Em recente entrevista (“o problema com Jon Stewart”), um antigo responsável pelo Tesouro americano, Larry Summers, explica na sua ótica, o problema da inflação: os triliões injectados pelo Governo na economia americana (em particular as ajudas durante a pandemia), criaram uma pressão da procura global sobre a oferta. Sem oferta suficiente para tal pressão, os preços aumentaram. Muito dinheiro a perseguir os serviços ou os bens nas prateleiras…“e a banheira transbordou”. Agora torna-se necessário, segundo a prescrição ortodoxa, subir as taxas de juro para moderar a procura agregada (o consumo, o investimento). Será também necessário evitar aumentos salariais que impliquem, por via do aumento de custos de produção, nova ronda de aumentos de preços, perpetuando o problema que tem, como principais vítimas, justamente as pessoas de menores rendimentos (acabam por ser, paradoxalmente, as principais vítimas das suas reivindicações).

Vale a pena dissecarmos este discurso clássico e simplista em vários pontos e, nos mesmos passos, perceber porque é que as discussões nos EUA, na UE ou em Portugal, parecem algo desencontradas. O primeiro ponto prende-se com as causas do aumento de preços do lado da oferta O segundo ponto prende-se com as causas do lado da procura. O terceiro ponto foca-se na receita clássica aplicada pelos Bancos Centrais: a subida das taxas de juro.

Vamos então às causas da inflação do lado da oferta.

Mesmo antes da pandemia, vale a pena recordar o anúncio de um ciclo de restrições no comércio internacional que criaram o primeiro solavanco na inflação. O protecionismo, ainda que que possa ser justificado por motivos de segurança interna ou práticas desleais, representa sempre menores índices de concorrência e consequentemente, maior pressão sobre os preços.

Depois, com a pandemia, gerou-se um enorme choque negativo na oferta. A capacidade de produção mundial foi severamente afetada pela impossibilidade de reunir trabalhadores, pela impossibilidade de transporte ou pela impossibilidade de contacto com os clientes nos pontos de venda. Alguns preços dispararam. A título de exemplo, o preço de um contentor de transporte entre Shangai e Los Angeles passou de 1.600 USD para mais de 20.000 USD num curto espaço de tempo e mesmo após a pandemia, os preços mantiveram-se acima dos 3.000 USD.

A Guerra na Ucrânia e as sanções sobre a Rússia geraram depois novo choque na oferta, dada a importância da região na produção mundial de fontes energéticas, cereais, rações ou fertilizantes.

Convém sublinhar que todos estes choques na oferta produziram entretanto, efeitos muito assimétricos nos mercados cambiais. A valorização do USD ajudou a conter o impacto inflacionista de tudo isto nos EUA. Na UE, o impacto sobre o Euro não terá sido muito relevante. No entanto, a depreciação cambial tornou-se a primeira causa da inflação em vários países sem moeda de uso internacional.

Chegados a este ponto, convém contudo, não reduzir a ótica de oferta à “explicação” da inflação por via da mera decomposição em diferentes aumentos de custos de produção (incluindo custos cambiais) vs margem de lucro, como fez Jon Stewart, ao sublinhar que os aumentos de preços nos EUA eram “explicados por aumentos salariais em 30% e por aumentos das margens de lucro em 40%”. É claro que quando a oferta se torna insuficiente para satisfazer a procura, o ajuste imediato será pela via do aumento dos preços. Se não tivesse existido, entretanto, qualquer aumento de custos de produção, o aumento de preços corresponderia apenas, por definição, a maiores margens de lucro. Mas como há variações na produção (menor ou maior diluição de custos fixos), como há variações cambiais, como há variações de custos energéticos ou de matérias primas e como o mercado de trabalho também se agita, estas margens, em situação de concorrência, acabam por ser “comidas” progressivamente pelos aumentos de custos. Por outras palavras, a existência de maiores margens de lucro, numa situação de efetiva concorrência, será apenas um sintoma temporário e não “uma explicação da inflação”. Seria, isso sim, uma explicação efetiva da inflação se de repente concluíssemos não existir concorrência nos mais variados sectores de atividade o que facilitaria a cristalização de tais margens.

