Há um talento muito nosso — não exclusivo, mas particularmente afinado — que consiste em falar de pessoas como quem comenta o estado do tempo. Observa-se, interpreta-se, acrescenta-se um detalhe, e segue-se caminho. Tudo isto com uma naturalidade desarmante. O problema é que, ao contrário do tempo, as pessoas têm nome, história e, sobretudo, direito a responder.

É aqui que começa o desvio. Falar de alguém é cómodo. Não exige risco, não obriga a confronto, não implica a possibilidade — sempre incómoda — de estarmos errados. Falar com alguém, pelo contrário, expõe. Pode correr mal. Pode obrigar a recuar. Pode desmontar a narrativa que fomos construindo com tanto cuidado. Por isso, escolhe-se muitas vezes o caminho mais fácil: fala-se de. E fala-se muito.

A murmuração, que antes era coisa de sacristia ou de café, ganhou estatuto mais sofisticado. Hoje apresenta-se como análise, leitura de contexto, preocupação institucional. Já não é “dizer mal”; é “refletir sobre”. Mas o mecanismo mantém-se intacto: constrói-se uma versão sem a presença de quem está a ser falado. E uma versão, quando repetida, começa a adquirir aparência de verdade.

Hannah Arendt oferece uma chave decisiva: a realidade precisa da presença dos outros para ser confirmada. Sem essa presença, o que temos não é realidade — é narrativa. E a narrativa, quando não é confrontada, fecha-se sobre si mesma. Torna-se impermeável aos factos e resistente à correção.

No quotidiano, isto traduz-se em efeitos muito concretos. O primeiro é a quebra da comunicação direta. Situações simples, que se resolveriam com uma pergunta clara, transformam-se em labirintos de suposições. Perguntar diretamente? Podia ser. Mas perguntar implica dar a cara. E dar a cara é sempre um risco. Assim, prefere-se deduzir. Depois, partilhar a dedução. E, se possível, validá-la com mais alguém.

É aqui que nascem os “corredores”. Não apenas físicos, mas sobretudo mentais: circuitos informais onde circulam opiniões, leituras, suspeitas. E esses corredores tornam-se, muitas vezes, mais influentes do que os espaços formais. Não porque sejam mais verdadeiros, mas porque são mais rápidos. E mais confortáveis.

A partir daí, instala-se um fenómeno curioso: todos sabem, todos comentam, todos têm uma opinião — menos a pessoa implicada. Essa fica de fora. Torna-se personagem de uma história que não controla. E é difícil imaginar algo mais desgastante do que isto: ser reduzido a uma versão, a um rótulo, a uma interpretação que circula sem contraditório.

Não estamos apenas diante de mal-entendidos. Estamos diante de uma forma de exposição sem defesa. De perceber que há uma conversa a decorrer — mas não ter acesso a ela. De viver sob o peso de leituras alheias que nunca chegam a ser verificadas.

Entretanto, o ambiente altera-se. A desconfiança instala-se, não por maldade explícita, mas por falta de clareza. Se as coisas não são ditas diretamente, tudo se torna interpretável. O silêncio ganha significado. Os gestos são lidos à lupa. E, pouco a pouco, as relações deixam de assentar no que é dito e passam a assentar no que se imagina que foi dito. Não é preciso muito para que isto se torne insustentável.

Jürgen Habermas formulou-o com rigor: a comunicação só é autêntica quando os interlocutores se reconhecem mutuamente como válidos. Quando esse reconhecimento desaparece — quando um fala e o outro não pode responder — deixamos de estar no campo da comunicação. Entramos no campo da estratégia. Já não se procura a verdade; procura-se influenciar perceções. Já não se conversa — gere-se narrativa.

E onde não há confronto direto, nascem inevitavelmente os estereótipos. As pessoas passam a ser definidas por versões simplificadas: “é assim”, “faz sempre isto”, “já sabemos como funciona”. São atalhos mentais, úteis para poupar tempo, mas profundamente injustos. E perigosos. Porque, uma vez instalados, dispensam verificação. Já não é preciso perguntar — já se “sabe”.

Curiosamente, tudo isto acontece muitas vezes em nome de evitar conflitos. Não se diz diretamente para não criar tensão. Mas o resultado é o inverso: o conflito não desaparece, apenas muda de lugar. Deixa de ser frontal e passa a ser difuso. E, sendo difuso, torna-se mais difícil de resolver — e mais corrosivo.

Se trouxermos isto para dentro da vida da Igreja — e convém trazê-lo, porque ninguém está imune — a questão torna-se ainda mais exigente. Aqui não está apenas em causa uma falha de comunicação; está em causa a própria coerência com aquilo que se anuncia. A Igreja vive de encontro. Não de versões paralelas, não de leituras indiretas, não de comentários de bastidor. Vive de palavra dita e escutada, de rosto a rosto.

E, no entanto, também aqui se instalam corredores. Também aqui se fala “por prudência”, se evita “para não ferir”, se comenta “para perceber melhor”. Mas, no fim, o que se constrói é o mesmo: ausência de encontro. E sem encontro não há comunhão, apenas uma aparência de organização.

O Padre Pedro Guimarães sintetiza isto de forma desarmante no título do seu livro: a comunicação da Igreja é um encontro. E acrescenta, com uma clareza que não permite fugas: “Só há encontro se houver movimento”. Não há comunicação sem deslocação — interior e exterior — em direção ao outro. Não há encontro permanecendo no comentário lateral, na análise à distância, na segurança de quem fala sem se expor.

E é precisamente esse movimento que evitamos. Porque implica sair do lugar confortável de quem interpreta e passar para o lugar exigente de quem escuta. Implica deixar o “falar de” e arriscar o “falar com”. Implica aceitar que o outro pode desmontar a nossa versão.

No fundo, a questão é simples e incómoda: se sabemos que tanta coisa se resolveria com uma conversa direta, porque continuamos a escolher o desvio? Porque insistimos nos corredores quando o caminho está aberto? Porque preferimos o atalho, sabendo que ele não resolve — apenas adia?

Talvez porque o caminho exige mais. Mais verdade, mais humildade, mais coragem. Mas é também o único que constrói alguma coisa de sólido. Tudo o resto — por mais sofisticado que pareça — não passa de ruído organizado.