No artigo anterior acompanhámos os primeiros acontecimentos que uma mãe alienada identificou como sinais de que alguma coisa começava a mudar na relação familiar. O divórcio tinha sido consensual, tinha sido estabelecida uma organização da guarda dos filhos em semanas alternadas e, apesar disso, começaram a surgir diferenças entre o pai e a mãe relativamente ao cumprimento do que havia sido acordado.
A mãe também identificou uma narrativa por parte do pai na qual era, progressivamente, responsabilizada perante os filhos pelo divórcio, pela organização das semanas e pelas regras que procurava manter.
Quando o poder e o controlo já existiam durante o casamento
Regressando mais atrás na história da família para analisar a sua situação de alienação, esta mãe considerou ainda que algumas das dinâmicas que mais tarde se lhe tornaram evidentes já estavam presentes durante o casamento: “E, na verdade, penso que isto já tinha começado durante o casamento. Na prática, considero que já existia uma dinâmica de manipulação, poder e controlo, que também estava na origem de muitos dos nossos conflitos, porque a última palavra acabava por ser sempre a do pai. As crianças percebiam isso e sabiam quem tinha mais poder dentro da família. Penso que, de alguma forma, isso também as levava a sentir necessidade de se colocarem do lado de quem percebiam como sendo o mais forte”. Este testemunho introduz uma dimensão importante para compreendermos a história tal como esta mãe alienada a viveu: a separação conjugal não significa necessariamente que as dinâmicas relacionais existentes durante o casamento desapareçam no momento do divórcio.
Neste caso, a mãe descreveu uma relação em que sentia que a última palavra pertencia habitualmente ao pai e considerou que os filhos percebiam essa diferença de poder dentro da família. Quando uma criança percebe um dos pais como sendo a figura mais forte ou com maior poder, pode procurar adaptar-se a essa realidade, aproximando-se de quem sente que tem maior controlo sobre a situação. Esse posicionamento pode funcionar como uma forma de proteção perante o conflito, sobretudo quando a criança sente que contrariar essa figura poderá ter consequências na relação.
A saída do prédio e uma mudança na dinâmica familiar
Depois do divórcio, a mãe viveu aproximadamente um ano num apartamento do pai situado no mesmo prédio em que este vivia. Essa foi uma opção inicialmente assumida porque se considerava que a proximidade entre as casas dos pais permitiria às crianças circular mais facilmente entre ambas. Mas veio, segundo a mãe, a dificultar a manutenção da organização em semanas alternadas. Por isso decidiu sair desta casa e adquirir uma outra, própria, noutro local. Sobre este assunto, a mãe recordou-nos que: “Depois do divórcio, permaneci durante cerca de um ano naquele apartamento, no mesmo prédio do pai das crianças. Foi um período de transição. Entretanto, comprei uma casa e mudei-me para muito perto, no mesmo bairro e, inclusive, em frente à escola das crianças. Foi a partir dessa mudança para a minha nova casa que, na minha perspetiva, a alienação parental começou a manifestar-se de uma forma muito mais evidente e dramática. Foi aí que começou verdadeiramente todo o processo e também um período de grande sofrimento para a nossa família. A maior vítima foi, sem dúvida, o meu filho mais velho. Mas a minha filha mais nova também foi afetada. Embora não tenha sido envolvida de forma tão direta no processo, acabou por sofrer indiretamente e por ser também muito afetada por tudo aquilo que estava a acontecer”. Para esta mãe, a mudança de casa representou muito mais do que uma mudança de residência. Foi o momento a partir do qual considerou que a dinâmica familiar se alterou significativamente e que aquilo que identificou como alienação parental passou a manifestar-se de forma mais evidente, com uma sucessão de acontecimentos que alteraram profundamente a relação familiar. E o primeiro deles envolveu diretamente o filho mais velho, a quem começou a ser transmitida uma mensagem particularmente negativa acerca da mãe
A mãe era muito má porque estava a afastar os filhos do pai.
