Um conhecido cómico português tinha uma tirada que cito amiúde. “A vida é como os interruptores. Umas vezes estão para cima, outras vezes para baixo”. Qualquer coisa parecida com isto.

Tal como os interruptores, os elevadores também sobem e descem. Quando funcionam. Há uns dias o elevador “grande” da unidade de transplantação de medula óssea do IPO de Lisboa, aquele que permite o acesso de camas e macas, avariou. Nada de novo. E nem seria muito grave se a empresa responsável pela manutenção do “coiso” não tivesse dito, assim me disseram, que o tempo de paragem seria longo e imprevisível. Não haveria forma de reparar a avaria num elevador muito antigo, nascido em 1992. Antiguidade de museu. Nem valeria a pena tentar e seria melhor, desde logo, mandar vir outro. No fundo, queriam parar o ascensor até à chegada do novo equipamento. A substituição, que parece ser inevitável, ocorreria ou ocorrerá, se já tiver sido iniciado o processo de substituição, daqui a seis meses. Como não é possível ter doentes internados sem forma de os poder transportar deitados quando esse transporte é necessário, seriam seis meses, se o monta macas não funcionasse, sem que a Unidade pudesse receber doentes. Em termos simples, 50 a 60 transplantações que não se poderiam realizar durante esse período.

Este episódio, por ora resolvido graças aos esforços do Conselho de Administração do IPO e ao bom senso e engenho da empresa que fez a reparação, gerou constatações e levantou algumas questões que merecem, com os ânimos mais serenos, serem tratadas e, com a brevidade possível, resolvidas.

A primeira constatação é a de que a irritação pública pode ser útil se for bem dirigida e enquadrada. É certo que foram ditas e escritas imprecisões e até falsidades, mas o cerne é que o elevador estava avariado e isso implicaria, não havendo resolução imediata, um transtorno substancial para os doentes que são tratados na Unidade. Foi mitigado, não foi significativo, nada foi perdido, pese embora atrasos de alguns dias. Quero crer que houve conserto porque a comunicação social incluindo o Observador, a quem muito agradeço o interesse demonstrado pelo nosso trabalho, revelou as nossas dificuldades E não nos faltaram os Colegas de outras unidades de transplantação, também eles afogados pela procura, que quiseram ajudar. É importante que a sociedade conheça o que é o SNS, o que tem de bom e de mau, se manifeste, seja exigente e que o acompanhe na procura de soluções.

Outra constatação, emocionalmente compreensível, é que o sofrimento de crianças impacta mais do que o de adultos. Já se sabia. Mas é importante que também se saiba que a maior lista de espera, a mais problemática, é a que envolve adultos. Normal num País em que faltam crianças e porque o cancro tende a ser mais frequente com o avançar da idade. Mas, para quem tem de decidir prioridades, para quem escolhe quem é tratado primeiro, há sempre perguntas que, embora complicadas, exigem resposta. É mais importante a vida de uma criança, com uma patologia a que nem a transplantação pode garantir cura, ou a de um adolescente que pode ser curado ou, ainda outro caso comum, a de uma jovem mãe que tem filhos e que não poderá sobreviver se não for sujeita a uma transplantação. Ou, assumindo que a probabilidade de cura é igual, a idade deve ser o critério principal? E qual é a idade porque se deve começar a escolher? 1, 2,10,15,18, 25, 40 ou 60 anos? Deixo o dilema para os leitores. No IPO de Lisboa, com uma lista de candidatos que varia sempre, nunca encolhe, entre 70 e 80 doentes “imediatamente” transplantáveis, para 12 camas que raramente estão todas disponíveis e com um tempo estimado de 3 a 4 semanas de internamento por doente, se fizerem favor façam as contas ao tempo de espera.

