1 Surpresa pelo plano apresentado pelos Estados Unidos e Israel, alívio ao ouvir Trump e Netanyahu juntos a evocar uma real possibilidade de paz; altíssima consideração face a um plano que, não se conhecendo ainda com minúcia e detalhe, abriu a porta de um quarto escuríssimo de horrores que parecia fechado para sempre e deixou entrar ar, luz e gente.
Estamos diante de uma grande, grande diplomacia, de diálogos que pareciam “impossíveis”, do trabalho exaustivo que foi preciso fazer – mas fez-se! E quanta “não desistência” junto de países norte americanos, europeus, árabes e muçulmanos que Trump quis aliás – e bem – nomear. Um plano cuja conceptualidade política tanto nos surpreende como vivamente o recomenda. Vai demorar, claro, mas agora há um forte compromisso político de altos responsáveis de pátrias muito distintas, e eis o ponto: conseguiram. Muita gente estará de parabéns (tomei boa nota de Blair e de Kuchner, genro do Presidente norte americano). Talvez chegue mesmo a bom porto e não a mais um estéril intervalo entre a impossibilidade da vida e a morte como certeza.
2 Em nome do que acima escrevi, e na esperança que estejamos a beira de entrar noutra “estação” política , deixo uma brevíssima revisão desta matéria. Faço-o por temer que seja esquecido o modo como essa matéria tem sido contada até hoje, aqui e fora de portas, com a culpa sempre colocada apenas em Israel.
3 Quando um destes (inquietos) dias ouvi Emmanuel Macron anunciar ao mundo o reconhecimento da Palestina por alguns países e neles incluindo Portugal, o choque foi duplo: incredibilidade revestida de indignação. Porquê o gesto, porquê agora, porquê sermos informados por um presidente estrangeiro de uma decisão desta envergadura?
E quando mais tarde em lugar de ouvirmos o Primeiro Ministro, foi o titular dos Negócios Estrangeiros quem se encarregou do tema perante um país atento a mais fundados argumentos, o quadro ficou mais sombrio.
Eram más notícias, péssimas notícias.
4 Voltando atrás no tempo: logo após a chacina cometida em Israel pelo Hamas no dia 7 de Outubro de 2023, percebeu-se tudo. Foi uma questão de horas: no dia 8, ainda não tinham passado vinte e quatro horas sobre o massacre, as ruas de algumas grandes cidades europeias estavam repletas de manifestantes a favor da Palestina (nunca cuidando de saber que Palestina vitoriavam e onde se situava).
Mas que importância? Ia-se agilizando o guião: negar e recusar sempre que a atitude de Israel no dia 8 de Outubro tenha sido a resposta à brutalidade terrorista ocorrida na véspera; conceder o máximo de palco, eco e espaço mediático ao Hamas no seu combate contra Israel; até chegar – fosse a que preço fosse – à sua própria extinção.
(Apetecia aliás perguntar aos autores de relatórios da ONU se havia “presença” israelita no dia 7 de Outubro, de 2023, numa faixa de Gaza exclusivamente comandada pelo seu “proprietário”, Hamas. Não havia pois não?)
A partir daí a parada anti Israelita foi subindo de tom e de mentira, com o Ocidente aparentemente capturado pela mais meticulosa e indecente acção de propaganda de que tenho memória recente. Os amplificadores de som logo em Outubro de 23, começaram a propagar a falta de tudo em Gaza (medicamentos, bens, comida, auxílios) enquanto se mostravam imagens já nessa altura fundidas entre a verdade e a mentira, disponibilizadas por amáveis televisões. Era preciso tecer a teia da propaganda com fios fortes, comover os povos, atordoar os líderes mundiais. Deslocando o eixo do mundo para uma narrativa inteiramente falsa.
5 Ficou feito, mereceu prémio, obteve recompensa: o reconhecimento de um fictício Estado Palestiniano foi oficialmente aceite por um ramalhete de países de peso indiscutível; o Hamas ficou em glória, a ONU – instituição já sem prazo de validade – aplaudiu, a media congratulou-se, e (previsivelmente) o Médio Oriente ficou ainda mais ferozmente dividido.
