Com a eleição do novo Papa, veio-me à memória o momento em que estive perto de um Santo Padre. Tinha 15 anos e encontrava-me numa viagem de estudo de Educação Moral e Religiosa a Roma, no meu longínquo 9.º ano. Vi Bento XVI a poucos metros. Não era propriamente uma luz carismática, mas, ainda assim, era uma figura marcante.
Naquela altura, procurava a salvação — em todos os sentidos possíveis. Há detalhes que, por pudor, prefiro não partilhar, mas lembro-me nitidamente de ter fumado o meu primeiro cigarro nessa viagem. Foi uma jovem galega quem me ofereceu. Fazia parte de um grupo simpático, claramente de esquerda, apaixonado por Portugal. Muitos falavam um português surpreendentemente correto. Nunca mais voltei a Roma, mas gostaria de o fazer com outra consciência e maturidade.
Aos 15 anos, somos recém-nascidos na forma como vemos o mundo. Deixamo-nos impressionar por tudo, mas compreendemos pouco. A viagem marcou-me mais como aventura do que como experiência espiritual. Faltava-me estrutura interior para absorver o que aquele lugar realmente oferecia. Ainda assim, era um bom rapaz — e, já agora, não, o facto de ser “da Amadora” não significava que tivesse ido ao Vaticano para fazer carteiras. Até porque, na altura, ainda não havia Vinted.
A verdade é que os lugares sagrados são, também, profundamente humanos. O Papa Francisco encarnava isso mesmo: humanidade. A sua forma de estar faz falta num mundo cada vez mais asséptico, frio e distante. Por isso, confesso o meu alívio com a eleição de Leão XIV. O novo Papa parece dar continuidade ao legado de Francisco — talvez sem o mesmo carisma argentino, mas com proximidade ideológica. Há, contudo, sinais de uma postura mais contida, visíveis logo no momento da apresentação pública, quando optou por vestir as vestes papais tradicionais de imediato, ao contrário do seu antecessor, que, na altura, escolheu uma batina simples em branco. Todos estes pormenores são símbolos. Essa moderação não é ingénua: é uma resposta ao crescimento do conservadorismo nas sociedades atuais.
Robert Prevost é americano, de Chicago, mas é retratado como “o menos americano dos bispos”. Viveu duas décadas no Peru, onde é profundamente acarinhado. Essa ligação ao Sul Global reforça a continuidade com a visão pastoral de Francisco, centrada nos mais fragilizados e excluídos. Até na escolha do nome — Leão — há uma evocação histórica: Leão XIII, um Papa que se posicionou claramente a favor dos desprotegidos no final do século XIX.
Num tempo em que o mundo parece regressar ao medo, ao autoritarismo e à desigualdade, reconforta saber que uma das maiores instituições religiosas do planeta optou por manter uma liderança humanista. Porque, no fundo, essa é — ou deveria ser — a essência do cristianismo: não o dogma, mas o abraço; não o trono, mas os ombros dos que caem. A compaixão discreta que resiste ao ruído. Mas só o papado de Leão trará a resposta de saber se a Igreja seguirá os caminhos de Francisco ou caminhará por novas direções.