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O problema não é festejar o dia do trabalhador no 1º de Maio, é a forma como se festeja. O problema não é comemorar a liberdade no 25 de Abril, é ouvir a segunda figura do Estado a dizer que não irão “mascarados”. Sabemos há muito que vivemos num país onde uns são mais iguais do que outros, mas nestes quase um mês e meio de confinamento fomos expostos às imagens dessa desigualdade de forma brutal, de desprezo por quem não pertence à casta. Seja a casta os governantes ou os sindicalistas. De um lado estão eles e do outro nós, ficou muito claro para quem ainda não tivesse percebido. Escusavam de nos mostrar isso numa altura em que estamos especialmente frágeis.

Ver autocarros da Câmara Municipal do Seixal estacionados na Alameda, em Lisboa, num dia em que ninguém está autorizado a circular fora do seu concelho é um atrevimento a que só se pode dar ao luxo quem se considera pertencer à casta do poder. E foi isso que vimos, feito pela CGTP em nome dos trabalhadores. Tudo isto num dia, ou em dias, em que abundam os relatos de pessoas que querem ir às compras a outro concelho, que divorciados com partilha conjunta das crianças têm de ouvir sermões da polícia, em que no dia da Mãe não se pode sequer ir até ao sítio onde mora a mãe dizer adeus porque vive noutro concelho.

(Sim, estas reflexões serão motivo de insultos, porque de há uns anos a esta parte não se pode dizer nada que seja diferente da linha oficial. Não se podem fazer perguntas incómodas, também. Quem fizer estas coisas corre o risco de ser ameaçado, com desejos de não ter onde cair morto. Assim entendem alguns que é a democracia e a liberdade, uma democracia que é a ditadura de quem manda e uma liberdade de dizer apenas o que quer quem manda).

Andamos a brincar com o fogo. Foi este distanciamento entre quem governa e quem é governado que explica, em parte, a eleição de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Não se pode desprezar o povo de forma tão ostensiva sem que o povo um dia reaja.

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