“As birras do obeso e obtuso Amado eram realmente singulares. Sem razão, de repente, embirrava. E era então como o obstáculo bruto, inerte, material, de um enorme pedregulho numa estrada. Era uma enorme resistência passiva e espessa” … “rosnava surdamente: – Não estou pelos autos… Não vai… Não me calha” … “E causava indignação e horror, sentir aquela massa bestial e adiposa, atravancando obstinadamente o caminho!”

É com esta passagem de Eça de Queiroz em O Conde D’Abranhos que o PSD de 2024 e seguintes apresenta o seu cartão de visita ao eleitorado. Indiferente às escolhas do eleitorado, obtusamente agarrado ao Não é Não, os calhaus soltos deste imenso pedregulho que o PSD se está a tornar impedem, novamente, que em 2025 Portugal tenha um governo suportado por uma maioria parlamentar, e, com isso, esteja em condições de fazer reformas. Tornou-se já evidente que o ressentimento, a soberba, o medo, e porque não especular, a maçonaria, não estão muito pelos autos e recusam-se a considerar Ventura e o seu Chega para dar uma volta a este Portugal, como se um acordo político de governação seguisse os trâmites que testemunhamos no relacionamento entre jovens desavindos. É assim, com esta inventada questiúncula quadrada de intervalo de escola C+S, que a insuficiente massa cinzenta laranja se propõe bloquear uma alternativa não socialista para governar Portugal.

Nunca é tarde para relembrar que o Portugal que chegou a 2011 tinha três ajustamentos para efectuar. O financeiro, através da redução das dívidas públicas e privadas, o económico, através da passagem de uma economia voltada para o consumo interno para uma economia voltada para a exportação, e o político, através da mudança da mecânica partidária que levou à necessidade dos ajustamentos financeiro e económico. Se estes dois primeiros ajustamentos vão sendo cumpridos, embora atabalhoadamente, existe uma obtusa recusa em efectuar os trabalhos necessários relativamente ao terceiro ajustamento. Descontando a minoria de desvairados à esquerda do PS que olham o poder como o jardim infantil onde sonham projectar os dislates da adolescência que não abandonam, os donos deste regime, sejam o pedregulho do PS ou os calhaus do PSD, olham o poder como o palco onde com facilidade conseguem obter dividendos superiores àqueles que os seus méritos obteriam se operassem em campo aberto. Por isso, jamais considerarão o ajustamento nos seus partidos algo desejável, muito menos um imperativo, tal o impacto que isso teria nas suas agendas e no modo como vêm ou se servem da política. (Questiono até se sequer alcançam o que está em causa, quanto mais executar as tarefas consequentes).

Se muitos em 2024 ainda esperavam que este PSD pudesse interpretar algum ajustamento político, em 2025 Montenegro, Hugo, etc. – ao recusarem-se sair de cena depois de demonstrarem aos portugueses a sua indisponibilidade para operar essa mudança, de provarem inabilidade política para a exigência que a empreitada exige, de evidenciarem falta de clarividência para percepcionarem que somente uma maioria parlamentar permitir efectuar mudanças profundas, e de revelarem infantilidade ao não compreender que em Democracia as coligações são para se fazer com quem o povo quer e não com quem o A ou o B dos partidos querem – tornaram evidente que este PSD se transformou no tal Amado que Eça descreveu, levando a concluir que com esta massa bestial e adiposa, atravancando obstinadamente o caminho, não se vai lá, e que só com uma revolução eleitoral é possível acalentar esperança nalgum tipo de mudança.

Neste sentido, é avisado lembrar aos que sobram, IL e Chega, que seria bom para os portugueses que ambos, com o crescimento natural que vão tendo a tempos diferentes, não se deixassem influenciar pelas infantilidades e matreirices dos incumbentes, e tenham presente que as birras políticas só conduzem a becos sem saída, como aquele a que o Não é Não nos está a conduzir, nomeadamente quando os desafios que Portugal tem pela frente são bem maiores do que aqueles que os portugueses imaginam. Triplicar o orçamento da Defesa mantendo o rumo dos excedentes não é matéria para debate entre alunos indispostos da turma B4 do 11º. O volume absurdo de imigrantes num tão curto espaço de tempo concentrado em certas áreas geográficas num país com pirâmide etária invertida, reclama uma fibra e determinação incompatíveis com esotéricos que julgam que a natureza pode ser transformada e apresentada com leões e gazelas de braço dado. O declínio demográfico para um nível de produto com fraco crescimento resulta na continuada redução de pensões, o que faz com que o drama do pensionista de hoje seja o sonho do pensionista de amanhã. A necessidade de um crescimento económico muito superior para mitigar este fenómeno implica acordos muito vastos e incompatíveis com birras partidárias e palpitações de virtude. E isto sem falar na Educação, Saúde e Justiça, onde o tino, a eficiência, e atirar a ideologia borda fora, requerem uma maioria parlamentar muito superior à medida.

Do que se tem visto, o mais provável é Portugal ser infestado por uma berraria infinita até às próximas eleições. Alguns atributos como o bom senso, a inteligência, ou a frieza, escassos no panorama que temos, seriam desejáveis e mais bem servidos com outro decibel. Mas como me confidencia uma amiga, “os homens na política ficam gajas histéricas”; afirmação que não tomo por completamente verdadeira, apesar do género que me calhou em sorte não me permitir fazer uma avaliação com a mesma nitidez. No entanto até concedo que a Democracia imponha regularmente rituais histriónicos, restando-me o consolo de poder fazer zapping sempre que um qualquer exaltado invadir o ecrã a proferir barbaridades diversas. Resta-me rogar que, findo o espectáculo, se sentem à mesa e acordem um governo estável suportado por uma maioria parlamentar. Não peço que sejam amigos, ou que comunguem juntos, ou ainda que finjam para a fotografia. Mas exijo algumas coisas. Exijo que sejam responsáveis, adultos, profissionais, corajosos, e que não acabem por se tornar também, como as peças da última década, em calhaus irredutíveis que se julgam mais do que são.

Nota final: acaso o PSD não pensa em mudar a liderança até às eleições? É que servia melhor o país. Ou será que, enxotado Montenegro depois das eleições, e à socapa, vai servir-se a si e aos seus, acabando por aceitar um Bloco Central?