Ainda bem que ontem fiquei à espera do fim do debate entre António José Seguro e André Ventura para terminar a minha crónica: as sonecas que fui tirando durante as intervenções de Seguro deixaram-me muito mais fresco para concluir a labuta.

De qualquer forma, não vi respondida a minha questão fundamental: nesta segunda volta das presidenciais ainda haverá cabines de voto? Ou já se votará de braço no ar no poli-desportivo da junta, para identificar, claramente, os impuros que não votam Seguro? É só para saber se deixo de parte, para vestir dia 8, uma roupa velha que possa ficar encardida com molho de tomate podre e marcas de sapatos nas nalgas.

Quem me manda não me ter juntado ao rebanh… ao grupo!, ao grupo de 250 figuras da área “não-socialista” que declarou o seu amor incondicional — ou o seu apoio, vá — a António José Seguro. Da área “não-socialista”, ou para ser mais preciso, da área “não! socialista!”, mesmo como quem diz “mas quê, pensavam que tínhamos seguido aquela ideia do Soares de meter o socialismo na gaveta?! Ah, ah, ah!”

Bom, para não estar a apresentar estas figuras da área “não! socialista!” uma a uma e terem uma ideia do tipo de malta de que estamos a falar, ponhamos as coisa desta forma: estes 250 são uma espécie daqueles 300 do filme com o mesmo nome, mas enquanto no filme os 300 espartanos estavam prontos para a Batalha das Termópilas, estes 250 espertalhões estão prontos para manter a tralha socialista. Eh pá, até levo a mal estarem à espera de um trocadilho com o nome da localidade que baptizou este confronto histórico…

Do que não há dúvida é que esta agremiação “não! socialista!” tem inegável talento. Gostemos ou não, é de grande habilidade conseguir criar o grupo de “não-socialistas” por Seguro. É ainda mais impressionante do que, digamos, organizar o grupo de jovens bloquistas pelo duche; ou o grupo de vegetarianos pelo bife Wellington; ou, melhor ainda, o grupo de activistas LGBTQIA+ pela circunspecção.

Embora não negue que para a reunião de tal rol de celebridades muito terá contribuído a figura de Seguro, que é realmente o maior. Tenham paciência, digam o que disserem, é… o… maior. É o maior mal menor de sempre, para o maior número de gente que mais contribuiu para que quase 20% dos portugueses vivam abaixo do limiar de pobreza. Seguro reúne uma unanimidade tal que a própria União Nacional deixaria escapar, entre dentes, um “eh pá, cortem lá no unanimismo, que a coisa assim fica um bocadinho escandalosa.”

Mas, atenção, não estou com isto a insinuar que “o sistema” está contra Ventura. Aliás, sistema? Qual sistema? Quem é que falou em sistema? Mas agora só se fala no sistema? Usa-se o sistema para insinuar tudo e mais alguma coisa, quando na verdade ninguém sabe o que é o sistema. Parece que voltámos aos anos 90 do futebol português, a toda a hora com a conversa do sistema. “Oh, Tiago, mas nos anos 90 o sistema de que se falava no futebol português era, claramente, a dupla Pinto da Costa-Valentim Loureiro.” Chiu, agora sou eu quem está a escrever a crónica.

É como se tudo fizesse parte do sistema. Então mas agora um Paulo Portas, por exemplo, também faz parte do sistema? Portas que, para justificar o apoio a Seguro, garante que já nos basta aturar um Trump nos EUA para ainda termos um Ventura por cá. Uma coisa é verdade. Ventura tem, de facto, algo em comum com o POTUS: em 2016 os apoiantes de Trump mereceram o apodo de “deploráveis” e agora Ventura viu os seus eleitores serem apelidados de “atrasados mentais”. Segundo Sérgio Sousa Pinto, ex-deputado socialista, “se o eleitorado acha que o Partido Socialista é um grande perigo e André Ventura não é, então o eleitorado é atrasado mental.”

Ou seja, se Ventura ganhar as eleições, a opinião de Sérgio Sousa Pinto — ou a Hillary Clinton portuguesa, como preferirem — é que ao Presidente dos Afectos seguir-se-á o Presidente dos Infectos. E eu bem sei que Ventura já disse não querer ser o Presidente de todos os portugueses, mas, caso ganhe, aposto que fará questão de ser também o Presidente de Sérgio Sousa Pinto.