A mãe associa a saída do prédio a uma perda de controlo por parte do pai e situa nesse período o pedido de guarda do filho mais velho: “Quando eu saí daquele prédio, senti que o pai perdeu o controlo que até então tinha sobre a situação. Foi nessa altura que pediu a guarda do nosso filho e começou a dizer-lhe que a casa para onde eu me estava a mudar não era boa, que ele teria de sair do prédio onde sempre tinha vivido e que a mãe era muito má porque estava a afastar os filhos do pai. Dizia-lhe também que, com esta mudança, passariam efetivamente uma semana sem se ver. Entretanto, numa sexta-feira em que me cabia ir buscar os meus dois filhos à escola, fui ao colégio para os buscar e o meu filho já não estava lá. O pai tinha-o ido buscar, apesar de aquela sexta-feira corresponder ao meu período com as crianças. A minha filha mais nova, essa, tinha ficado no colégio”. Este testemunho ilustra a manipulação do pai através da construção e transmissão ao filho de uma representação negativa da mãe. A mudança de residência deixa de ser apresentada apenas como uma decisão da mãe relativamente à sua própria vida e passa a ser transmitida ao filho como uma forma de o afastar do pai, acompanhada da mensagem de que “a mãe era muito má” porque estava a afastar os filhos do pai. Ao mesmo tempo, aconteceu algo concreto na organização parental. No dia em que a mãe deveria ir buscar os dois filhos ao colégio, o filho mais velho já tinha sido levado pelo pai, enquanto a filha mais nova permanecia na escola. Começou aí a tornar-se visível uma diferença que seria central na sua história, aquilo que estava a acontecer não se refletia da mesma forma sobre cada um dos dois irmãos.
Quando a escola não sabia a quem correspondia aquela semana
Perante a ausência do filho, a mãe procurou perceber junto do colégio o que tinha acontecido: “Perguntei então no colégio por que razão tinham permitido que o meu filho saísse com o pai, se naquele dia era a mãe que o deveria ir buscar. Perguntei: ‘Mas o que é que se passa?’ No colégio não souberam explicar, porque não tinham qualquer indicação sobre a organização das semanas e, naquele momento, não sabiam a qual dos pais correspondia aquela semana”. Este episódio mostra também a importância das instituições que fazem parte da vida da criança disporem de uma informação clara sobre a organização parental, sobretudo quando existe um conflito entre os pais. De facto, quando a escola não sabe quem deve recolher a criança num determinado dia, pode involuntariamente ficar colocada no centro de uma divergência familiar para a qual não dispõe de informação suficiente.
“Eu não sabia onde estava o meu filho”
Para a mãe, porém, naquele momento existia uma preocupação muito mais imediata, não sabia onde estava o filho: “Eu não sabia onde estava o meu filho. Tentava ligar ao pai, mas já não conseguia contactá-lo. Mais tarde, o pai enviou-me uma mensagem a dizer que o nosso filho não queria estar comigo porque tinha medo da mãe”.
O medo da mãe é apresentado como justificação para o filho não estar com ela.
A afirmação de que uma criança tem medo do pai ou da mãe é séria e deve ser compreendida e avaliada. É necessário perceber se esse medo, quando surge, é efetivamente expresso pela própria criança, a que acontecimentos concretos é que está associado e se é coerente com a história anterior da relação. A palavra “medo”, por si só, não nos permite compreender a sua origem, nem sequer saber se a criança o expressou nos mesmos termos em que essa informação lhe está a ser atribuída por um adulto.
Há, nesta história, uma questão que a própria mãe nos colocou e que se torna particularmente importante nesta história: “se existia uma preocupação do pai com a segurança das crianças junto da mãe, por que razão apenas o filho mais velho foi levado pelo pai, enquanto a filha mais nova permaneceu no colégio para ser entregue à mãe?”
O filho não sabia de quem era a semana
Quando finalmente conseguiu falar com o filho, a mãe constatou uma situação que, para si, parecia contradizer parte da explicação que lhe tinha sido transmitida: “Quando consegui falar com o meu filho, percebi que ele próprio nem sabia de quem era aquela semana. Perguntou-me de quem era a semana e depois disse-me: ‘Não, estou com o pai. Viemos ao centro comercial, o pai vai comprar-me umas chuteiras e uma PlayStation e, este fim de semana, vou ficar com o pai.’ Nesse momento entrei em desespero. Para mim, começou também a colocar-se a questão das prendas e daquilo que eu sentia que estava a ser transmitido ao meu filho. Interpretei aquelas ofertas como uma forma de o premiar por ter feito aquilo que o pai pretendia e por permanecer com ele, afastando-se de mim. Havia ainda outra questão que me fazia pensar. O pai tinha ido buscar apenas o nosso filho mais velho e tinha deixado a nossa filha mais nova no colégio. Se a justificação apresentada era a de que o nosso filho tinha medo de mim e de que eu era uma má mãe, perguntava-me por que razão essa preocupação existia apenas relativamente a um dos filhos. Se eu era uma má mãe para um, por que razão não o seria também para a outra?”
Para esta mãe, neste episódio, as prendas assumem um significado particular. Ela interpreta-as como uma recompensa associada à permanência do filho com o pai e ao seu consequente afastamento da mãe. Não se tratava apenas de oferecer umas chuteiras ou uma PlayStation, mas de reforçar positivamente uma situação em que o filho permanecia com o pai num período em que deveria estar com a mãe.
