Para os membros da Mont Pelerin Society (MPS), Edwin J. Feulner (1941-2025) ficará primeiramente na memória como o membro que exerceu funções de Tesoureiro durante mais de duas décadas (entre 1979 e 2012, com um breve interlúdio entre 1996 e 1998 no período em que Feulner foi Presidente da MPS, tendo então como Tesoureiro um outro gigante da luta pela liberdade nas últimas décadas: Leonard Liggio). A disponibilidade de Feulner para servir como Tesoureiro da discreta MPS está muito longe de ser a função pela qual foi melhor conhecido mas ilustra bem a sua disponibilidade e comprometimento com a luta pela liberdade.
Entre as múltiplas funções que desempenhou ao longo da sua vida, o claro destaque vai para a Presidência da Heritage Foundation, cargo que ocupou entre 1977 e 2013 (e depois novamente por um breve período em 2017). Feulner transformou a Heritage numa instituição de referência nos EUA e, provavelmente, no think-tank mais influente do mundo. A excepcional influência da Heritage Foundation não aconteceu por acaso. Como o próprio Feulner escreveu no seu livro The March of Freedom:
“This has been a conscious goal of The Heritage Foundation – to be a permanent Washington presence. We have set out to make conservative ideas not just respectable but mainstream. To set the terms of national policy debate. To offer not a lament for a lost America, but positive, practical, free market alternatives to the failed liberal policies of the old order.”
A liderança extraordinária de Feulner foi reconhecida de múltiplas formas, mas talvez a mais significativa e simbólica tenha acontecido em Janeiro de 1989, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim, quando o Presidente Ronald Reagan atribuiu a Edwin J. Feulner a Presidential Citizens Medal justificando a distinção nos seguintes termos: “By building an organization dedicated to ideas and their consequences, he has helped to shape the policy of our government. His has been a voice of reason and values in service to his country and the cause of freedom around the world.”
Um dos encontros formativos mais importantes da vida de Feulner teve lugar na London School of Economics and Political Science (LSE) quando, em 1965, na qualidade de Richard M. Weaver Fellow conheceu pela primeira vez Friedrich Hayek, uma das suas principais influências intelectuais. Hayek que foi também uma figura decisiva no movimento que, em boa parte por via da MPS, acabou por conduzir à criação de think-tanks promotores dos ideais do liberalismo clássico e do conservadorismo — de que a Heritage Foundation é também produto.
Foi também na LSE que tive o privilégio de conhecer pessoalmente Edwin J. Feulner há cerca de duas décadas. Na altura, como doutorando na LSE e membro da Direcção da LSE Hayek Society, convidámos Feulner, aproveitando uma sua passagem por Londres, para ser orador convidado num dos nossos seminários regulares. Éramos — como fizemos questão de avisar o nosso convidado — um grupo pequeno mas o então Presidente da Heritage Foundation não só aceitou o nosso convite como teve connosco uma animada e longa discussão sobre o papel que Mises e Hayek tiveram na sua formação intelectual e sobre a importância dos contributos de ambos para os principais desafios contemporâneos.
Creio que a melhor forma de resumir o legado de Feulner é através de duas sínteses. A primeira, entre teoria e acção: Feulner combinou uma sólida formação intelectual (que nunca descurou ao longo de toda a vida) com uma orientação para a acção — no seu caso particularmente vocacionada para o plano organizacional no âmbito dos think-tanks e da influência sobre as políticas públicas. A segunda, entre tradição e liberdade: Feulner foi um praticante da abordagem agregadora “Big Tent” sob a orientação de que a preservação das sociedades livres exige a combinação de elementos conservadores com o liberalismo clássico. Em tempos como os de hoje — em que o conceito de liberalismo é frequentemente vítima de perversões e o conservadorismo se arrisca a ficar reduzido a movimentos nacional-populistas –, o legado e o exemplo de vida de Edwin J. Feulner são especialmente relevantes.
Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e membro da Mont Pelerin Society