1 A separação entre o Estado e a religião continua a ser um dos pilares essenciais da civilização ocidental. Não é apenas um princípio jurídico: é uma conquista histórica que protege a liberdade individual, limita o poder arbitrário e impede que a fé seja usada como instrumento de dominação política. O regime teocrático dos Aiatolas representa exactamente o contrário desse ideal. A fusão entre autoridade religiosa e controlo estatal elimina qualquer espaço para dissidência, pluralismo ou direitos fundamentais. E a história demonstra que os regimes teocráticos são muito mais impiedosos e menos misericordiosos para com a sua própria população.

Nos últimos meses, esta realidade tornou‑se ainda mais evidente. As manifestações que eclodiram no final de 2025 e se intensificaram no início de 2026 constituem a maior vaga de protestos em décadas. A resposta do regime foi imediata: cortes totais de internet, repressão violenta e um discurso oficial que descreve os manifestantes como agentes estrangeiros ou “sabotadores” – uma narrativa repetida por Ali Khamenei para justificar o uso de força letal contra civis.

2 Perante a dimensão dos protestos, Ali Khamenei adoptou um discurso de confronto. Em declarações públicas, acusou os manifestantes de serem manipulados por potências estrangeiras e afirmou que a República Islâmica “não recuará” perante a contestação. Numa intervenção transmitida pela televisão estatal, Khamenei afirmou que o regime foi construído “com o sangue de centenas de milhares de pessoas honradas” e que não cederia perante aquilo que descreveu como “forças apoiadas pelo exterior”.

A relação do regime iraniano com a sua população é moldada, antes de mais, por uma lógica de autopreservação. A prioridade central não é a defesa da religião enquanto missão moral, mas a manutenção de um sistema de poder dominado por uma elite securitária, em particular a Guarda Revolucionária (IRGC), que controla os principais instrumentos de coerção, influência económica e intervenção política. Neste contexto, a repressão funciona como um mecanismo estratégico de gestão de risco: é aplicada de forma calculada, calibrada e selectiva, com o objectivo de dissuadir a contestação, impedir que tensões sociais se transformem em ameaças existenciais e preservar a coesão interna do aparelho estatal. A violência não é arbitrária nem movida por fervor ideológico; é uma ferramenta funcional ao serviço da estabilidade do regime.

A ideologia revolucionária e a retórica religiosa continuam presentes no discurso oficial. Contudo, actuam sobretudo como instrumentos de legitimação e mobilização simbólica, servindo para enquadrar a repressão como defesa da nação, da fé ou da ordem revolucionária, dando-lhe uma aparência de inevitabilidade moral. Mas não tenham ilusões. O motor real da acção estatal é o cálculo estratégico, não a doutrina. A elite no poder beneficia directamente de um ambiente de tensão externa, do isolamento internacional e das economias paralelas geradas pelas sanções, que reforçam os seus privilégios e a sua autonomia face às instituições civis. Um Irão mais aberto, menos repressivo e mais integrado no sistema internacional ameaçaria esses interesses materiais.

Apesar da aparência de solidez, o regime enfrenta fragilidades estruturais. O desgaste económico prolongado, a erosão da legitimidade entre as gerações mais jovens, as rivalidades internas entre facções e a incerteza em torno da sucessão do Líder Supremo evidenciam-no. Ora, estas fissuras tornam a repressão ainda mais central para a manutenção do sistema, funcionando como um amortecedor político que impede que tensões internas se transformem em crises de regime.

Resumindo, a repressão no Irão não deve ser entendida como uma cruzada religiosa ou como expressão de um impulso ideológico puro, mas como uma forma de engenharia política orientada para garantir a sobrevivência e a estabilidade de uma elite securitária no curto e médio prazo. A ideologia fornece a moldura simbólica; o cálculo estratégico determina a prática.

3 Khamenei dirigiu também palavras ao Presidente dos Estados Unidos afirmando que este “cairá como outros tiranos da história”, numa tentativa de transformar a contestação interna numa narrativa de resistência contra inimigos externos. A estratégia de culpabilizar o exterior para deslegitimar a revolta interna é antiga e revela a fragilidade de um regime que já não consegue convencer grande parte da sua população. Não obstante, serve os propósitos mais imediatos.

