1 “Estabilidade” dizem eles. Dizem todos, faz impressão, sem se darem conta de que nada o PS está a produzir com ela ou nela amparado.É impossível que o argumento nos comova. Santana Lopes, repetirei sempre, era um chapeuzinho de chocolate comparado com o polifónico desastre socialista (ou mesmo com o “pântano” de Guterres). António Costa faz-me lembrar aquele ministro da Informação do Iraque – como é que ele se chamava? – que com água pelo pescoço acenava ao mundo com a certeza de amanhas radiosos na terra dele. Estamos lembrados do resto.

Mas sim “isto” vai continuar porque não há como não continuar: a maioria não é “apeável”, nem tão cedo o Chefe de Estado se meterá noutra aventura eleitoral, a outra não lhe saiu bem. O país continuará regido (?) pela grande família socialista, segura numa rede estatal de interesses que respira à custa do dinheiro público. Uma apagada e vil esterilidade que soma desastres em vez de resultados

Com o país manietado por um crescimento anão, urgências sobrelotadas, escolas sem professores, dinheiro a crédito, greves que lesam quem trabalha embora feitas em nome dos “trabalhadores” – o Presidente, após sete anos de prazeirosa* companhia com o poder socialista, ensaia outro tom. Percebeu que começou outra peça, ignorando-se ainda quanto tempo durarão os ensaios e que papel concreto se reservará a seguir. (Deixo uma dúvida: desde quando é que um Chefe de Estado faz avisos governamentais com prazo? Um ano para o governo mostrar o que vale? A quem? E quem avalia? Segundo que critério? Presidencial? Acabarem os “casos” mas continuar a estagnação? As sondagens? A rua?)

2 E no entanto… se a maioria absoluta do PS começou por espantar o seu próprio líder – hoje sabemos que inclusivamente pode dar politicamente cabo dele – ela poderia ter sido evitada. Ou relativizada. Não me refiro neste caso à maioria de votos socialistas – e às tumultuosas revelações que produziu – evoco hoje o centro e a direita. Para relembrar isto: bastava (julgo que o verbo é esse: “bastava”) que Rui Rio, então líder do PSD, tivesse ido por diante com a ideia que chegou a fazer algum caminho de uma coligação pré-eleitoral entre o PSD e CDS e tudo poderia ter sido diferente: não só o CDS não se teria sumido do mapa parlamentar, como o próprio PSD teria beneficiado com essa espécie mistura de confiança, estímulo, e maior galvanização que tal coligação poderia desencadear em três frentes: no seio de cada um dos partidos; no interior de si mesma, no comportamento do eleitorado.

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Não se pode, não se deve esquecer isto. As razões oficiais remeteram para a existência de “desacordos”. (Qual a morada partidária onde não os há?)

Era – foi – porém uma pura questão de liderança: qualquer líder digno desse nome colocado face à perspetiva de uma iniciativa política com futuro, daria a volta às coisas. Negociaria, convenceria, lideraria para obter a concordância dos seus pares. O erro contribuiu para o Portugal mais fracassado que aí está… Dir-me-ão e talvez com razão que é inútil fazer futurologia sobre o que não aconteceu mas este exercício de memória talvez não seja hoje totalmente despropositado: com o PSD e o CDS coligados nas últimas legislativas e logo um outro resultado eleitoral, uma boa porção de coisas teria sido diferente, e outra, evitada.

3 De modo que agora sim, oficializado e com prazo de validade (um ano, não é?) há um combate entre o PR e o PM. E depois um desfecho. Seria incapaz de o escrever por antecipação: as personagens que estão no ringue não comparáveis em nada, as formas mentis são muito distintas, as personalidades muito diferentes – mais que do que parecem. E o modo como cada um usa a força e os instrumentos políticos que tem, também. Não olham enfim – e não a praticam – a política do mesmo modo. Seja como for, vai ser obrigatório seguir cada estação do caminho que os espera. O que se sabe é que as estações não serão amenas.