Por que razão um filho e não o outro?
A mãe procurou explicar a diferença de tratamento que o pai deu aos dois filhos através da história da relação do pai com cada uma das crianças: “Eu acredito que existia um controlo muito maior sobre o meu filho. Ele tinha um sentimento muito forte de admiração pelo pai, mas também de medo. Era mais velho e, na minha perspetiva, já existia sobre ele uma influência e um controlo maiores. Com a minha filha era diferente. Ela era mais nova, muito dependente e muito ligada a mim. Tinha muita dificuldade em ficar sozinha com o pai e, por isso, penso que também era mais difícil construir com ela a mesma narrativa. Quando a minha filha nasceu, como ainda era amamentada e permanecia muito comigo, o pai acabou por passar mais tempo com o nosso filho mais velho. Isso contribuiu para que se criasse entre os dois uma relação mais forte do que aquela que, naquela altura, existia entre o pai e a filha mais nova. Eu não sei dizer exatamente o que se passava na cabeça do pai, mas aquilo que senti e observei foi que ele conseguiu exercer uma influência muito maior sobre o nosso filho mais velho e levá-lo a comportamentos que não conseguiu reproduzir com a mais nova. De facto, nessa fase, a minha filha nunca chegou a ficar sozinha com o pai”. A questão central desta história não esteve simplesmente no facto de o pai ter uma relação diferente com cada um dos filhos. Isso acontece naturalmente em muitas famílias. Importa compreender que, no conjunto das situações que esta mãe identificou como fazendo parte do processo de alienação parental, a influência do pai refletiu-se sobretudo sobre o filho mais velho.
O pai utilizou a relação de maior proximidade, admiração e influência que mantinha com filho para o manipular contra a mãe, algo que não conseguiu fazer da mesma forma com a filha mais nova. O filho mais velho tinha passado mais tempo com o pai e, nas palavras da mãe, existia entre ambos uma relação marcada por uma forte admiração, mas também pelo medo. A filha mais nova, por sua vez, permanecia muito ligada à mãe e tinha dificuldade em ficar sozinha com o pai. Os dois irmãos não estavam, portanto, na mesma posição perante aquilo que estava a acontecer.
Quando a alienação incide sobre um filho e não sobre o outro
Esta história mostra-nos um aspeto particularmente importante, um processo de alienação parental pode incidir sobre um dos filhos sem produzir a mesma rejeição num irmão. Esta diferença coloca uma questão importante. Se a mãe fosse efetivamente aquilo que estava a ser transmitido ao filho mais velho, “má” ou alguém de quem ele deveria ter “medo”, como compreender que a filha mais nova permanecesse com ela e mantivesse uma relação de forte proximidade materna? A existência de respostas diferentes entre irmãos obriga-nos a olhar cuidadosamente para a história de cada filho, para as mensagens que cada um foi recebendo e para a forma como a relação com o pai e com a mãe se foi transformando ao longo do tempo.
Dois irmãos, duas formas de sofrer
Ao reconstruirmos esta história, percebemos que o afastamento do filho mais velho não surge como um acontecimento isolado ou repentino. A mãe descreveu um processo que se foi construindo ao longo do tempo: uma dinâmica anterior de poder e controlo, uma maior influência do pai sobre o filho mais velho, mensagens negativas acerca da mãe, a afirmação de que “a mãe era muito má”, a retirada do filho da escola, a alegação de que ele “tinha medo da mãe” e, progressivamente, o afastamento da figura materna. Ao mesmo tempo, a filha mais nova permaneceu ligada à mãe. Na perspetiva desta mãe, a filha não foi alvo da mesma dinâmica de manipulação e alienação exercida sobre o filho mais velho e, por isso, não desenvolveu a mesma rejeição materna. É precisamente esta diferença que importa compreender. Dois irmãos podem viver o mesmo conflito familiar e ser afetados de formas muito diferentes.
Um filho pode começar a repetir uma narrativa negativa sobre a mãe ou o pai, apresentar medos que anteriormente não existiam, recusar o contacto e afastar-se progressivamente. O outro pode continuar próximo desse pai ou dessa mãe. Mas permanecer próximo não significa permanecer indiferente ao sofrimento familiar. A filha mais nova não desenvolveu a rejeição da mãe, mas, como a própria mãe refere, também foi afetada pelo que estava a acontecer na família, ainda que de uma forma diferente.
Nesta história, continuaremos a acompanhar a forma como o filho mais velho se foi progressivamente afastando da mãe, enquanto a irmã permaneceu ligada a ela, e quais foram as consequências deste processo para cada um dos filhos.