Passemos então ao segundo ponto: a explicação da inflação por via da procura. Sabemos que durante todos estes anos a economia mundial não esteve particularmente sobreaquecida. A pandemia trouxe contudo, um duplo choque sobre a procura. Um primeiro choque, claramente negativo, resultante da perda de empregos/rendimentos, só em parte atenuado pelas ajudas estatais. Um segundo choque, paradoxalmente positivo, orientado para produtos como as seringas, as máscaras, análises clínicas, bicicletas, computadores portáteis ou habitações com espaço adicional para escritório,…. Não restam dúvidas que este segundo choque impactou de imediato nos preços dos respetivos bens e serviços. A inflação daí resultante era, de algum modo, inevitável. Já mais controversa parece ser a tese de que as ajudas estatais financiadas pela criação de moeda/dívida pública (subsídios de desemprego, pagamento de layoffs, senhas de alimentação, rendimentos de subsistência,…) terão causado a inflação. Tais ajudas não serviram para impulsionar a procura. Apenas serviram para impedir o seu colapso e uma situação humanitária intolerável. É claro que dada a fragilidade da oferta qualquer pressão da procura teria bastado para fazer subir os preços. Mas não foi “uma banheira que transbordou” por um fluxo irreprimível de fundos estatais que a encheram rapidamente. Estamos, ao invés, bem lembrados das queixas por “mais dinheiro, mais depressa” provenientes de todos os quadrantes políticos (a extrema esquerda fez o que já faz habitualmente perante muitos problemas, concentrando-se nas exigências de mais dinheiro; e a direita liberal, algo embaraçada, concentrou-se nas exigências de celeridade da ajuda estatal).

Convém apesar de tudo, lembrar que os fundos estatais não se dirigiram apenas a menorização dos impactos sobre a procura e oferta provocado pela pandemia. Estamos em contra relógio para lidar com as alterações demográficas, com as alterações climáticas e as novas necessidades de segurança à escala mundial, o que implica o dispêndio de fundos públicos que, naturalmente, acrescem à pressão sobre a oferta. Nesse ponto, a pressão não ajuda à estabilização dos preços, mas isso parece incontornável (e já vamos tarde).

Chegamos então ao terceiro ponto: a discussão de soluções para a inflação. Ninguém disputa a tese de que são as classes de menor rendimento quem mais sofre com a inflação e de que se trata de uma ameaça para a estabilidade política em todos os países. O problema não pode ficar sem respostas.

