Vistos os debates para as próximas eleições, onde adorei todas as promessas, fiquei feliz por perceber que afinal de contas tudo se resolve com boa vontade e muita sensibilidade. Eu, que inocentemente fazia fé que só com trabalho, estratégia, audácia, coragem, e verdade, é que se ia lá, fui iluminado por todos os líderes partidários que me fizeram ver que a distância entre o querer e a concretização é um trajecto que se faz num tirinho. Aliás, isto é mesmo tudo muito à frente, até o modelo escolhido para os debates. Doze a treze minutinhos para cada um prometer aquilo que o outro se esqueceu de prometer, seguido de horas e horas de comentários onde unanimemente se decreta que o Dr. Ventura perdeu todos os debates. E foi esta questão da unanimidade que me alertou para o tema da espionagem, e de como podem andar por aí grandes tramas.

Mas antes de entrar no tema, e a propósito do Dr. Ventura, custa perceber porque é que este sujeito fala invariavelmente dos imigrantes e das crescentes tensões sociais em curso. Ou sobre alguns comportamentos impróprios típicos de certas minorias, ou ainda do caos no ensino e hospitais. Da minha parte não tenho dado por nada nas minhas caminhadas pela Estrada do Guincho e passeios pela Quinta da Marinha. E mesmo no caminho de volta para casa não tenho sentido problemas de transporte, pois chego sempre a horas para as calls do meu trabalho remoto, continuando o carro a cumprir na perfeição quando roda por estas bonitas estradas sempre desimpedidas. E nas duas ou três incursões que fiz ao Hospital da CUF não denotei turbulências no eficiente atendimento. Nem no Porto, onde estive recentemente, senti qualquer espécie de problemas na zona da Foz onde fiquei, onde o casamento entre o rio e o mar nos lava a alma, ou nas caves de Vinho do Porto que visitei, onde os néctares nos suavizam os sentidos. E caída a noite, quando todos os perigos espreitam, a caminhada até ao restaurante Cafeína pareceu-me muito aprazível e completamente livre de sobressaltos. Sim, volta e meia vislumbro assim meio ao longe um ou outro exótico. Mas só isso. Talvez o Dr. Ventura viva numa qualquer bolha. Mas isso é lá problema dele.

Mas deixemos estas minudências de lado e centremo-nos na realidade. Tenho ouvido dizer por estes dias que Trump é um espião ao serviço da Rússia. Pois considero isso muito acertado. Aliás, o fenómeno não é novo e nem precisamos de saltar a fronteira. Por exemplo, como republicano, ando desde há uns anos a embirrar com a República, coisa que tem coincidido mais ou menos desde que o Presidente Marcelo está no cargo. Tenho pensado para comigo por que raio é que de repente ando a engraçar cada vez mais com a estética e os legados arquitectónicos da Monarquia, ao que não terão sido alheias recentes visitas aos palácios de Mafra e Vila Viçosa. E a conclusão parece-me tão óbvia como a de Trump trabalhar para a Rússia. O Presidente Marcelo é um espião ao serviço da Causa Monárquica. Certamente que esta, tendo-se dado conta da impossibilidade de se ver restaurada pelos métodos leais, terá tratado, inteligentemente, de seguir por caminhos mais subversivos optando por rebentar com a República por dentro, diminuindo-a enquanto sorrateiramente prepara o golpe final. Diga-se que, como espião, o Presidente Marcelo vai cumprindo com distinção, apesar de ultimamente andar mais arredado do serviço (será um agente duplo, problemas com honorários?)

Mas atenção, que não se pense que a República dorme. O jacobinismo não se fica e também sabe muito bem mexer-se para se defender. Embora sem o perfume da Monarquia, pensemos um pouco, e olhemos para Gonçalo da Câmara Pereira à frente do Partido Popular Monárquico. Qual o sentido e qual o racional que faz com que um desfiltrado presida a este partido ao mesmo tempo que se embrulha em questiúnculas sucessórias sobre trono de Portugal? Por isso afirmo que Gonçalo da Câmara Pereira é também ele um espião, mas ao serviço da República. E a coisa até está a ser bem feita, já que no preciso momento em que este agente, na sua vertigem errática, poderia prejudicar o Governo da República através da aliança partidária com a AD, a AD tratou de o expelir logo que a oportunidade surgiu, remetendo-o para a prestação em exclusivo de serviços secretos, onde, aliás, serve impecavelmente.

