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Alimentação

Hábitos alimentares: entre o mito e a realidade

Autor
  • Rui Rosa Dias e José Luís Reis
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Quando se ouve o Prof. Sobrinho Simões afirmar que a doença que mais matará no Século XXI será a obesidade temos a obrigação de tudo fazer para melhorar a qualidade da nossa alimentação.

Quando se ouve o Professor Sobrinho Simões afirmar que a doença que mais matará no Século XXI será a obesidade, e que a obesidade e a diabetes descompensada são, atualmente, as principais causas de risco de cancro, temos a obrigação de tudo fazer para melhorar a qualidade da nossa alimentação, levando muito a sério um alerta cujo dramatismo fala por si.

Infelizmente vivemos rodeados de mitos. Tal como não é verdade que a avestruz meta a cabeça na areia, nem que gordura é formosura, também não é verdade que não existem consequências provenientes da falta de cuidados preventivos na forma como nos alimentamos.

Quando se abordam os aspetos básicos da nossa sobrevivência, falamos de alimentação saudável, e há quem lute todos os dias para melhorar o mundo, alertando de diferentes formas, para os malefícios diretos para o ser humano, e indiretos para a sociedade, meio ambiente e economia, da má alimentação.

Os médicos, os nutricionistas, os investigadores em várias áreas do conhecimento, produzem e disseminam informação relevante todos os dias sobre os nossos hábitos alimentares. Então porque se insiste em maus hábitos alimentares? Por um lado, porque o nosso organismo é ávido em vícios que nos dão prazer, seja do tabaco, das bebidas alcoólicas, ou de comidas com demasiado sal, açúcar ou gorduras. Por outro, há quem considere que os legisladores não podem nem devem interferir nas nossas escolhas individuais.

Podemos considerar que as políticas seguidas em relação à alimentação, até agora, têm sido ineficazes, e a prova disso é evidente nos resultados do estudo que foi financiado pela Fundação de Bill e Melinda Gates, onde se estima que 10% da população global está doente com obesidade, ou seja 107,7 milhões de crianças e 603,7 milhões de adultos são obesos. Esta população tem um excesso de gordura corpórea, com desequilíbrios energéticos comum Índice de Massa Corporal(IMC) superior a 30 kg/m2. 2015, 7% das mortes a nível mundial foram provocadas pela obesidade, ou seja, das 54,6 milhões de pessoas que morreram em 2015, 3,8 milhões morreram de doenças provocadas pela obesidade.Poder-se-ia ter evitado esta realidade? Os especialistas dizem que sim, pois a obesidade é uma doença que se pode evitar, e não é preciso fazer muito para o conseguir.

Será que alguém com bom senso pode criticar a cultura de uma alimentação saudável? Evidentemente que não. A insuspeita OMS (Organização Mundial de Saúde) tem publicado vários documentos, com orientações sobre políticas de saúde, e num dos seus documentos sobre dietas saudáveis, começa por um facto onde refere que uma dieta saudável ajuda a proteger a desnutrição em todas as suas formas, bem como protege contra doenças não transmissíveis, incluindo diabetes, doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais e cancro. Depois de referir outros factos associados à obesidade, explica ainda que uma dieta saudável para um adulto, entre outras coisas, deve incluir frutas, legumes, leguminosas (por exemplo, lentilhas, feijões), nozes e grãos integrais (por exemplo, não processados como milho, aveia, trigo, arroz integral), consumir menos 10% da ingestão total de energia a partir de açúcares livres, que é equivalente a 50 g, e que, gorduras industriais (encontradas em alimentos processados, não fazem parte de uma dieta saudável.

Ninguém com bom senso pode contestar a assertividade destas recomendações. Sobre o futuro da alimentação existem vários caminhos que devem ser explorados. A revista Wired entrevistou seis especialistas que escrevem, pesquisam e produzem informação em podcast sobre alimentação, questionando-os sobre tendências alimentares. As respostas destes especialistas às questões sobre o que se vai comer mais, e o que terá maior impacto em como comemos, permitem perceber que as pessoas procuram alimentos com sabor e textura, como por exemplo as lentilhas, que cada vez mais chefes de cozinha terão de ajustar o consumo a menor quantidade de carne e peixe, o que mudará a forma como cultivamos e comemos.

Numa outra escala, e paralelamente, emergirão os produtos “feios” que terão o seu momento. Veja-se o caso do projeto da cooperativa de consumo Fruta Feia, que se posiciona como “gente bonita come fruta feia”, e tem como objetivo colocar no mercado a parte da produção fruto-hortícola desperdiçada, o que faz com que os cozinheiros também possam usar os produtos indesejados ou imperfeitos, e com a sua habilidade e arte provem que têm valor nutricional, económico e local, para além da estética. Os novos modelos de fast food estão a surgir e os gigantes como a Shake Shackou e a Macdonalds começam a ter concorrentes como a Go Natural ou a Fuku, o que vai afectar um número substancial de pessoas que se alimentam de uma forma mais consciente. Vamos comer alimentos com mais proteínas magras, como por exemplo larvas de abelhas, que podem ser criadas para ajudar, em vez de prejudicar as populações de abelhas, e têm um sabor que cruza o bacon e os cogumelos chanterelle. Consumiremos cada vez mais alimentos probióticos como iogurte e chucrute e estamos a começar a ver bactérias adicionadas a alimentos como barras de doces e doces gelatinosas.

A forma de fermentação terá cada vez mais impacto na forma como comemos, pois os micróbios são vistos como mais do que “germes” e os cientistas estão a experimentar criar produtos com novas técnicas, sendo o território um factor de diferenciação, pois os aspetos microbióticos territoriais, permitem aproveitar os microrganismos exclusivos de um determinado ambiente que afectam os sabores e os aromas da comida fermentada com características regionais, daí a importância da protecção das denominações de origem dos produtos agroalimentares, como uma das formas de defesa do património regional.

Os bons hábitos alimentares começam em casa, e nas escolas, com apoio de projetos como o programa nutrimento, que fornece às escolas através do boletim semanal “Anote dicas nutritivas”, conselhos sobre os alimentos, por exemplo alimentos amigos dos nossos dentes e gengivas, referindo alimentos que se podem comer todos os dias, em alguns dias ou só em dias de festa. Mas, têm de ser os atores do sector agroalimentar a dar o mote e a ir ao encontro das necessidades e do bem-estar do mercado, melhorando o mundo. Não é preciso ir muito longe para encontramos bons exemplos, basta replicarmos em Portugal o que se faz em Espanha, onde 500 empresas e 20 associações ligadas à indústria da alimentação e bebidas, criaram um plano com 180 medidas concretas que têm como objectivo reduzir em 10% os níveis de açúcar, sal e gorduras em 3 500 produtos.
Por cá temos pelo menos que ser capazes de estabelecer metas rigorosas e quantificáveis rumo à disseminação de uma cultura de uma alimentação saudável. Já seria um excelente passo, atribuindo a responsabilidade de se praticar a verdade do marketing agroalimentar, a quem, efetivamente, a tem, beneficiando a escolha dos consumidores e premiando os produtores que respeitam a saúde dos consumidores que confiam nos seus produtos.

Docentes do IPAM

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