Dois factos me pareceram terríveis: os estrago de uma brutal campanha de propaganda sobre um fragilíssimo Ocidente levando-o a quase se demitir de si mesmo; e a desastrada e desastrosa encenação de um “Estado” palestiniano. Sucede porém que as persecutórias incursões militares de Netanyahu em Gaza, o seu desnorteio disruptivo; as feridas mortais que abriu (que porém não se confundem com um genocídio), e a tensão impaciente com que os seus aliados de sempre olhavam para Netanyahu, legitimavam-me uma pergunta: naquele beco sem saída onde Israel se excedia, quem continuaria a defender o Estado Israelita na carta do mundo e uma nação cada vez mais só? Quem se disponibilizava a defender o “culpado”? Eram cada vez menos e cada vez mais relutantes. Evocar-me-ão os Estados Unidos. Sim e é dizer muito e a partir de agora será quase tudo, conforme o que acima escrevi. (hoje trata se apenas de uma revisão da matéria.)
Netanyahu excedeu-se mas qualquer sucessor do Premier israelita continuará o combate, com a mesmíssima implacável determinação. Mesmo que um dia uma nova liderança altere estratégias, ou modifique opções, a natureza do que está em causa em Israel, dispensará sempre a sombra de qualquer hesitação: trata-se da sobrevivência do Estado de Israel.
6 Com uma habilidade feita de ódio foi-se tecendo uma solidíssima teia de propaganda e manipulação:
- há hoje muito mundo que de tão manipulado acredita que a guerra em Gaza foi oficialmente provocada e mantida por Israel, chegando o poder israelita ao extremo de usar a arma da fome contra o povo palestino;
- de uma forma muito geral não “se” acredita que uma enorme parte dos milhares de palestinianos habitantes de Gaza, são – tal como os reféns – permanentemente ameaçados, mal tratados e chantageados pelo mesmíssimo Hamas.
- Hoje só não sabe quem não quer que o Hamas interdita ao seu povo em fuga as saídas de Gaza, abertas pelo exército israelita; desvia a ajuda alimentar para outros destinos, nunca filmados pelas televisões; usa civis como escudos humanos, nunca fotografados.
São apenas alguns exemplos do outro lado de uma narrativa universalmente muito bem sucedida.
7 Não sei quem mais irá reconhecer o Estado Palestiniano, muita coisa irá mudar. Mas assim como se sabe que não há Estado e que a Autoridade da Palestina nem tem autoridade, nem sede, nem governo, nem interlocutores, sabe-se, isso sim, que existem – e são claras – as condições impostas para a efectiva concretização do reconhecimento (libertação dos reféns, desmilitarização de Gaza, afastamento do Hamas do chão de Gaza e de um futuro processo eleitoral). Não consta porém que nenhuma delas esteja ou estivesse sequer a caminho de ser cumprida.
E também não consta que a ninguém incomode o facto de a Autoridade da Palestina não possuir, não exibir, nem usar qualquer espécie de autoridade de que o exemplo maior foram estes dois anos: alguém ouviu a Autoridade Palestiniana evocar, recordar, lamentar os reféns e a sua miserável condição? Mahmoud Abbas interessou-se pelo seu destino, propôs algum dia algo de concreto para a sua libertação?
E alguém notou preocupação ou aflição em Abbas sobre o regime de chantagem e pavor exercido pelo terrorismo do Hamas sobre muitos palestinos de Gaza?
8 O volume da propaganda do Hamas (ou deveria dizer o “sucesso” da sua propaganda?) e uma encenação manipuladora conseguiu um feito quase histórico: não só intoxicou países e povos, como os terroristas do Hamas são o lado solar e vitorioso de uma tragédia sem nome, nem medida, começada por eles, no dia 7 de Outubro de 2023. E Israel o (exclusivo) criminoso mortífero a quem ocorreu matar palestinianos pela fome.
9 E agora Hamas?