1. A democracia não aconteceu em Abril de 74, mas sim em Novembro de 75. A revolução de abril acabou com a ditadura, mas, durante 579 dias, comunistas, trotskistas, maoístas e afins, resistiram a instituir a democracia liberal como regime. Assim, a liberdade foi um esperança frágil.

2. O Estado Novo já tinha caído, mas a democracia liberal ainda não era uma certeza. Nesta altura, o processo revolucionário já não estava apenas em curso. Foi acelerado devido à derrota do PCP e da restante extrema-esquerda nas eleições constituintes de 25 de abril de 1975. Felizmente, houve reacções.

3. Entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, a esquerda portuguesa tentou que o nosso país rumasse ao “socialismo”. Na realidade, o que Álvaro Cunhal, Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Gonçalves e outros queriam era implementar uma ditadura soviética em Portugal.

4. Nunca devemos esquecer a data da liberdade. Nunca devemos esquecer que é necessário celebrá-la sempre. E também não podemos esquecer que é preciso estar sempre disponível para a defender. Porquê? Porque é mais fácil conquistar a liberdade do que a manter.

5. Sem o 25 de Novembro, que devemos a Ramalho Eanes e Jaime Neves, entre outros, incluindo vários líderes partidários como Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Freitas do Amaral, o PREC (Processo Revolucionário em Curso) teria tido sucesso.

6. Ambas as datas devem ser comemoradas por estarem umbilicalmente ligadas. Sem liberdade não há democracia, mas sem democracia também não há liberdade.

7. Passados todos estes anos, o PCP continua inflexível. É normal. O comunismo representa o oposto da democracia liberal e o 25 de Novembro continua a ser a maior derrota da extrema-esquerda portuguesa.

8. Porém, quando hoje vemos membros do PS a renegar o seu passado histórico, manifestando-se contra as celebrações do 25 de Novembro, percebemos que o marxismo, apesar de ser cada vez mais irrelevante nas urnas, continua pujante. Mas há pior.

9. Durante décadas, os marxistas usaram argumentos – a injustiça intrínseca do capitalismo (superioridade moral), avaliações assimétricas (dois pesos e duas medidas), distinção entre teoria e prática (o ideal permanece intacto), inevitabilidade dos determinismo histórico, autoridade científica do marxismo, argumento utilitarista do bem maior e a legitimidade revolucionária – para justificar as suas utopias e ideias ditatoriais.

10. Depois da vitória sobre a União Soviética, o Ocidente viveu na ilusão confortável do fim da História. Tal como os marxistas fizeram, os ocidentais acreditaram que a democracia liberal, o mercado livre e o universalismo eram o culminar da história.

11. Contudo, mesmo antes de derrota do sistema marxista e até recentemente, a direita, ao contrário da esquerda, nunca teve dúvidas em repudiar qualquer tipo de ditaduras (fascistas, nazistas, comunistas, etc.).

12. Entretanto, a esquerda procurou reconstruir-se e além do que já fazia (ponto 10), acrescentando à sua retórica e acção política as questões identitárias, reforçou o ataque às liberdade individuais, voltando a exultar as virtudes das ditaduras marxistas e apenas estas.

13. Assim, depois de anos de complacência silenciosa, depois de anos sem perceber que a democracia também se faz na rua, só depois dos abusos legislativos da esquerda terem ultrapassado os limites do razoável é que a direita começou a reagir.

14. Infelizmente, a resposta da direita fez-se através do uso das tácticas marxistas. Criou o seu próprio populismo, armou-se com a sua própria superioridade moral, (fundamentalmente religiosa), passou a fazer uso de avaliações assimétricas, da discriminação, da censura e do banir de livros.

15. Essa reprodução vê-se quando os filiados ou simpatizantes de partidos da extrema-direita demonstram ser incapazes de analisar objectivamente os episódios e as ocorrências e agem como claques facciosas que desculpam aos representantes do seu partido os mesmíssimos comportamentos que criticam aos rivais.

16. Perante isto, não é implausível referir a democracia das claques: o que é feito pelos nossos está sempre bem. Quando o mesmo for feito pelos outros estará sempre mal.

17. E, no que respeita à imitação da extrema-esquerda pela extrema-direita, convém não esquecer o ressurgimento do apoio popular de direita ao fascismo, nazismo, corporativismos e afins, que passaram a ser autocracias ou ditaduras boas.

Assim, pode parecer estranho dizer isto, sobretudo quando estamos a festejar os 50 anos da democracia liberal e pluralista em Portugal, mas talvez não seja

A transversalidade do marxismo – quer da postura marxista de ataque pessoal em detrimento do debate baseado em argumentos, quer do controlo absoluto partidário – é inegável em muitos partidos políticos portugueses, da esquerda à direita.

Pode não haver consciência disto. Se assim for, é mais uma razão para reflectir no assunto. Há demasiado marxismo nos partidos políticos portugueses.

Mas admito a possibilidade destas observações estarem erradas e de não ser um triunfo do marxismo, mas antes do radicalismo populista. Seja o que for, a distinção entre os extremos está a diminuir.