As presidenciais pareciam ser um passeio no parque para Gouveia e Melo. Já há dois anos, em julho de 2022, as sondagens davam-no como favorito. Parecia ter tudo ao seu favor: o homem da farda que traz autoridade em tempos de confusão e convulsão social; um militar num mundo em guerra; a ética num país que muitos dizem ser de corruptos; e ainda um não-político num país aparentemente farto de políticos. Desde as primeiras referências a uma candidatura a Belém — sobre a qual chegou a dizer preferir a forca — até ao verão de 2025, só houve crescimento e boas sondagens.
Isso mudou. As últimas sondagens mostram um almirante em queda livre, mesmo que ainda a liderar. Em junho, numa sondagem que começou a ser feita quatro dias depois de anunciar Rui Rio como mandatário nacional, Henrique Gouveia e Melo desceu de 35,6% para 27,3%, uma queda de oito pontos face a março. Um mês depois, numa nova sondagem da Intercampus para títulos da Cofina, desceu para apenas 20,6 das intenções de voto. Como um mal nunca vem só tudo isto foi acompanhado por um crescimento dos seus mais diretos adversários: Marques Mendes, apesar de descer no último estudo, está em empate técnico com o almirante, tal como António José Seguro (que sobe 5,5 pontos).
Há eventuais atenuantes deste resultado: André Ventura aparece como candidato e, já se sabe, o almirante tem boa reputação junto do eleitorado do Chega. Mas Ventura sobe dois pontos na sondagem e Gouveia e Melo desce 6,7. Há eleitorado a navegar para outras paragens. O anti-partidário Gouveia e Melo, nesta nova sondagem, vale sozinho 20,6%, mas os dois ex-líderes (Mendes e Seguro) e um atual líder partidário (Ventura) somam 44,3% dos votos.
O almirante era muito popular quando falava pouco e aparecia menos. Passou a falar mais e a intensificar a agenda e perdeu intenções de voto. Esta ideia, que inicialmente parecia ser só um wishful thinking dos seus opositores, começa a ganhar forma nos estudos de opinião. É que se um candidato é ele e as suas circunstâncias, também é ele e as suas contradições. E essas não têm sido poucas.
Henrique Gouveia e Melo apresentou-se como um candidato fora dos partidos, mas três dias depois de formalizar a corrida a Belém, escolheu um ex-líder partidário, Rui Rio, para mandatário nacional. Para não falar da quantidade de ex-ministros presentes na sua Comissão de Honra.
Henrique Gouveia e Melo apresenta-se como um defensor da ética (não confundir com banhos de ética), mas exibe como principal apoiante Isaltino Morais, que foi condenado por fraude fiscal e branqueamento de capitais. Isto para não falar no envolvimento do ex-ministro Ângelo Correia nos Panama Papers ou até de um provedor que é acusado de utilizar para fins pessoais o BMW topo de gama da misericórdia que gere.
Henrique Gouveia e Melo é muito popular junto do eleitorado do Chega (que já vale 1,4 milhões de votos), mas a necessidade de repelir Ventura para não perder o centro pode estar a custar-lhe o desencanto desse eleitorado. O almirante já disse que não precisa do apoio do Chega, que não quer que Ventura apareça na sua campanha e que o Chega está num outro extremo do espectro político onde se enquadra. Por muito menos que isto figuras como Luís Montenegro foram crucificadas nas redes sociais pelo exército digital de apoiantes do Chega.
Henrique Gouveia e Melo diz que irá respeitar a Constituição da República e que não fará uma interpretação abusiva dos poderes presidenciais, mas ao mesmo tempo fez uma cláusula personalizada para ativar a bomba atómica da dissolução. O candidato presidencial diz que se considerar, na sua avaliação pessoal, que um Governo está a incumprir promessas eleitorais, essa é razão que baste para o afastar. Ora, só com muita criatividade se pode encontrar na alínea g) do 133ª ou no 195º da Constituição algo que sustente esta inovação do almirante.
Henrique Gouveia e Melo garante ter a humildade que caracteriza todos aqueles que dedicaram uma vida inteira a servir o País. Assegura ser desprovido de vaidades ou impulsos narcísicos, mas deixou que a revista da Marinha, paga pelas Forças Armadas e por si tutelada, o comparasse a D. João II, qual “Príncipe Perfeito”.
Henrique Gouveia e Melo diz respeitar a instituição Presidência da República, de índole unipessoal, mas não recusou participar numa cerimónia paralela, em Lisboa, à mesma hora que o Presidente da República discursava nas principais cerimónias do 10 de Junho, momento de afirmação e celebração das Forças Armadas, em Lagos.
Henrique Gouveia e Melo disse que nunca perturbaria a campanha das legislativas e que só anunciaria uma candidatura a Belém depois de serem reconhecidos os resultados eleitorais. O que fez? Anunciou a candidatura em plena reta final da campanha, roubando palco mediático a quem ia dias depois a votos para governar o País.
Henrique Gouveia e Melo apresenta-se como um homem de ação, de decisão, exibindo como credenciais o trabalho em Pedrógão Grande e, acima de tudo, na task force da vacinação durante a pandemia. Só que, depois, torna-se difícil encontrar assertividade no seu discurso.
Gouveia e Melo diz que não é de esquerda nem de direita. Admitiu afetação de despesas sociais para aumentar os gastos da Defesa, mas recuou semanas depois. Embrulhou-se no Serviço Militar Obrigatório, que afinal transformou numa espécie de Serviço Militar Voluntário. Admite reconhecer a Palestina como Estado, mas só se o Governo tomar a iniciativa. Quanto à Eutanásia diz ser “pró-vida”, mas também que há limites para o sofrimento humano. E isto são só alguns exemplos.
Se é certa a subjetividade das causas, é evidente a consequência. Henrique Gouveia e Melo, detetor de recordes de permanência no fundo do mar, está — contra todas as expectativas — a submergir nas sondagens. Nos últimos meses, o almirante apareceu e falou mais, mas — mesmo dentro de todas as contradições e erros — parece estar a ser mais castigado pelo eleitorado pelo que não diz do que pelo que diz. Já dizia Dante, na Divina Comédia: o pior lugar no inferno está reservado para aqueles que se mantêm neutros em tempos de crise moral.