Cai neve no meu país (e em Nova Iorque, segundo José Cid), são encerradas as estradas para a Serra da Estrela. Como não adorar este clássico? A única altura em que faz sentido a Serra de Estrela funcionar como estância de inverno, é a única altura em que a Serra da Estrela não funciona de todo. É a versão outono/inverno do famoso Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, SIRESP: funciona tudo na perfeição, menos quando há emergências, nomeadamente com os fogos de verão.
É das idiossincrasias nacionais minhas preferidas, que por estes dias tiveram mais uma ocorrência, com a despedida de Mariana Mortágua da Assembleia da República. Tivemos 12 anos para desfrutar da permanência da ex-líder do Bloco de Esquerda no Parlamento e o único momento que realmente apreciámos foi o da sua saída. Pagamento de pensões e subsídios de Natal antecipado? Nada disso. O verdadeiro presente de Natal adiantado foi a despedida da representante do Hamas.
Presente de Natal adiantado ou, como ficou conhecida na junta de freguesia de Arroios, em Lisboa, esta saída de Mortágua do hemiciclo, crime de lesa Palestina. Sim, que esta é a tal liderança de freguesia marxista-animalesca PS-BE-Livre-PAN que não quis por lá nenhum Mercado de Natal: organizaram o Mercado Comunitário de Inverno e já foi bem bom. Já bem óptimo, aliás. Digam-me outros munícipes que, não sendo liderados Robert Zemeckis, tenham sido presenteados com uma viagem no tempo. Está certo que o destino escolhido pela junta de Arroios foi Pripyat, norte da Ucrânia, em abril de 1986, mas houve ou não inédita viagem no tempo? (Porquê Pripyat? Foi o resultado da minha pergunta à IA: “Qual a cidade mais deprimente na esfera de influência da ex-URSS?” Saiu a povoação mais próxima de Chernobyl).
Agora, se achavam, como eu e o insuspeito Ary dos Santos, que o “Natal é quando um homem quiser”, esqueçam. Agora só é Natal se políticos portugueses reais considerarem haver zero chances de hipotéticos imigrantes não cristãos desaprovarem a ancestral festividade. E mesmo nesse caso, o melhor é não arriscar, não vá haver um zeloso Garcia Pereira a processar retroactivamente o estado português por micro-agressão natalícia a um indivíduo que chegou anteontem do Paquistão, vá, para darmos descanso ao Bangladesh.
Só não sei se seria fácil ao eventual Garcia Pereira provar que o tal imigrante paquistanês estava em território nacional no Natal por forma a ser micro-agredido. Isto porque, pelo menos na Suécia, cerca de 80% dos imigrantes já foram de férias aos seus países de origem. Por cá, não sabemos quantos imigrantes já terão visitado os seus países. É difícil saber, convenhamos, uma vez que nem sabemos quantos imigrantes estão cá, na verdade. A única coisa que sabemos, e isso com toda a certeza e exactidão até porque é o Expresso que nos diz, é que de janeiro a 17 de outubro deste ano (nem 16, nem 18. 17), os imigrantes contribuíram com mais de 3,1 mil milhões de euros para a Segurança Social, o quíntuplo do que recebem.
O que significa que, ainda de acordo com o Expresso e com o buraco na almofada das pensões de 359,9 milhões de euros, e assumindo que temos já 1,5 milhões de imigrantes (e que eu fiz bem as contas), estaremos a escassos 217.725,35 imigrantes de resolvermos esta questão de vez. É mandar vir mais uma Loures do Bangladesh (não tem mesmo descanso, o Bangladesh) e está resolvido o problema da almofada. Pelo menos o problema do enchimento da almofada, que a fronha, tendo em conta que esta conversa dura há anos, tem baba que só lá vai com uma lavagem a 120º.
Quem pode ser a solução de tudo isto é o(a) futuro(a) Presidente da República. É só escolher de entre o candidato oficial do partido que nos brindou com José Sócrates — António José Seguro —, um dos três candidatos que acham que José Sócrates ficou aquém no que ao controle da economia pelo Estado diz respeito — Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto —, o candidato cujo papel de facilitador de negócios com o Estado nos trouxe à memória José Sócrates — Marques Mendes —, o candidato que votou em José Sócrates — André Ventura —, o candidato que despediu Manuela Moura Guedes para alegadamente fazer um favor a José Sócrates — Cotrim de Figueiredo —, ou o candidato que recebeu o apoio explícito de José Sócrates — Gouveia e Melo.
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