Sendo impossível prever o que sucederá no dia 23, depois de amanhã, no Reino Unido, decidi viajar até ao futuro e já sei o resultado do referendo: não haverá BREXIT.
Abusando do privilégio da viagem no tempo, que poucos portugueses ainda dominam, conversei longamente com o eleitor britânico padrão o qual, com a minúcia que a previsão post-facto permite, me referiu 10 razões para ter decidido votar BREMAIN; antes disso, com a habitual fineza britânica fora do quadro futebolístico, explicou-me que em todas as sondagens em que participou afirmara sistematicamente votar BREXIT. Irritado “com a política e os políticos” (“politics as usual” foi a expressão que usou), com Bruxelas a meter o nariz em tudo, com a gestão da imigração (“that dreadful refugees business”) e a unanimidade “suspeita” de banqueiros e empresários pela permanência, estava decidido a BREXITAR.
O coração, sublinhou. Mas depois, à medida que se aproximava o dia do referendo, a mente dominou a emoção e, uma a uma, até contar dez, foi-se apercebendo das razões pelas quais devia votar BREMAIN. E cada uma dessas razões sobrepunha-se a um argumento do BREXIT.
Primeira razão: “pathos”. O voto na saída era, diziam os BREXITEERS, “for Queen and Country” (pela Rainha e pelo País). Ora, depois de reflectir, chegara à conclusão de que essa saída poderia levar ao fim do Reino Unido (a Escócia exigiria provavelmente um novo referendo). Deu-me uma lição de História: “se a Escócia sair, deixamos de ser a Grã-Bretanha, perdemos o Grã”. Percebi: Como é que isso contribui para a grandeza do país?
Segunda razão: económica. Defendiam os pró-Leave que o BREXIT melhoraria a economia. Mas como é que deixar de ter acesso livre a um mercado de 440 milhões de pessoas, mesmo com o recurso a alternativas e uma boa negociação, melhora uma economia já a funcionar tão bem, justamente graças a esse mercado? Estariam os restantes europeus dispostos a conceder aos britânicos (da só Britânia, ver primeira razão) qualquer benesse sob a forma de um acordo comercial favorável? O mais certo, ao contrário do que lhe respondia o coração, é que a Bretanha tivesse sérias dificuldades em aceder em condições aceitáveis ao mercado europeu.
Terceira razão: também económica. Os defensores da saída, e o coração do meu interlocutor, juravam que o país iria poupar imenso dinheiro ao deixar de contribuir para a União Europeia. Mas se o país pretendesse continuar a aceder ao mercado europeu em condições aceitáveis, teria de pagar uma contribuição (e substancial) – solução norueguesa – ou negociar caso a caso as condições de acesso – à Suíça -, com custos igualmente elevados. E em qualquer caso estaria sujeita às mudanças nas regras impostas pelos europeus, sem ter “voto na matéria”.
Quarta razão: a soberania. Livre das grilhetas de “Bruxelas”, o Reino (talvez) Unido seria de novo senhor de si próprio, decidindo o que melhor lhe conviesse. Este era um dos argumentos mais caros ao coração do meu ilustre interlocutor. Soberania, o poder de se governar a si próprio. E foi por isso o mais difícil de desalojar do tal coração, até à profunda fibra britânica. Mas, perspicaz, a razão foi aduzindo razões: soberania, qual soberania? Fora a velha e relha questão do mercado interno europeu – em que ficara claro, nos argumentos dois e três, que os ingleses ficariam sempre a perder (também soberania) – defendia o coração que o país recuperaria poder em quase tudo o resto. Errado, explicava a mente, são hoje raras as matérias em que qualquer país, mesmo os poderosos, pode impor a sua vontade sem ter de transigir com parceiros – com quaisquer parceiros. Já para não falar nas políticas europeias de que o Reino Unido já está excluído, por vontade própria (Schengen, euro, etc). São inúmeros os casos em que o país mantém o poder de decisão …, mesmo permanecendo na União Europeia (saúde, segurança social – sim, segurança social –, educação). Please, disse a razão ao coração, think again…
Quinta razão: a geografia (e a História). O Reino Unido não é na Europa, começou ele a interrogar-se a certa altura da marcha da campanha eleitoral? Então onde é? Não somos europeus, nós que marchámos no continente tantas e tantas vezes, sangrando para o proteger de si próprio e dos seus fantasmas, em luta contra a tirania, nós, que fechámos convosco (estava a falar para mim), em Windsor, um Tratado com mais de 700 anos que ainda dura, nós não somos europeus? “Nunca me senti tão europeu” como quando pensei nisso, disse-me.
