Quando, em 2011, em véspera de vindimas, chego ao mundo dos vinhos, estava longe de imaginar que a década mais avassaladora da minha vida começava ali.

Era mulher, era jovem, era arquiteta, filha do meio, seguramente com a dose certa de loucura e, talvez pela idade ou simplesmente por aquilo que hoje sei ser, coragem. Aceitei o desafio que o meu pai me propôs, pegar num projeto que outrora fora fundado e liderado por ele. Como não aceitar? Era um desafio verdadeiramente apaixonante.

Ia dar continuidade a um legado, pioneiro na região, liderar uma adega que tinha como bandeira produzir espumante pelo método tradicional com uvas autóctones. Em Baião, Douro Verde. Eu não sabia nada de vinho, era apenas aquilo que ainda sou, mais verdadeira que perfeita.

Esta indústria de tradição, dominada por homens, fez-me lutar com o sangue a ferver pelos meus sonhos, pelo meu romantismo, o que seria de mim sem poesia? A vida põe-nos à prova, mesmo quando nada há a provar.

O mundo mudou durante a última década, muito. É bom saber que também eu fiz parte desta mudança, que também eu mudei. Passo a passo, as conquistas das mulheres num mundo de homens tomam lugar cimeiro, e de repente lembrámo-nos que todas temos um pouco de Ferreirinha em nós.

Em Portugal, país de bons vinhos e de grandes mulheres, senti que havia mais a fazer, que havia espaço para empoderar, aquilo de que hoje tanto se fala, que as diferenças e desigualdades de género se podem combater com informação, educação, parcerias, com um lugar seguro de partilha.

Há projetos que se bebem como vinho. Que se maturam como as uvas. Que se celebram como o “sangue de Cristo”.

A Women in Wine Portugal (WiWP), planta a sua semente em 2014, quando em Cracóvia fui convidada pelas “Kobiety i vino” para um evento onde apresentava o meu trabalho como mulher produtora de vinho. Que belo exemplo de comunidade, de networking, de parceria ali me mostraram. No entanto, só no início de 2020, consegue finalmente brotar, surgindo assim uma comunidade inovadora, irreverente e ambiciosa, que reúne pessoas, com ligação ao mundo dos vinhos. A premissa é simples, dar visibilidade às mulheres do setor, ser sustentada pela igualdade de género, equidade e inclusão. Fazer negócios, ter espaço e tempo para pensar. Partilhar. Aprender. Evoluir. E, tal como no vinho, não apressar. Tudo acontece na hora certa. A Natureza é soberana. E às vezes só é preciso saber parar.

O movimento Women In Wine tornou-se global, e, um pouco por todo o mundo, surgem comunidades com o objetivo de estreitar relações profissionais e humanas. E isso dá-nos a garantia de que o caminho está a ser feito.

Da nossa parte, a WIWP pretende ser o elo entre as mulheres do setor, com o objetivo de:

  • Fomentar o empowerment feminino e a igualdade de género no setor dos vinhos;

  • Garantir a participação plena e efetiva das mulheres nos negócios vitivinícolas;

  • Garantir a igualdade de oportunidades para a liderança feminina no setor dos vinhos;

  • Apoiar o empreendedorismo e educação no setor;

  • Organizar iniciativas de promoção do espírito empresarial feminino neste setor.

É sempre importante referir que os negócios de mulheres, o dinheiro de mulheres, as relações das mulheres, dão estrutura ao mundo e têm de ser valorizados.

Eu, Micaela, mulher, mãe, arquiteta, empresária da indústria, feita de tantas outras camadas, senti, ao longo dos anos, o desafio de ser quem sou e como sou, num universo pautado pelo patriarcado.

Ao longo do tempo tive o privilégio de me cruzar com mulheres incríveis, que me deram a mão, a confiança e segurança para conseguir fazer este caminho. Acreditaram e fizeram-me acreditar. A oportunidade de estar em várias iniciativas, como feiras, conferências e tantos outros eventos, em torno do setor dos vinhos, permitiu ir semeando um propósito comum, a união entre as mulheres, sem a velha crença de que as mulheres não se podem juntar.

Em 2016, a oportunidade de frequentar o International Wine Business, um programa executivo da Católica Lisbon School of Business & Economics, possibilitou-me criar uma rede de relações profissionais, de amizade e, mais tarde, ajudou-me a dar o pontapé de saída para colocar no mundo a Women in Wine Portugal. A responsabilidade cresceu, cresceu também a ambição, o objetivo é chegar a todas e todos os que de alguma forma se revejam neste projeto, criando espaço para o tanto que há para fazer neste setor marcado pela paixão.

Há, sem dúvida, muito trabalho a ser feito para alcançar a plena igualdade de género na indústria do vinho, mas também há muitos desenvolvimentos positivos e iniciativas em curso. É um pronúncio de que o setor está em mudança e que a Women in Wine Portugal terá um papel fundamental na afirmação do empreendedorismo vitivinícola feminino nos próximos anos.

Como fundadora da Women in Wine Portugal (WiWP), convido todos e todas a conhecer-nos melhor e a saber mais sobre o projeto, através das nossas redes sociais. Será um gosto erguer o copo e fazer um brinde a uma nova Era!