. Mais, da evolução da tracking poll da CNN para esta segunda volta pode concluir-se que Seguro será o provável vencedor e também que o número de eleitores que votam em branco/nulo também crescerá.
Votar dá trabalho. Há que sair de casa, ir para uma fila, esperar… Devia portanto merecer mais atenção que uma vez percorridos todos esses passos o eleitor opte por dobrar o boletim de voto sem assinalar cruz alguma ou, pelo contrário, o anule (já vai sendo tempo de deixarmos de olhar para os votos nulos como aqueles em que o eleitor não conseguiu respeitar os limites do quadradinho) O chamado voto de protesto é um protesto contra quê ou quem?
PS. O único restaurante israelita existente em Lisboa fechou. Ameaças, insultos, graffitis… levaram os seus proprietários a fechar a porta. No pouco espaço mediático dedicado ao assunto fala-se de anti-sionismo e anti-semitismo para explicar o sucedido. Porque não racismo? Porque não xenofobia? Porque se falarmos de racismo o ónus recai sobre o racista e não sobre aquele que o sofre. Já quando dizemos anti-sionista o problema está no sionista e não tanto naquele que se lhe opõe. Um dia a poeira assentará e tudo isto parecerá que nunca aconteceu. Sobretudo aqueles que agora gritam Free Palestine olharão para outro lado como se nunca tivessem alinhado nestas campanhas.