Para os países onde o impacto da depreciação cambial é a principal via de alimentação da espiral inflacionista, as dificuldades são muitíssimo maiores. A inflação gera desvalorizações cambiais e estas alimentam a inflação, num círculo vicioso infernal. Felizmente, Portugal conta com a proteção do Euro. A discussão do controle da inflação faz-se e, portanto, no âmbito da UE, de forma muito semelhante à discussão nos EUA. Mas aqui, o debate centra-se em demasia, no papel das taxas de juro. Por motivos que se prendem com a estabilidade económica e com a estabilidade do sector financeiro, as taxas de juro não deveriam ter descido, no passado, a níveis nulos ou mesmo negativos. A injeção de triliões de dólares ou Euros na economia por via da emissão de dívida ou mesmo por efetiva criação de moeda, não necessitava de ser acompanhada por uma queda (tão dramática) das taxas de juro. Por isso, parte da subida das taxas de juro que agora ocorreu já era devida há algum tempo e, no próximo ciclo económico, convém que tal não seja esquecido. Mas dito isto, também não se vê necessidade de subir as taxas de juro para níveis superiores aos que se encontram estabelecidos. Muito menos se vê necessidade de pagar taxas de juro acima da inflação. Porquê? As taxas de juro são apenas mais um preço (do dinheiro), entre milhares de outros preços (desde as ervilhas e cebolas aos telemóveis). De resto, trata-se de um preço que não conta para a taxa de inflação, ao contrário dos demais. Mas se contasse, faria subir diretamente o índice de preços. Ainda assim, faz subir indiretamente a inflação, na medida em que se trata de um custo para as empresas, tendo potencialmente (dependendo do grau e duração do endividamento) um efeito paralelo ao de qualquer outro aumento de custo dos inputs (energia, matérias primas, mão de obra…). A subida das taxas de juro tem também um impacto na moderação do consumo e do investimento com potenciais efeitos benéficos sobre a inflação? Claro que sim. Mas esse efeito também já é gerado pelo aumento dos outros milhares de preços. É mais fácil, nas entrevistas de rua, ouvir alguém a queixar-se do preço dos bens alimentares do que da prestação da casa. E sabemos que, por isso, a redução no consumo já começou para muitos. Quanto ao investimento, apesar de se tratar de uma componente da procura agregada e a subida das taxas de juro visar também a sua moderação, convém lembrar que o aumento da capacidade de produção de bens e serviços resultante do investimento seria um fator…moderador da inflação. Por isso, a subida das taxas de juro, ou tem efeitos contraproducentes sobre a inflação (são um custo para as empresas que estas tendem a repercutir nos preços e dificultam o investimento capaz de alargar a capacidade produtiva); ou em parte, “chovem no molhado” (efeito moderador sobre a procura, em paralelo com o efeito já causado pela subida do preço de outros milhares de bens e serviços).

Uma das características negativas do debate político é a total responsabilização dos Governos por tudo o que de mau ou de bom sucede na esfera económica. Na verdade, o mesmo se passa, por vezes, com a esfera de ação dos Bancos Centrais relativamente à inflação. O problema da inflação neste caso, não é uma mera questão de política monetária (longe disso). E os bons ou maus resultados no combate à inflação também não dependem nem devem ser totalmente imputados ao ritmo e ao nível da subida das taxas de juro como gostam de fazer muitos comentadores.

Os Governos ocidentais sabem que o sucesso no combate à inflação depende da reposição das condições de operacionalidade da oferta e de concorrência. Estão a procurar fazê-lo, dentro das condicionantes políticas vigentes.

Sabem ainda que numa economia de mercado, a fixação generalizada de preços ou de margens de lucro máximas (algo ainda mais difícil de definir em termos operacionais) termina com prateleiras vazias. A observação dos preços e das margens de lucro permitirá sinalizar eventuais irregularidades ou problemas de falta de competição neste ou naquele setor, mas nada mais virá deste lado.

Os Governos sabem também que a reposição total do poder de compra da generalidade dos cidadãos nunca poderá efetivar-se realmente, antes do processo inflacionário terminar (estabilização em níveis de inflação reduzidos). Optam por isso, por evitar cristalizar uma inflação elevada por via de constantes aumentos salariais (correr atrás da própria cauda nunca foi boa política), e favorecem a reposição total ou parcial do poder de compra dos mais desfavorecidos por via de subsídios.

Finalmente, os Governos deviam saber que a especulação desenvolvida nos mercados de Futuros de Mercadorias (quando não envolvem entrega física nem hedging), empola dramaticamente os efeitos que a mera evolução da oferta e procura física destes produtos teria no mercado. Quando, por exemplo, o preço do trigo se torna mais do que o preço de um bem alimentar para se tornar num veículo de especulação financeira percebe-se o conflito de interesses. Está na altura de abordar o tema.

Os dirigentes dos Bancos Centrais têm total independência para exercer os seus mandatos, o que não significa que não possam ser criticados pelos Governos pelas opções que tomam. Neste caso, as críticas dirigidas aos Bancos Centrais são merecidas. É a subida das taxas de juro que tem de terminar e não o plano de ajudas a quem sobrevive com pouco.