Lá estava eu ontem, de manhã, a escrever a minha crónica para hoje, sobre um tema que pode ficar à espera de outro dia, quando o Twitter me trouxe uma delícia: o Giles Coren, colunista do Times de Londres, a escrever… ou melhor, a vomitar… sobre a comida Portuguesa.

Giles Coren, um dos mais lidos críticos de restaurantes na Inglaterra, com 172 000 seguidores no Twitter, ocupou-se sábado passado da Taberna do Mercado, o novo restaurante de Nuno Mendes em Londres. E aparentemente, Giles não gostou mesmo nada. Bem, gostou do prego e da bifana (ou, como ele lhes chamou, “the sandwiches”), mas tudo o mais lhe pareceu detestável. E nessa veia, utilizou o resto do artigo para explicar que toda a comida portuguesa é um nojo e que “nunca tinha comido uma garfada com gosto” em todas as visitas que fez a Portugal.

Não me admiro que o Giles Coren não goste de comida portuguesa, nem de Portugal. Coitado do Giles. Não é apenas porque, quando era criança, diz ter assistido, no átrio de um hotel, à morte lenta de um homem picado por uma alforreca na praia, mas também porque, na mesma altura, o jardineiro do hotel decapitou uma lagartixa que o pequeno Giles tinha adotado, e lhe disse que a ia comer (provavelmente, havia várias lagartixas a fazer turnos para ser a lagartixa de estimação do Giles… as lagartixas não gostam assim tanto de miminhos. Acho que alguém lhe devia explicar isso).

Estou tentada a convidar o Giles a jantar cá em casa, mas é provavelmente uma causa perdida. Ele tem demasiadas cicatrizes mentais provocadas por Portugal, e nenhum enchido, queijo ou qualquer coisa feita com ovos seria suficiente para reconquistar o seu coração.

Admiro-me, sim, da rapidez com que muitos estrangeiros se adaptaram e adoptaram a comida portuguesa. Digo abertamente que levei algum tempo a aprender a gostar, embora seja possível que isso tinha a ver com o facto de saber que ia provavelmente ficar a viver por cá. Era uma espécie de pânico… “o quê? tenho de comer açorda? para sempre??!” Há coisas que são mais difíceis de aprender a gostar do que outras. Na Inglaterra, crescemos a comer couves sobre-cozidas, e aprendemos a odiá-las. Que coisa, então, descobrir que couve sobre-cozida no topo de um cozido é uma das minhas comidas favoritas por cá. Ou então encontrar uma lesma de sabor estranho na sopa, e perceber depois que afinal a lesma era farinheira, e que vamos adorar a farinheira acima de tudo. Mas continuo achar que a açorda é um prato profundamente nojento.

Depois de ler o primeiro parágrafo do Giles Coren a atacar liricamente os horrores da culinária portuguesa, que ele descreve como “o que seria a comida inglesa se tivéssemos um clima melhor” (porque sim, nós, os britânicos, também somos capazes de auto-depreciação, e até fazemos isso muito melhor do que os portugueses), comecei logo a calcular quantas cabeças iriam estar a rebentar de raiva ao ler isto. No artigo, Coren é antipático para Portugal (está tudo bem, Giles, Portugal aguenta) e bastante mau para o Nuno Mendes, que, segundo me dizem, é um homem muito simpático. Mas não pude deixar de imaginar écrans e jornais salpicados com os miolos dos portugueses e dos lusófilos que lêem o Times (não faço a mínima ideia quantos são, mas deve haver pelo menos dois ou três).

Ora, é bom lembrar que a crítica de restaurantes não é um serviço à nação, nem à integridade jornalística. É entretenimento. Os leitores adoram ver coisas evisceradas com esnobismo. Tem piada e é uma espécie de catarse… a não ser que o leitor tenha uma ligação qualquer com a vítima. Então, tudo se torna pessoal. Depois, cabeças rebentam e o seu jornal fica coberto de salpicos de miolos.

Quanto devemos conhecer de uma coisa qualquer antes de escrevermos a gozar sobre ela? Devia o Giles Coren escrever coisas tão feias sobre Portugal, dada a sua limitada experiência do país (não esqueçamos o morto e a lagartixa, também morta)?

Claro que sim. A pergunta é, aliás, estúpida. As pessoas só podem escrever no âmbito da sua experiência, seja muita ou pouca. É a única coisa que se pode fazer. Imagine a treta condescendente que pessoas escrevem sobre a Tailândia ou o Vietname, depois de não terem visto mais de 1% desses países. E no entanto, nunca questionamos o seu direito a escrever.

