E pronto, com a reacção à rusga no Bemformoso, ficou à vista, finalmente, a matéria disforme daqueles que durante demasiado tempo levaram Portugal ao estado em que se encontra. O exercício, por mais voltas e argumentos que déssemos, estava complicado. Se a iliteracia financeira amiga destes desconformes impediu que se percebesse 2011, ou o gosto pela ilusão permitiu o socialismo 3.0 da geringonça (o 1.0 do lírico da ONU e o 2.0 do a contas com a justiça não foi suficiente), já a questão da imigração convoca-nos para questões básicas da natureza humana onde enfiar o barrete ao próximo tem poucas pernas para andar. Acontece que este assunto, pela sua natureza, é indivisível por clientelas permissivas a perversas políticas do amendoim e demais ludíbrios. Por ficarmos todos sujeitos às mesmas vantagens e desvantagens do fenómeno migratório, fica impossível para o habilidoso atirar hoje um amendoim para este e amanhã um amendoim para aquele. Por conseguinte, doravante, de cada vez que algum desconforme quiser ludibriar sobre questões relativas à imigração é certo que perde por conta das barbaridades que está condenado a proferir.
Arrumados que estão estes manhosos e incompetentes nesta matéria (e há tantas mais…), será salutar iniciar um debate sério sobre esta imigração, livre de histerismos de doidos, comiserações mal-intencionadas, e palpitações de virtudes que não se possuem. É que há muitas perguntas para as quais o bom senso reclama respostas. Temos capacidade de integração suficiente para tamanha avalanche migratória em tão pouco tempo? Vai a mesma continuar? Qual o nível de estímulo do imigrante, por natureza mais jovem, numa sociedade a caminho de elevadíssimos índices de envelhecimento? Não será essa combinação um impeditivo à integração? Como decorre a distribuição geográfica da imigração? Existem já bolsas onde já nos podemos sentir fora de Portugal? E se sim, como é a vivência nessas bolsas? De acordo com os nossos costumes? Ou com os importados? E como é relativamente à frequência feminina? Podem as mulheres por lá circular sem problemas e restrições? É que importa não regredir. A propósito, há efectiva disposição de imigrantes de certas culturas passarem a tratar as mulheres da maneira como nós entendemos que devem ser tratadas? Em resumo, queremos correr o risco de vir a ter os mesmos problemas que actualmente existem em França, Bélgica, ou Reino Unido? Queremos mesmo que Portugal seja outra coisa em 2100?
Por estes tempos, o lusitano, maioritariamente grisalho e muito repoltreado, vai-se acomodando como pode enquanto faz zappings e suspira por colocar a carcaça ao sol no próximo Verão. Se há duas ou três décadas a indolência lusa se embevecia com o espevitamento com que os Marco e as Vanessas encaravam a vida sob a batuta de banqueiros e políticos que garantiam crédito fácil e alimentavam ilusões, hoje, a decadência lusa, pesarosa, encanta-se como as Patrícias e os Paulos se fazem à vida além-fronteiras munidos de bons canudos e olho vivo. Agastados, e meio gastos, as fornadas grisalhas arrastam-se por aí, seja pelos cafés, restaurantes, shoppings, ou mesmo a abrir a porta ao Uber Eats, gastando os últimos cartuchos na manutenção de todos aqueles vícios, ideias e opções, que as ciências económicas e sociais tratarão de explicar algures no futuro que foi uma certa maneira de encarar a vida colectiva que levou às decisões das Patrícias e dos Paulos de sair, e dos Rashids e das Dulcineas de entrar.
E assim caminha Portugal, cada vez mais pensionista. Embora iletrado financeiramente, anda mais alerta, e começa a desconfiar da nova patranha socialista de que o saldo dos imigrantes relativamente à segurança social é positivo. Por um lado, soa-lhe bem, pois evita que o contínuo desbaste das pensões se acelere. Mas por outro lado, desconfiado, olha de soslaio para este argumento que traz água no bico e já percebeu que falta uma parcela nessas contas. Como pensionista que é, percepciona vagamente que o desconto do imigrante de hoje corresponde a um direito no amanhã, coisa que o esquerdista astuto, na sua desonestidade intelectual, e por conveniência, trata de escamotear.