Sexta razão: Gordon Brown (e Winston Churchill). “Sair soava bem: Leave”. Deixem esses europeus casmurros e rígidos sozinhos com os seus problemas continentais e recolham-se à nossa ilha orgulhosa e invencível. Mas “Lead not Leave”, – Liderar não Sair – soa melhor. Sabe melhor. É melhor. Winston Churchill (e Gordon Brown).
Sétima razão: o medo. “Foi quando percebi que também eu cedera ao medo” e estava pronto a votar em nome dele. “Também eu”, explicou o meu interlocutor, “me assustei com a ameaça dos refugiados”. Com o perigo do terrorismo. Com a imagem de vagas de imigrantes a roubar empregos aos bons britânicos. Até perceber, ao escutar as vozes das ruas de Londres e de tantas cidades do país, do Reino unido de Norte a Sul, de Gales à Escócia e à Irlanda do Norte, que os imigrantes que cá trabalham, sejam europeus ou de outras paragens, trazem-nos o que faz falta, a força de trabalho disposta a trabalhar no que os britânicos já não querem fazer, ou a competência especializada, que enriquece o país e o torna melhor. Até perceber, sussurrou, que os Outros não são o Inferno, como defendia Sartre (outro europeu), o Inferno é o que fazemos aos Outros em nome da intolerância.
Oitava razão: o ódio. Disse ele: “Foi quando finalmente o ódio do discurso xenóbofo e intolerante começou a transbordar do meu coração, que todo o meu corpo, todos os nervos, músculos e órgãos do meu corpo se revoltaram e expulsaram o ódio”. Quando percebeu que toda a campanha do LEAVE se baseava na reclusão do país, num isolamento esplêndido apenas nas palavras, e que o clima de ódio e raiva contra os estrangeiros, o continente, os outros, contrariava a gloriosa tradição britânica de universalismo e abertura, flexibilidade e ambição. E expulsou o ódio do seu coração.
Nona razão: os defensores do BREXIT. A inconsistência de Johnson. O poster “breaking point” de Farage. E, neste ponto, o meu interlocutor suspirou.
Décima razão: o coração. “Como”, respondeu o coração, “se o coração sou eu?”. Mas a razão explicou-lhe a visão europeia dos pais fundadores, a razão para a existência da União: disse-lhe que a Europa, com todas as suas incongruências, falta de eficácia ou de coerência, garantira aos europeus – aos cidadãos europeus, incluindo aos ingleses – mais de 70 anos de paz ininterrupta, coisa que nunca sucedera na História europeia; e o coração rendeu-se à razão e deu por si a amar a ideia europeia, muito mais do que um mercado, muito mais do que uma moed. Fez-se o coração razão e a razão coração e o meu amigo votou REMAIN.
PS. A minha viagem ao futuro nunca aconteceu. E se suceder o oposto do que vi acontecer nessa viagem imaginária, certamente terei cometido um erro grosseiro. Mas não creio. Acredito profundamente no bom senso do povo britânico, um povo que nós, portugueses, aprendemos a admirar e respeitar, com todas as suas virtudes e todos os seus defeitos.
O ideal europeu é real. Acabar com ele colocaria a Europa, de novo, na rota perigosa que tantas vezes trilhou ao longo da sua História.