Ser mau, gratuitamente mau, porém, é outra coisa. Embora tenha muita piada e seja capaz de auto-depreciação, o Giles Coren foi mau demais para com um homem e o seu restaurante (o qual, segundo os portugueses e os lusófilos que conheço e que já lá comeram, é bom). Sei que o Giles Coren não é levado muito a sério na imprensa britânica. Armar-se em parvalhão hiperbólico é o seu papel, um pouco à maneira do Jeremy Clarkson ou do A. A. Gill. Eles todos desempenham esse papel muito bem. Mas é pena que um restaurante e um negócio tenham de sofrer, só para o GC poder ter piada.

Ainda mantenho a ideia de convidar o Giles para um jantar cá em casa com umas dúzias de amigos meus portugueses, incluindo alguns chefes de cozinha. Seria o convidado de honra, claro, bem no meio da mesa.

giles

(traduzido do original inglês pela autora)

Giles and the Jellyfish

There I was, yesterday morning, writing this week’s crónica about something that can keep for another day, when twitter delivered me a delight. Giles Coren going off on one in the Times about Portuguese food.

It was a critique of Nuno Mendes’ new restaurant in London, A Taberna do Mercardo, and Giles really didn’t like it. Well, he liked the prego and the bifana (or, as he called them, “the sandwiches”), but, according to him, everything else was horrid. He used the whole piece to say that all Portuguese food was awful and that he had “never had a pleasant mouthful” in all his many visits.

I’m not surprised that GC doesn’t like Portuguese food nor Portugal. Poor Giles. Not only did he watch a man die slowly of a jellyfish sting in a hotel lobby when he was here as a kid, but the gardener of the hotel took the head off a lizard that Giles had adopted, and joked that he was going to eat it (it was probably several lizards, doing shifts as Giles’ pet… lizards don’t like cuddles that much, I think I should tell him). I’m tempted to invite him over for dinner, but I know it’s a lost cause. Giles was scarred for life by Portugal and no amount of enchidos and cheeses and things done to eggs will win him over.

I am surprised, though, at how quickly many people do take to Portuguese food. I am happy to admit that it took me a while, although that might have had something to do with knowing that I would probably be spending the rest of my life here. It was a kind of panic thing… “what? I have to eat açorda? forever?!”  Some things are an acquired taste. We grew up with over-boiled cabbage in England and learned to hate it. What a thing it is, then, to discover that over-boiled cabbage on the top of a cozido is one of the best forms of comfort food you can eat. What it is to be repelled by some weird tasting ugly mush in your soup to discover later that it is farinheira and that you love it above all things. I still think açorda is profoundly nasty, though.

After just one paragraph of GC waxing lyrical about how dreadful Portuguese food is, “what English cooking would be if we had better weather” (because yes, we British do self-deprecation, too, and we’re even better than you at it) I was imagining just how many heads would be exploding with rage as they read it. He is rude about Portugal (it’s ok, Giles, Portugal can take it), and he is rather mean to Nuno Mendes, who, I am told, is a lovely man. I was imagining screens and newspapers splattered with brain matter belonging to the Portuguese and/or Lusophile Times-reading community (I have no idea how many Portuguese or Lusophiles buy the Times or pay the paywall, but there must be at least two or three).

Now, let us remember that most restaurant criticism isn’t a service to the nation, nor to journalistic integrity. It’s entertainment. Readers love seeing things ripped apart, snobbily, in print. It’s funny and it’s cathartic…. unless you have any connection to the thing being ripped apart. Then it becomes visceral. Then heads explode. Then there is brain matter on your newspaper.

How much knowledge should you have of something or somewhere before you can take it down? Should Giles Coren be allowed to write such nasty little things about Portugal within his limited experience of it (and don’t forget to factor in the dying guy and the decapitated lizard)?

Well, of course he should. What a stupid question. People write of their experience, whether it is limited or not. They can’t possibly ever know anything else. Imagine the patronising drivel that people write when they come back from, say, Vietnam or Thailand, when they have no clue about 99% of what they saw there, yet we never question their right to write.

Being mean, though, gratuitously mean, that’s another thing. Although GC is very funny and self-deprecating, he is also over the top nasty about a guy and his restaurant (which is, by accounts of Portuguese and Lusophiles who have been there, good). I know that people in the business don’t really take any notice of what GC writes. Being a hyperbolic arse is his job, much like it is Jeremy Clarkson’s job, or AA Gill’s job. They all do it terribly well and are paid to do it. It would be a shame, though, if a restaurant, a business, suffers because GC wants to be funny.

I’m still considering inviting him over for dinner. He would be the guest of honour at a table filled with a couple of dozen of my Portuguese friends, some chefs included.