As acusações de assédio sexual feitas por Inês Bichão a João Cotrim de Figueiredo levantam questões sérias que merecem ser tratadas com rigor, responsabilidade e respeito por todas as partes envolvidas. O combate ao assédio é uma causa fundamental numa sociedade democrática e não deve nunca ser relativizado. Ainda assim, a forma, o momento e o contexto em que uma acusação surge são também matéria legítima de escrutínio público, sobretudo quando entram em colisão direta com o calendário eleitoral e o debate político.
Desde logo, o timing não pode ser ignorado. Tornar pública uma acusação desta gravidade a apenas seis dias de eleições nacionais tem um impacto político inevitável, independentemente das intenções declaradas. Mesmo que a denúncia seja verdadeira, algo que só um processo sério e contraditório pode apurar, a sua divulgação neste momento específico contamina o espaço democrático, introduzindo um ruído que dificilmente pode ser dissociado de efeitos eleitorais. Em democracia, a perceção conta, e aqui a perceção é a de um ato politicamente disruptivo num momento de máxima sensibilidade.
A forma escolhida agrava essa perceção. Uma story de Instagram, por natureza efémera, emocional e não sujeita a contraditório, dificilmente é o meio adequado para uma acusação desta gravidade. O assédio sexual exige canais formais, institucionais e juridicamente sustentados, que protejam a vítima, garantam direitos de defesa e evitem julgamentos sumários na praça pública. A lógica das redes sociais, rápida, simplificada e polarizadora, é tudo menos compatível com a complexidade e seriedade destes casos.
Há ainda um contexto político que não pode ser varrido para debaixo do tapete. O facto de Inês Bichão ser assessora de um secretário de Estado do PSD e conhecida apoiante de Marques Mendes não invalida automaticamente a sua palavra, mas introduz um elemento adicional de suspeição política que fragiliza a credibilidade pública do gesto. Não se trata de acusar intenções ocultas como facto consumado, mas de reconhecer que, em política, as ligações e alinhamentos contam sobretudo quando a denúncia envolve um concorrente e surge num momento eleitoral crítico.
Tudo isto acaba por produzir um efeito perverso: em vez de fortalecer a luta contra o assédio, corre-se o risco de a instrumentalizar politicamente aos olhos de muitos cidadãos. E isso é profundamente injusto para as vítimas reais de assédio, que precisam de confiança social, não de cinismo acrescido.
Nada disto significa que as acusações devam ser ignoradas ou desvalorizadas. Significa apenas que a defesa das causas justas exige prudência, responsabilidade e um profundo sentido institucional. Quando a forma e o timing obscurecem o conteúdo, perde-se clareza moral e perde-se também democracia.
Em última análise, o que está em causa não é apenas um caso concreto, mas a forma como a política democrática lida com acusações graves em momentos decisivos. A luta contra o assédio sexual exige seriedade, coragem e respeito institucional, não gestos que, pela sua forma e timing, levantam mais dúvidas do que esclarecimentos e acabam por fragilizar causas que deveriam unir, não dividir.
É por isso que, perante a ausência de contraditório, a escolha de um meio inadequado e o contexto político evidente, considero legítimo manter a confiança em João Cotrim de Figueiredo, cuja trajetória pública tem sido marcada pela frontalidade, pela defesa das liberdades individuais e por um discurso consistente de responsabilidade política. Até prova em contrário, num Estado de direito, a presunção de inocência não é um detalhe: é um pilar.
Num momento em que o debate público deveria centrar-se em ideias, propostas e visões para o país, é essencial resistir à tentação do julgamento imediato e da exploração política de temas sensíveis. Apoiar João Cotrim de Figueiredo neste contexto não é desvalorizar denúncias de assédio; é, pelo contrário, defender que elas sejam tratadas com a seriedade, os meios e o tempo que merecem, fora do ruído das redes sociais e longe de agendas partidárias, sejam elas próximas do PSD ou de figuras como Marques Mendes.
A democracia sai mais forte quando a justiça segue o seu curso e a política não se confunde com tribunais improvisados. É nesse equilíbrio difícil, mas necessário, que reafirmo o meu apoio a João Cotrim de Figueiredo.