Em política, quase sempre valeu tudo. Mas é necessário reconhecer que, nos últimos tempos, a desinformação, o contorcionismo discursivo e a baixa política passaram a pautar, de forma preocupante, a opinião pública de algumas pessoas com responsabilidades políticas, e não só, no panorama português.
De forma quase corriqueira, as fake news entraram no quotidiano da política. E convenhamos: os extremos, sejam eles de esquerda ou de direita, tornaram-se hoje alguns dos principais veículos da desinformação, da baixa política e de uma profunda desonestidade intelectual. De forma sobranceira, emitem opiniões assentes em crenças, inverdades e em poucas ou nenhumas bases factuais, substituindo o debate racional pelo apelo emocional e pela caricatura do adversário.
Quando afirmo que os extremos são responsáveis pela desinformação, não me refiro apenas a um traço comum difuso. Refiro-me, sobretudo, a uma matriz discursiva partilhada: o recurso sistemático à divisão social como instrumento político. Façamos um exercício simples e revelador: Se pegarmos em muitas das afirmações que a Extrema Direita dirige a minorias ou a determinados grupos sociais e substituirmos o sujeito por “ricos”, “patrões” ou “grupos económicos”, obtemos, quase palavra por palavra, o discurso típico da extrema-esquerda. Muda o alvo, mas mantêm-se intactas as armas: a generalização abusiva, a demonização do “outro”, a simplificação grosseira da realidade e o apelo à emoção em detrimento dos factos. Em ambos os casos, o objectivo é o mesmo: colocar portugueses contra portugueses, alimentar ressentimentos, semear desconfiança e colher dividendos políticos de um populismo pobre em soluções, princípios e responsabilidade democrática.
Se, de um lado, assistimos à tentação da maioria querer impor-se e subjugar as minorias, do outro surge a vontade de certas minorias imporem novos valores, promovendo a substituição de tradições culturais, por vezes com desrespeito pela nossa história e pelos nossos costumes. É evidente que nenhuma destas posições tem razão. Do ponto de vista racional e histórico, a boa convivência só existe quando é respeitada a liberdade individual de cada pessoa, sem colectivismos e, nunca, mesmo nunca, com a subjugação de minorias ou de maiorias.
Estamos, passados 50 anos de Abril, a assistir a formas de doutrinação que nada têm de liberais. Apela-se cada vez mais a interesses difusos das massas, divide-se e rotula-se as pessoas, “encaixando-as em caixinhas”, em vez de se apelar à colaboração de todos. Em vez de valorizar as vivências, capacidades e competências individuais, promove-se um pensamento uniforme. Ora, é precisamente através das capacidades individuais que cada pessoa pode contribuir para um fim colectivo maior: o nosso bem-estar e o da comunidade em que estamos inseridos.
Como podemos, então, ultrapassar a desinformação e travar a sua propagação? Com pessoas informadas. Com cidadãos activos, responsáveis e integrados na vida comunitária, em associações de pais, clubes desportivos, associações recreativas e culturais. Com um poder local mais próximo das populações, transparente, que utilize linguagem clara e documentos de fácil acesso. Com órgãos do Estado céleres, desburocratizados, sem opacidade, e com leis que evitem caminhos longos, sinuosos e desnecessariamente complexos.
É igualmente fundamental exigir às escolas um ensino mais exigente que, em vez de doutrinar, crie ferramentas para abrir o pensamento: questionar, duvidar das fontes, procurar respostas em diferentes correntes de pensamento, sem balizar o conhecimento. Ensinar História com factos, avaliar conceitos com rigor, promover um escrutínio sério sustentado em evidência histórica, sem revisionismos oportunistas. E dar especial atenção à literacia financeira e política, pilares de uma cidadania livre e informada.
Não podemos esquecer as famílias. São a base da educação, a primeira semente de todo o processo de crescimento. É no seio familiar que se deve cultivar o espírito crítico, a dúvida, o interesse pelo conhecimento, o respeito pelas nossas raízes e culturas. Incentivar o desporto, a leitura, as artes e a música é também um acto de liberdade. É aqui que se constrói o alicerce do respeito pelo próximo, na diferença ou na semelhança, aprendendo com a diversidade.
Num contexto de uma sociedade verdadeiramente informada, crítica e exigente, também a comunicação social, o chamado quarto poder, é forçada a elevar os seus próprios padrões. Uma cidadania consciente não tolera facilitismos, nem títulos incendiários, nem a descontextualização deliberada de declarações para servir agendas ou alimentar ciclos artificiais de indignação. Episódios recentes, como o que envolveu o ministro da Educação, em que uma parte das suas palavras foi retirada do contexto global da intervenção, dando origem a reacções desmesuradas, declarações descabidas e a um julgamento público apressado, são um exemplo claro de como o jornalismo falha quando abdica do rigor em favor do ruído. Estes comportamentos não só empobrecem o debate público como envergonham a própria classe jornalística, cuja missão essencial deveria ser informar com verdade, contexto e responsabilidade, e não amplificar a desinformação que diz combater.