O centro e a direita exultaram ao ver o Chefe de Estado metamorfoseado num reitor severo após terem convivido sete anos com um presidente cúmplice. Exultaram por ter a esperança – ou mesmo já a certeza – de que o oxigénio de que precisam para chegar ao poder, virá de Belém. Talvez. Parece-me que mais do que isso, aquilo que produzira e encenará as estações do Presidente é a sua preocupação com o seu próprio legado. Sabe que há que fazer qualquer coisa antes que nada haja a fazer.

A mais magna questão de Marcelo Rebelo Sousa, com o tempo em contagem decrescente.

4 Pequena nota com alguma importância: numa fuga para a frente face à sua própria deliquescência, diversos arautos do PS&governo têm-se entretido em comparações com outras maiorias do passado. De tão manhosas chegam a ser embaraçantes mas a esquerda nunca hesita e com ou sem ajuda da media – mas normalmente com – faz de um ardil, um facto. A seguir a própria media encarrega-se do pôr o falso facto na montra: o ardil transforma-se em narrativa comprovável. Ao ouvir os arautos, tem-se por seguro que o ex-primeiro ministro Cavaco Silva teria conhecido a mesma deliquescência no final do seu ultimo governo. A mesma “fartura” (o adjectivo é meu) os mesmos casos , a mesma arrogância. A mentira ampara a falsa comparação e confunde memórias cansadas. Sucede que o legado de Cavaco não é disfarçável. Existe. Cavaco deixou outro Portugal atrás dele. Costa deixará as contas – talvez – certas, num país estagnado e civilizacionalmente decadente.

O então primeiro ministro Cavaco Silva privatizou diversos sectores da vida do país, fortaleceu a economia, incentivou o sector privado, pôs Portugal a crescer, dotou-o de infraestruturas, liberalizou a comunicação social, fez nascer os dois melhores ex-libris culturais do país – Serralves e CCB – e estou a resumir. É certo que governou com boas marés mas uma coisa é achá-lo arrogante, distante ou seja o que for – é secundário – outra, é comparar o que não é factualmente comparável.

Segundo os mesmos arautos e boys Costa teve mandatos muito difíceis com uma pandemia às costas (os governos do mundo inteiro também), e “tem” uma guerra (a Europa também). Ninguém nega as aflições porque terá passado, a começar por mim mas lembrei-me de Passos Coelho. E da coligação que liderou, a braços com a ameaça concretíssima de uma banca rota produzida pelo PS. E pergunto: e então os algozes da troika com quem o mesmo PS já tudo negociara antes da governação PSD/CDS entrar em acção? E o incansavelmente activo Tribunal Constitucional vetando tudo, e a rua sempre “de serviço”, e a media sempre prestimosa? E governar com aquele cerco de aço? Um cerco de quatro anos que culminaria com um vitória eleitoral (alias o principal ponto de interesse desta saga por contar). António Costa viveu “em comum” as mesmíssimas aflições e incertezas dos governantes europeus, Passos Coelho viveu outro tipo de terríveis preocupações, vencendo-as sozinho e cercado.

*Gente séria que estimo concorda ou mesmo aplaude a coabitação como ela tem ocorrido entre o PR e o PM. Argumentam que devemos encarar como politicamente normal que o Presidente colabore com o governo em vez de o hostilizar ou guerrear. Percebo o princípio, discordo com base no modus faciendi presidencial a que assisto há sete anos: uma proximidade invulgar – ora aparatosa, ora ruidosa; histriónica demais, vocal de mais, amical demais. A mesma que o Presidente mantém com o povo, mas o povo não é o governo. A coabitação parece excessiva na sua cumplicidade política, o que uma “normal” relação institucional nunca reclamou, nem as naturezas do Chefe de Estado e do Chefe do governo recomendariam. E o país, ganhou com esta proximidade mais protectora que exigente, mais colaborante do que vigilante?