Os altos dirigentes do Chega deviam respirar fundo e repetir comigo: em política, não há inevitabilidades. Esta semana, Diogo Pacheco de Amorim, que é uma espécie de cardeal Richelieu de André Ventura, deu uma entrevista ao Observador onde proclamou, muito próximo da húbris: “Não tenho dúvidas de que o Chega vai substituir o PSD depois destas presidenciais”. Num exercício de determinismo histórico que deixaria Karl Marx orgulhoso, o partido de André Ventura convenceu-se de que mais tarde ou mais cedo, mais dia menos dia, o Chega irá tomar conta de toda a direita portuguesa. Como diria alguém, “está escrito nas estrelas”. Ou não.
Há duas maneiras de olhar para o Chega. Uma é esta de Pacheco de Amorim: o partido representa uma força popular imparável que rebentará de forma impiedosa com qualquer adversário que se coloque no seu caminho. Faz lembrar Álvaro Cunhal. Numa reunião durante o processo revolucionário, o líder do PCP aconselhou ameaçadoramente Mário Soares a juntar-se a ele ou o PS seria varrido. Na entrevista ao Observador, Pacheco de Amorim diz que o Chega se voluntariou de forma altruísta para uma coligação com o PSD e que a recusa dos laranjinhas terá consequências terríveis: “Se quiserem, estamos disponíveis. Se não quiserem, vamos à guerra”.
A outra forma de olhar para o Chega coloca o partido de André Ventura numa posição menos valquiriana. Na História das democracias, sempre houve partidos dominantes e outros partidos, mais pequenos, que tentaram quebrar essa hegemonia. Uns conseguiram, como Giorgia Meloni em Itália; muitos outros, não. Como lembrou esta semana Peter Mandelson na Spectator, nos anos 80 um conjunto de políticos britânicos criaram o Partido Social Democrata com o objetivo declarado de abaterem e substituírem o Partido Trabalhista. Também eles achavam que lideravam um movimento irrefreável e tinham razões para isso: a dada altura, as sondagens davam-lhes uns esmagadores 50% de votos. Mas, apesar de serem liderados por alguns dos melhores cérebros da sua geração, a saga dos social-democratas ingleses acabou em derrota e humilhação por causa da força gravitacional do sistema eleitoral britânico.
Em Espanha, há poucos anos, aconteceu o mesmo com o Ciudadanos. O partido liberal e centrista de Albert Rivera pretendia dar um piparote ao Partido Popular e tomar conta do centro-direita. A transpirar juventude, ousadia e criatividade, o Ciudadanos parecia uma agremiação predestinada: em legislativas, passou de 0,18% em 2008 para 15,87% em Abril de 2019, a uma curtíssima distância dos populares. Como terceira maior força eleitoral, julgaram-se essenciais para a formação de qualquer governo. Mas a soberba levou à precipitação; a precipitação conduziu à indefinição estratégica; e a indefinição estratégica culminou em escolhas erradas que deixaram o eleitorado desconfiado e descontente. Nas legislativas de novembro de 2019, o Ciudadanos passou de 57 deputados para 10 e, depois, esvaziou-se num sopro.
Em Portugal, também tivemos duas criações políticas que tentaram dinamitar os partidos dominantes. No final dos anos 70, a ASDI (Ação Social Democrata Independente) quis abater o PSD por dentro — quando surgiu, liderada por Magalhães Mota, um dos fundadores do PPD, devorou mais de metade do grupo parlamentar de Sá Carneiro. Mas nunca teve coragem para enfrentar sozinha os eleitores nas urnas. Nos anos 90, o PRD (Partido Renovador Democrático) quis abater o PS por fora — quando surgiu, liderado espiritualmente pelo na altura ainda Presidente Ramalho Eanes, ficou a menos de três pontos percentuais do PS nas legislativas de 1985. Mas não resistiu à atração magnética dos seus eleitores pela maioria absoluta de Cavaco Silva.
Presumo que estes exemplos históricos não desanimem Pacheco de Amorim. E suspeito que o grande ideólogo do Chega ande por estes dias entusiasmado com as notícias que chegam do Reino Unido. Também ali um partido emergente, o Reform de Nigel Farage, está a tentar defenestrar um partido dominante, o Conservador. O ímpeto está todo do lado de Farage: as sondagens mais recentes dão-no 11 pontos à frente dos trabalhistas, que ocupam o governo, e 14 pontos à frente dos conservadores. Só nas últimas duas semanas, três deputados tories desertaram para o Reform, sendo um deles a ex-ministra da Administração Interna Suella Braverman. Mas talvez seja conveniente manter a prudência. A atual fragilidade dos tories acontece por três causas que não são replicáveis em Portugal. Primeiro, o Partido Conservador dividiu-se durante o referendo do Brexit. Depois, perdeu o capital de seriedade por causa das festas no governo durante a pandemia. Por fim, perdeu a credibilidade nas finanças com o desastrado governo Liz Truss e na imigração com a incapacidade de travar o crescimento das entradas ilegais no país. Mesmo com tudo isto, convém notar: Nigel Farage ainda não ganhou eleições.
Todos estes casos nos mostram que a conquista iminente da direita pelo Chega não é uma profecia — é apenas uma hipótese, como qualquer outra. Se o PSD se comportar como um pequeno vertebrado perante uma black mamba, é o fim. Mas se os social-democratas encontrarem um reservatório de talento e descobrirem uma réstia de capacidade de resistência, o Chega poderá entrar na longa lista de partidos que queriam ser o “rato que ruge”, mas falharam.