Vou de férias. Para um lugar que conheço bem, em que ir à praia ainda é ir a banhos, os mosquitos picam e o por do sol vê-se sem câmara. Espero as surpresas do costume: um vespeiro democrático no passadiço; a raposa que teve netos; um barco encalhado à entrada do rio. Gosto de lugares que me conhecem. Referenciais. Trazem-me de volta o equilíbrio. Esse de que duvidamos quando a realidade se mostra em perspectivas inconciliáveis.

Sou uma sobrevivente do António Sala e da Olga Cardoso: todas as manhãs, de segunda a sexta, aquelas vozes ressoavam pela casa através de um pequeno rádio que a minha mãe ligava assim que chegava à cozinha. Durante muito tempo pensei que entre o meu quarto de adolescente lacónica e aquela cozinha com cheiro a café, houvesse um portal. Às sete da manhã, passava do meu pequeno mundo existencial, desse lugar onde me pensava, para um mundo de cenário radiofónico: gargalhadas exuberantes, anedotas, música para animar o dia, concursos e desgarradas entre o Porto e Lisboa, um optimismo incontinente – uma potente câmara de transfiguração da realidade.

Trinta e cinco anos depois sinto o mesmo. Entre o lugar optimista em que o Primeiro Ministro vive e a realidade, há um portal. Nesta dimensão onde vivo, da janela da sala onde estou a trabalhar, oiço umas centenas de pessoas a gritar lá em baixo “Costa, escuta, os trabalhadores estão em luta”. Foram despedidos, perdão, convidados a sair com óptimos contratos de rescisão que lhes permitem ter subsídio de desemprego durante os próximos anos – é sempre bom ter alguém a pensar no bem futuro e num plano de reforma com início aos 55 anos. Gargalhada exuberante! Deste lado do portal, estão a ser despedidos de uma das empresas com maior lucro do país. Também deste lado, oiço os Médicos de Família a pedir ao Primeiro Ministro para terminar com a mobilização contínua e permanente destas estruturas para o combate à Covid-19 que serviram a 9% da população e que deixaram 13,5 milhões de contactos presenciais médicos e de enfermagem em cuidados de saúde primários por fazer (DN de 23/07/2021). No lado de cá do portal, são estas as estruturas que preferencialmente actuam na prevenção, diagnóstico e intervenção nas doenças. Não será fácil fazê-lo sem profissionais, sem meios e sem plano. No cenário governativo haverá dinheiro para cobrir tudo isso. Mais uma gargalhada! Haverá dinheiro, talvez não haja é tempo para os milhares de doentes com diagnósticos por fazer. Aliás, e antes das férias, deveria ter sido feito não o  debate do Estado da Nação mas das Nações: o da nação real e o da nação do outro lado do portal, a ficcionada se não em estúdio radiofónico pelo menos no palco do hemiciclo.

Há optimismos irritantes. E há-os desfasados de qualquer realidade.

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