Um tempo em que progressismo é apenas sinónimo de lunaticidade, é um tempo de conservar tradições. Tais como começar esta crónica com notícias da flotilha. E, sem grande surpresa, as novidades não são estupendas. Ou melhor, “não são estupendas” é um eufemismo para “são arrepiantes”. Até aqui, confesso, tinha boa parte desta canalha da flotilha na conta de apenas mais uma patética corja de destrambelhados adolescentes com os tiques autoritários comuns em quem se julga no Olimpo da moralidade.
Mas, nos últimos dias, a coisa perdeu, definitivamente, a graça. Primeiro, por conta do rumor de que a flotilha estará a gerir a excursão de modo a tentar chegar a Gaza dia 7 de outubro, em jeito de celebração do massacre de 2023. Depois, por conta da entrevista da Barbie Gaza, na qual esta referiu serem boato as violações das raparigas israelitas raptadas pelo Hamas, reforçando essa ideia com a declaração de que uma dessas jovens teria referido “que se sentiu feia porque não lhe tinham feito nada, porque não lhe tinham tocado.” Isto vindo de uma mãe de seis filhos (entre eles duas meninas), que segundo a imprensa é “reconhecida pelo seu activismo nas redes sociais (…) onde partilha conteúdos sobre direitos humanos, feminismo e justiça social”…
É, esta história da flotilha começou por ser muito gira — das festas nos paraísos de férias do Mediterrâneo, aos flares comunistas transformados em drones israelitas, passando pela birra da Greta, a moca da Aparício e a lata da Mortágua — mas agora que o espírito (como dizê-lo?) demoníaco desta passeata se revelou, em todo o seu esplendor, a coisa deixou de ter graça. Devia ter desconfiado (ainda mais um bocadinho) de uma organização a cargo de Thiago Ávila, o mais famoso carpideiro no funeral do líder do Hezbollah.
Felizmente, para efeitos de comicidade, podemos sempre contar com a Assembleia da República. Mas que estupendos regabofes a que temos assistido no hemiciclo! Entre os mais recentes, estão os supostos beijinhos que o vice-secretário da mesa do parlamento, o deputado do Chega, Filipe Melo, mandou à deputada do PS, Isabel Moreira. Teve azar, o deputado pinga-amor: no preciso instante entre o pintar de uma unha e o descobrir a dona de um telemóvel esquecido no WC, Isabel Moreira flagrou-o a mandar beijos. Uma coisa é garantida: Isabel Moreira não pode alegar que se sentiu feia por não lhe mandaram beijinhos nenhuns.
Ou então pode, uma vez que, aparentemente, o próprio Filipe Melo afirmou não se ter tratado de beijinhos, mas sim de uma indicação para a deputada se calar. Ou seja, Filipe Melo, enquanto vice-secretário da mesa do parlamento, em vez de abraçar a ideia de ter tido um gesto socialmente inapropriadíssimo, optou antes por fazer amor com a ideia de ter tido um gesto politicamente inadmissível.
Não têm sido tempos fáceis, para o plantel do Chega. Mas também, que diabo, não há milagres. Basta ver a qualidade das vedetas dos outros partidos, que tiveram a vantagem de escolher primeiro de entre quem queria participar no jogo político. Não só a matéria-prima era pobre, como o partido chegou já as linhas estavam feitas. Haveria bons intérpretes ainda fora da política que entraram no Chega, mas a equipa encheu-se de gordos que vão à baliza: malta com tijolos em vez de cafunés.
Por falar em cafunés e como se não bastasse a flotilha, em terra, o Hamas também foi muito acarinhado. Nos Globos de Ouro da SIC, o sofrimento na Palestina veio várias vezes à baila. Quase todo o sofrimento na Palestina, vá, que o sofrimento dos reféns israelitas, cujo rapto pelo Hamas é a causa próxima do sofrimento na Palestina, esse, teve menos tempo de antena do que a Inês de Sousa Real na Toros TV. A todos os que deixaram uma mensagem sobre a Palestina nos Globos de Ouro, deixo a mensagem de Ricky Gervais a todos os que aproveitam estes momentos para deixar este tipo de mensagem:
“If you do win an award tonight, don’t use it as a platform to make a political speech. You’re in no position to lecture the public about anything. You know nothing about the real world. Most of you spent less time in school than Greta Thunberg.
So, if you win, come up, accept your little award, thank your agent, and your god, and fuck off.”
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