Caminha também mais inseguro. A sabedoria dos programas da National Geographic são uma boa fonte para analisar o Homo Sapiens que, quer se queira, quer não se queira, está dentro de nós. A natureza tem as suas regras, e não há nada que contrarie a imposição das regras e costumes que os mais novos estão dispostos a fazer sobre as regras e costumes dos mais velhos quando as culturas diferem e sempre que os primeiros estão em posição para tal. Enquanto outrora o que era diferente se ia entrosando suavemente no tecido social, nos dias de hoje a vertigem da massa migratória que nos invade perturba a correcta simbiose que essa outra proporção dos números permitia e que desembocava naquilo a que chamamos Harmonia.
Portugal caminha também mais impotente. A pobreza, que era para ir embora, afinal passou a endémica, por mais fundos e dívidas que tivessem vindo. E, para cúmulo, esta nova vaga de imigração acaba por consolidar esta fatalidade. Trocada a Patrícia pela Dulcinea e o Paulo pelo Rashid, perpetua-se o modelo económico que nos trouxe até aqui, com a agravante de os chalupas nos quererem impor agora o ónus da inclusão do imigrante, sem nunca questionar sobre a real vontade de alguns, e as possibilidades de todos. E muito menos sem atender ao histórico. Se quando as condições demográficas eram favoráveis não se conseguiu erradicar o abandono escolar feminino forçado, os casamentos forçados, ou ainda a violência doméstica, como é possível acreditar numa empreitada muito maior com uma pirâmide demográfica invertida? Ou seja, pobres como dantes, e mais impossibilitados do que nunca de mudar o que deveria ser mudado.
Caminha também mais desolado e sem fibra. Tendo desistido de procriar naquelas quantidades que garantem a perpetuação da raça, o português começa a sentir-se em extinção. Já não se vêm crianças nas ruas, e as que vão existindo desenvolvem as suas gorduras em casa entre pipocas e smartphones. Deixou de haver registos de crianças a subir às árvores, e até já chegam relatos de professores universitários interpelados por pais revoltados com injustiças imaginárias sofridas pelos petizes. Mulheres grávidas são um achado cada vez mais raro, e se vão para o segundo ou terceiro passam por retrógradas. Do outro lado, a activista radical diaboliza os homens e vai ao Martim Moniz por mero compromisso progressista. Pelo meio, a mulher de carreira prepara o seu curriculum em inglês e tem o seu filho lá pelos 33 anos em Copenhaga ou Coventry.
É este caminho, com todos os perigos a ele associados, que começa a afligir o cidadão comum. Os incómodos não são de hoje, e já há vários anos vêm sendo dados alertas. Um pouco como os alertas nos tempos em que o lírico da ONU por cá fora Primeiro-Ministro (1995 a 2001). Nessa altura acenava-se sobre os perigos dos vícios que então se iniciavam e que resultaram na intervenção da Troika em 2011. Porém, há coisas que necessitam de uma data, um marco, um ofício, ou uma última gota que acorde as pessoas para uma nova realidade ainda não interiorizada. Assim como o pedido de resgate em Abril de 2011 oficializou que Portugal tinha de mudar de ideias sobre desequilíbrios externos, ou como a falência do Lehman Brothers em Setembro de 2008 oficializou o início da crise financeira mundial dos anos seguintes, as reacções absurdas dos que pastorearam Portugal relativamente às mãos na parede na Rua do Bemformoso em Dezembro de 2024, oficializaram o início da consciencialização dos portugueses que quem os tem governado são afinal de contas pessoas com falta de carácter, pouco inteligentes, sem critério, arrogantes, incapazes de ler a natureza humana e as diferenças entre culturas, e sem a mínima preparação e vocação para o comando dos povos. Ficou bem à vista de todos. Não há desculpas.