É com esta angústia que nos deparamos todos os dias. Estamos melhor do que nos anos 80 do século passado, quando ainda nem se transplantava em Portugal, mas a capacidade nacional de transplantação hematopoiética, a de medula para leigos, ainda está muito aquém do desejável. Somos o País da Europa com a mais baixa taxa de transplantação alogénica por habitantes, apesar de termos um dos maiores registos de dadores de medula, e com o segundo menor número de unidades capazes de transplantação alogénica por habitantes (terceiro pior para unidades capazes de transplantação autóloga). Portugal deveria ter, pelo menos, 100 camas dedicadas a doentes submetidos a transplantação hematopoiética, idealmente 10 só para doentes com menos de 18 anos. Temos cerca de metade e apenas 4 de 6 unidades fazem transplantações alogénicas. E as instituições com unidades de transplantação precisam de ter suporte de camas disponíveis para internar complicações e permitir mais e melhor atividade em ambulatório. É urgente criar uma ou duas unidades exclusivamente dedicadas a crianças, até porque há patologias que, apesar de não serem cancro, são mortais e podem ser curadas, é isso mesmo, são curadas quando a transplantação hematopoiética é feita em tempo útil. São necessidades imperiosas, infelizmente esquecidas, que interessa resolver quando e como for possível. É urgente.

Como é urgente, já o era há 30 anos, a construção de um novo edifício para o IPO de Lisboa. Voltamos sempre ao mesmo ponto. Só assim se poderão libertar espaços para que se aumente a capacidade de internamento, de consultas, de tratamentos e de investigação. Uma das maiores falácias da política de saúde foi a ideia de que não seriam precisos mais hospitais e que até se poderia reduzir o número de camas disponíveis. A COVID desmentiu esta confabulação e o cancro vai tornar a realidade numa evidência insuportável. Parece que, finalmente, há sinais de que se percebe a importância do cancro e a sua dimensão que não parará de aumentar. Aguardemos, com serenidade, pelo próximo sobressalto cívico que nos possa ajudar.

Mas o “caso dos elevadores” também serviu, mais uma vez, para ilustrar as fragilidades do parque hospitalar nacional e da capital em particular. Ando a escrever há anos que a manutenção com substituição regular e programada de equipamentos, a prevenção das avarias, as pinturas das paredes que se desgastam, o conserto dos buracos nos pavimentos dos arruamentos, mudar lâmpadas que se fundem, consertar o autoclismo ou a torneira que verte, são tão importantes como comprar medicamentos de ponta e pagar ao pessoal o que ele merece. O SNS tem de ser modernizado e uma emergência, entre as muitas que faltam no famoso “Plano”, teria sido assegurar um pano geral de recuperação estrutural do edificado e de equipamentos do SNS. Não é segredo de Estado, mas o Estado tarda a resolver esta questão.

Uma última constatação e reflexão é no sentido de haver a coragem de inverter uma política bairrista e sem visão de longo prazo que tem levado à dispersão de meios e recursos onde eles não deviam existir, simplesmente porque a sua “existência” em locais desprovidos de meios acessórios e de massa crítica de profissionais e doentes gera ineficiências e má qualidade clínica. Há enormes assimetrias no SNS, os doentes não são todos tratados da mesma forma excelente em todo o território, nem em todos os serviços de cada especialidade. Não podemos fazer de conta que está tudo bem. Mas não nos podemos conformar com a mediocridade só para dizer que há de tudo em quase todo o lado.

É caso para dizer que, se nada for feito JÁ, o último que apague a luz. O interruptor ficará, definitivamente, para baixo. E nós com ele, em baixo também.

Nota Explicativa: A transplantação autóloga é aquela em que o dador e recetor são a mesma pessoa. A transplantação alogénica é aquela em que o dador é uma pessoa diferente do recetor. Usamos a designação de transplantação hematopoiética e não de medula óssea, porque já se transplanta com medula óssea, a fábrica do sangue que está dentro dos ossos, e com células progenitoras ou estaminais que se podem fazer migrar da medula para o sangue, onde são colhidas com a ajuda de umas máquinas desenhadas para esse efeito. Atualmente, a maioria das transplantações hematopoiéticas é feita com células colhidas no sangue. Para saber mais, podem consultar aqui.