Separados ambos por mais ou menos quatro meses, a relação entre o Natal e a Páscoa é diferente da relação entre o 10 de Junho e o 5 de Outubro. No primeiro caso, conta-se uma história, independentemente de se acreditar nela; no segundo manifestamente não. Um problema com os feriados civis é que, por falta dessa história, dependem muito da memória que as pessoas têm dos acontecimentos a que se referem, e a que muitas vezes assistiram, e que por isso lembram com fervor característico.

As recordações das causas para a celebração de certos dias tendem a desaparecer com as pessoas para quem esses dias foram importantes. Alguns dias subsistem independentemente da sua causa: o duvidoso 10 de Junho deve o seu sucesso ao facto de ninguém se lembrar ao certo daquilo que aconteceu nesse dia, se é que aconteceu alguma coisa. O dia 1 de Dezembro começou também a sua carreira mais de duzentos anos depois do facto que comemorava. Mas o mais preciso 5 de Outubro dependeu sempre do estado de saúde dos que dele se lembravam, dos quais, por causas até certo ponto naturais, não resta hoje quase ninguém.

Acontece que, ao contrário da tosse convulsa e dos bens materiais, a memória não é transmissível. Podemos lembrar-nos daquilo que outros se lembraram: mas não nos lembramos porque esses pessoas quiseram que nos lembrássemos disso. Há uma espécie de fatuidade nervosa nas pessoas que querem que os outros se lembrem para sempre daquilo a que elas assistiram. Quando declaramos que uma data deve ser lembrada para sempre estamos por isso normalmente a exprimir o medo de a podermos vir a esquecer, e a dar voz à suspeita íntima de que as nossas memórias são falíveis e não podem ser herdadas. ‘25 de Abril sempre’ é parecido com ‘Nunca se esqueçam de pagar a conta da luz.’ Vale o que vale, mas só enquanto houver alguém que não se esqueça. A um cristão não ocorreria dizer ‘Natal sempre.’

Daqui se segue não um argumento contra feriados civis mas quando muito um argumento a favor da eutanásia dos feriados que dependem de haver pessoas que se lembrem directamente daquilo a que se referem. Do mesmo modo que gradualmente deixamos de celebrar o dia de anos de uma pessoa de quem gostávamos muito, e do mesmo modo que há-de morrer a última pessoa que se lembre do dia de anos de alguém que hoje celebramos, assim as efemérides históricas que dependem de testemunhos e de memórias acabam sempre por voltar ao calendário anónimo de onde saíram. Esse regresso ao anonimato é de resto a única forma de paz que a história pode proporcionar.