Donald Trump reagiu de forma contundente declarando que o Irão estava “em grandes apuros” e avisou que poderia ordenar acções militares caso a repressão continuasse. Trump afirmou ainda que os Estados Unidos poderiam apoiar os manifestantes, sublinhando que várias cidades iranianas estavam a escapar ao controlo do regime, algo que “ninguém julgava possível semanas antes”.

Estas declarações aumentaram a tensão diplomática. Khamenei acusou Trump de ter “sangue iraniano nas mãos”, reforçando a narrativa de ingerência externa e tentando transformar a revolta popular num confronto geopolítico para desviar a atenção da crise interna.

A política dos EUA em relação ao Irão tem assentado em cálculos estratégicos e não em princípios morais. Washington procura tornar o Irão previsível, persuasível e limitado, impedindo que adquira armas nucleares, que utilize milícias aliadas para projectar poder regional e que ameace o Estreito de Ormuz. Para já, o objectivo não é mudança de regime, mas constrangimento estratégico.

No curto prazo, o cenário mais provável é uma escalada limitada, seguida de negociações indirectas. A mobilização militar americana funciona como instrumento de dissuasão para forçar concessões sem entrar em guerra aberta. Mas o momento não deixa de ser perigoso porque a dinâmica internacional depende tanto de percepções e mal-entendidos quanto de intenções racionais. Como tal, não admira haja cálculos dos riscos. Mortes de militares americanos atribuídas ao Irão ou uma ameaça séria ao Estreito de Ormuz poderiam desencadear retaliações que empurrariam ambos os lados para um conflito mais amplo, envolvendo Israel e terminando, inevitavelmente, em negociações sob condições desfavoráveis para Teerão.

4 O povo iraniano é a expressão da coragem perante a escuridão. O governo iraniano já demonstrou que o bem‑estar da população não figura entre as suas prioridades. A repressão é justificada com argumentos de natureza religiosa, mas na prática serve apenas para legitimar o uso de armas de guerra contra pessoas desarmadas. A religião, neste contexto, não é uma expressão espiritual: é um instrumento político para perpetuar o medo e silenciar qualquer contestação.

As estimativas de mortos variam entre 30 e 36 mil, segundo organizações internacionais e meios de comunicação, tornando esta repressão uma das mais sangrentas da história recente do Irão. E a violência e a crueldade não se limita às ruas: há relatos de detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e restrições impostas às famílias que tentam recuperar os corpos dos seus entes queridos. Os funerais – momentos de luto e humanidade – foram proibidos por receio de que se transformem em manifestações contra o regime. Até na morte, o Estado procura controlar a narrativa e impedir que a memória das vítimas se converta em resistência.

Este é o retrato de um poder que se sustenta não na legitimidade, mas na força; não na fé, mas na manipulação; não no respeito pelos cidadãos, mas no seu sacrifício.

A cada dia que passa, a persistência do povo iraniano na luta pela liberdade e pelo fim de um regime teocrático que oprime a população, e as mulheres em particular, torna-se ainda mais admirável. Apesar dos cortes sistemáticos de energia, da interrupção das comunicações móveis e do acesso à internet, bem como da repressão violenta exercida pelas autoridades, a vontade de mudança não esmorece. Pelo contrário, parece ganhar força precisamente perante a adversidade, como se cada obstáculo imposto reforçasse a convicção de que a liberdade é um direito inegociável.

Há uma profunda coragem em continuar a resistir quando tudo à volta tenta silenciar, isolar e intimidar. Manifestar-se, protestar e exigir direitos básicos num contexto de risco permanente é um acto de enorme dignidade humana. No caso das mulheres, essa luta assume um significado ainda mais poderoso, pois representa não apenas a reivindicação de liberdade individual, mas também a recusa de um sistema que controla os seus corpos, as suas escolhas e as suas vozes.

5 A resistência do povo iraniano recorda‑nos que a busca por um futuro melhor com dignidade e em liberdade é uma das forças mais poderosas da história humana. A repressão brutal, a manipulação religiosa e a violência de Estado não conseguiram – e não conseguirão – apagar o desejo de liberdade, nem o apelo da democracia.

É por isso que se torna imperioso apoiar, de forma clara e inequívoca, a população iraniana na sua luta por dignidade, justiça e liberdade.