E cá andamos pela segunda volta das presidenciais de 2026. Se na primeira volta votou-se em quem mais se queria, agora vota-se para derrotar quem menos se quer, um exercício difícil face aos protagonistas que temos pela frente. De um lado um maçador que não anima ninguém, e que, segundo notáveis variados, não cumpre os mínimos. Do outro lado um traquinas que anima alguns, e que, surpreendentemente, a todos assusta.

As histórias são conhecidas. Seguro não encaixou naquilo que o PS se tornara. Lá por 2013 a falta de coragem para enfrentar um Soares fora do seu tempo, e a seita em que o PS se tornou, fez dele um patinho feio com que o partido não devia contar. Já Ventura, sem eco enquanto vociferava o óbvio no PSD, saltou fora e faz o seu caminho. No início, gozado e subestimado por todos; no durante, útil ao PS e alguns malucos à sua esquerda quando descobriram que desbastava o PSD/CDS e o PCP; e agora, muito sobrestimado na malevolência, emerge como o lobo mau que todos promete comer.

Quis o destino que as mentes brilhantes de Costa e Montenegro, incapazes de avaliar a mais de 1 ano de distância, tratassem, a tempos diferentes, de insuflar a peça. Se o primeiro ofereceu-lhe o tema da imigração e a possibilidade de vitimização, o segundo ofereceu-lhe o Não é Não e depois o Marques Mendes. Com estes empurrões, e por ninguém aprender com a experiência (a própria, ou a dos outros), o destino de Ventura continua prometedor. Ao brilhantismo da dupla junta-se agora todo o PS/PSD e malucos, chegando a onda até à IL. Calculo que nem Ventura imaginaria melhor prenda: Eu contra todos. Uma centralidade que, aliás, e aqui entre nós, qualquer político sonha ter.

E para melhorar as perspectivas políticas de Ventura, o adversário, Seguro, provavelmente o político mais chato da nossa praça, já veio a terreiro dizer que um só debate chega, numa demonstração clara que a democracia e a coragem já conheceram melhores dias, e que afinal a divisão que nos impigem de Democracia vs Extremismo tem que se lhe diga. Se por um lado um só debate poupa os portugueses ao enfado de o ouvir, o que é louvável, por outro lado exibe a típica atitude do choninhas que quer passar por entre os pingos da chuva. A estratégia é clara, e passa por proferir com semblante de seminarista dos anos 50, a defesa da constituição, pactos para o que lhe aparecer pela frente, respeito pelas instituições, etc. Ou seja, uma mão cheia de nada. Se o tempo pudesse ser comprimido, a campanha cancelada, e as eleições fossem já amanhã, cumpria-se o idílio de Seguro. O mesmo idílio sonhado por Marques Mendes quando nos brindava, no início, e com ar sobranceiro, com um os portugueses já me conhecem há muito tempo. Pois, o problema de Mendes foi exactamente esse. É que em campanha deu para o conhecer um bocadinho melhor, o que mais não foi que o mesmíssimo incómodo que Seguro agora enfrenta.

A esta falta de densidade de Seguro, adicionado ao problema da falta de coragem, tiveram inúmeros notáveis desvalidos da nossa praça suficiente comiseração para praticar de imediato socorro, a ele, e aos próprios, reposicionando todo o debate. Uns, por convicção, o que se percebe; outros, por temerem ficar de fora da fotografia, desavergonhados, apressaram-se a fazer figura de emplastro; e muitos, por serem umas “Maria vai com as outras”, também foram. Mas em comum, e relativamente a Ventura, praticamente todos assumem aquela feminilidade adolescente do “ai não me toques”, como se isso garantisse selo de higiene ou prova de distância do pecado e outros vícios.

É assim que estes refugiados (ou será refugiadas?) em Seguro, todas muito juntinhas, amparando-se mutuamente, se sentem protegidas do bicho mau. O que tem tanto de paradoxal, pois Seguro é a última pessoa com perfil para amparar seja o que for, como de pouca intuição política, já que o espaço vazio que criam é enorme. Tão pouco se dão conta que todo esse medo que os assola, em lugar de abrir espaço para ouvir o que os candidatos têm para dizer, que é o normal em Democracia (nisto Cotrim deu uma lição a todos), infantilizaram o debate público, reduzindo-o à dicotomia Democracia vs Extremismo, servindo-se da panóplia de adjectivos daí decorrente para convenientemente apedrejar Ventura, esse exercício preferido dos extremistas. Se é com esta simplificação que os notáveis pensam que conquistam o eleitorado, então é porque as bolhas andam mais insufladas do que a medida, e a coragem muito mais arredada do que o aconselhado. A factura ainda não chega a 8 de fevereiro, mas não se duvide que ela já foi emitida.

E assim fica de fora Ventura, a falar sozinho. Em comum com Seguro tem o slogan e o soundbyte, mas em melhor e com outra veia. Danado por lutar, temos um empenhado e com motivação extra para o combate político, embora se apanhasse Cotrim pela frente talvez fosse ele a querer somente um debate em vez de três. Mas para sua sorte, até por andar sozinho pelo ringue, certamente que nem Seguro nem os notáveis que nele se amparam, essa extraordinária contradição dos termos, vão tocar nas questões sociológicas, seja a velocidade da imigração e o seu impacto nas tradições e cultura, ou a vontade e a energia para mudar costumes funestos (corrupção, a indiferença, e o deixa andar).

Nesta sociedade meio efeminada em que Portugal se tornou, país que desde há décadas é incapaz de resolver os problemas que o próprio reconhece, a coragem e energia para inverter ciclos destrutivos que, nesta fase, já se auto alimentam, tornaram-se requisitos necessários. Os interesses instalados são muitos, e o combate à protecção dos mesmos, num mundo onde a mudança é o estado natural das coisas, exige um nível de inconformismo maior do que seria exigido em sociedades mais funcionais. Há inúmeros sinais de que o sistema estrebucha por tudo quanto é lado, e sabemos bem que as organizações deixam de responder sempre que os modelos estão viciados por pessoas que já só pensam em como melhor nele sobreviverem. Os sintomas andam aí, sejam o nível de serviço/preço prestados pelas organizações públicas, sejam as suas insuficiências na aquisição e manutenção de bens físicos.

Não é esperado que um presidente resolva estes problemas, mas é esperado que um presidente tenha coragem, energia, empenho, e determinação para não se acomodar perante eles enquanto agente político com influência. Um dos candidatos não possui nenhum destes requisitos. O outro possui.