Então, no último dia, corro à papelaria de Ibrahim para comprar fita adesiva. Ele não sabe que é a última vez que nos veremos por muito tempo e não tenho ânimo para lhe dizer. Trocamos bons-dias. Peço o tabaco. Pago. É a última vez que te vejo Ibrahim, penso. Mas não digo nada.
Na rua, chove muito e não tenho chapéu de chuva. Na passadeira, à espera do sinal verde, vou ficando encharcada. É quando a senhora ao meu lado, que tem um grande chapéu, repara que me estou a molhar: “Não pára de chover, parece que estamos em Fevereiro”, diz-me, olhando para o meu cabelo molhado. “Não tem chapéu?” Dá-me o braço e diz “Venha comigo”. Hospitalidade na despedida. Pode um lugar acolher-nos no momento em que vamos embora, isto é, ser acolhedor na despedida, dizer-nos que somos bem-vindos, agora, que partimos? Sim.
Esperámos mais alguns segundos pelo sinal, de braço dado, protegidas da chuva. Consigo sentir o seu perfume. É a típica senhora do bairro da Lapa. Atravessámos a passadeira muito próximas uma da outra. Depois, na esquina em diante, despedimo-nos e fomos cada uma à nossa vida, eu e a senhora do chapéu.
Entro no café. É a última vez que aqui entrarei em muito tempo, penso. Vamos embora e os sítios continuam, não sou bem de parte nenhuma.
À procura de casa, damos com o apartamento de uma pessoa que morreu jovem, enquanto lá vivia. É o melhor negócio, mas não temos coragem de ir em frente, porque a casa parece-nos ter morrido com o rapaz que se matou enquanto nela vivia. Encontramos casas húmidas e frias, com quartos interiores. Casas com vistas para baldios e estaleiros de obras. Como é tão simples e tão difícil que uma pessoa seja um ser que apenas quer ser feliz. Nisso somos todos iguais.
Estou a despedir-me de uma casa e a dizer olá a outra. Costumava pensar que morre um pouco de nós em cada casa. Mas também fica lá o rebento do que foram os nossos desejos, dos sonhos que tínhamos quando nelas entrámos, do que nelas chorámos. Partimos. E o rebento fica fechado num esconderijo na casa velha, que vai ficando desfigurada. Como despedir-me dela? É a maravilha melancólica das casas arrendadas: porque se muda mais vezes de casa e se é apenas um inquilino entre vários. Encontramos na casa nova os sinais, dedadas, de quem veio antes, panos esquecidos para trás, uma colher, um saco, dois sabonetes, uma caixa de cartão, uma colecção de frascos de vidro, a tesoura de quem se foi embora.
Primeira manhã no bairro novo, onde já vivera muitos anos. Procuramos um café. Está tudo mudado e na mesma. Sentamo-nos e aparece uma vizinha desse outro tempo, de que me esquecera. Nesse outro tempo, pouco falávamos. Mas faz-nos uma festa. Apresenta-nos aos donos do café. Quer saber o que foi feito de nós. Era fácil pensar que a vizinha desaparecera quando dali desaparecemos. Mas não. Os lugares continuam apesar de nós. Ser bem recebidos por quem julgávamos ter-nos esquecido, quando ainda não nos sentimos em casa. Hospitalidade na despedida.
Bastam olhos caridosos. Para olhar para o que escrevo, para o que faço, para quem sou e ter paciência comigo. Quanto mais caridosos, mais caridosa sou com os outros. É uma boa receita contra a indignação. Deixar de ser implacável consigo mesmo para não ser implacável com ninguém.