Mas há mais. Por exemplo, o que dizer de Pedro Nuno Santos? Olhemos friamente para este caso exemplar e pensemos que melhor perfil como espião poderia o PSD ter para desarranjar o PS por dentro. Claramente um Pedro Nuno Santos (PNS) à frente daquilo. Impulsivo, imprevisível, e enfiado num colete de forças para disfarçar o indisfarçável destemperamento de menino mimado, este espião do PSD projectou-se na perfeição como um providencial eleito nas hostes socialistas. Atente-se até na postiça aparência cuidada e meio bíblica com que se apresenta, qual Charlton Heston em Os Dez Mandamentos, e aquele ar delicodoce que promete derrota.

Percebido que o PS leva ao limite o pior que os partidos têm para oferecer quando promovem ao topo o perfil que melhor controla os meandros daquelas coisas, o PSD, que padece da mesma doença, cedo percebeu que um PNS infiltrado no PS acabaria um dia por cumprir com o melhor dos serviços. E o recente tiro no pé com esta história do papá que ainda ajuda o filho na compra de casas quando este já tem barbas e cabelo grisalho, e o subsequente orgulho com que o ajudado canta o facto, é de serviço secreto de primeira categoria e digno de compêndio, pois que a impossibilidade política de rebater tamanha ternura familiar caiu que nem ginjas face à evidência de que é impensável confiar a governação do país a um filhote que nesta fase da vida ainda não se basta a si mesmo. Uma vénia ao PSD por esta perfídia.

Mas de todas estas manobras subversivas de espionagem estou em crer que o campeão na matéria é o Chega. Apesar de não entender porque é que só o Dr. Ventura é que vive numa bolha, é ao menos justo conceder ao líder do Chega todos os créditos na arte de colocar espiões por tudo quanto é lado. É impressionante como tem a comunicação social na mão, e como com isso consegue mexer todos os cordelinhos para ser sempre considerado o derrotado em todos os debates. É da natureza das sociedades, e mesmo antes delas, existirem infinitos motivos para que cada indivíduo se sinta perseguido por outros indivíduos, ou por pequenos grupos, e de como a comiseração é um fenómeno que cria laços de união entre indivíduos. Assim, passando por ostracizado, o Dr. Ventura desperta esse sentimento que leva ao estabelecimento natural de laços de empatia entre ele e um largo espectro de eleitores. Fossem tocados acordes de piano como no Alta Definição enquanto é atacado ou enquanto se defende, e era certo que ganharia as próximas eleições.

Confesso não conseguir escrutinar que virtudes o Dr. Ventura possui para conseguir espalhar por todo o lado tanto espião. Inclusivamente até aqui no Observador, como se pode ver por este texto. Provavelmente virtudes divinas, o que é verosímil se considerarmos o seu empenho na encarnação de uma missão dessa natureza. Ou então vejo mal a coisa, e o Dr. Ventura fica muito aquém nas capacidades de trabalhar a arte da subversão, tendo simplesmente muita sorte por os desastrados comentadores e demais politólogos desconsiderarem Rousseau e com isso lhes escapar a ligação que se estabelece entre indivíduos através do sentimento de comiseração, acabando por não calibrarem adequadamente as suas manifestações face aos seus propósitos e sentimentos de ódio.

Mais histórias haveria para contar, como por exemplo, a destruição do CDS pelos actuais incumbentes e pelo Dr. Irrevogável. Tudo mistérios que só fazem da espionagem um tema fascinante, e embora note que nos casos listados não existem moças sedutoras à 007, a esperança mantém-se viva. Seja como for, e pelos exemplos acima, ficou provado que há muitos tramas por aí à solta, que já não se pode confiar em ninguém, e que o mundo está mesmo muito complexo. Não é pretensão deste texto assustar o leitor, mas o facto é que todos os cuidados são poucos. Por isso, da próxima vez que virarem uma esquina, ou sempre que abrirem a porta do prédio quando saírem à rua, lembrem-se que eles andem aí.