Todos querem leituras nacionais, e sem dúvida que há sempre leituras nacionais das eleições autárquicas, mas não podemos explicar o que se passou este domingo sem reconhecermos que se há indiscutivelmente ilações políticas a tirar, é indiscutível que foi muito localmente que tudo ou quase tudo se decidiu. E decidiu muitas vezes, ou mesmo quase sempre, por diferenças de qualidade dos candidatos.

Por isso, antes de ir a algumas leituras incontornáveis, deixem-me chamar a atenção para alguns resultados que só se explicam por factores eminentemente locais – e nem preciso citar o inevitável Isaltino Morais que, em Oeiras, bateu todos os recordes de votação.

Quem imaginaria, por exemplo, que o PSD perdesse Viseu para o PS mas, em contrapartida, conquistasse Beja? Como explicar a reviravolta em Gaia senão pela personalidade de Luís Filipe Menezes? E que dizer do resultado esmagador de Santana Lopes na Figueira da Foz? Ou do número significativo de presidentes eleitos em listas de independentes?

Mais: quando olhamos para os resultados bem modestos do Chega não é possível deixar de constatar que as vitórias que obteve – com destaque para a de Albufeira – se devem em grande parte a ter apresentado nesses municípios candidatos mais sólidos do que nas dezenas de outros concelhos onde foi o partido mais votado nas legislativas e podia, em princípio, esperar ganhar.

Há uma velha máxima na política segundo a qual toda a política é local, e é local no sentido em que políticos que não sejam capazes de se ligar directamente aos eleitores, sobretudo de se identificar com problemas concretos dos eleitores, dificilmente algum dia terão sucesso. Isso também permite perceber porque é que o Chega ficou muito aquém das expectativas: primeiro, porque não se constroem candidaturas fortes colocando apenas André Ventura nos cartazes, ao lado de candidatos que raramente tinham uma agenda local; depois, porque o voto “zangado” tem, apesar de tudo, mais razões de zanga a nível nacional do que a nível local.

Mas não nos enganemos: o Chega ficou bastante aquém das expectativas, a começar pelas expectativas sempre grandiloquentes do seu líder, mas um partido novo, para mais com as características do Chega, dificilmente conseguiria construir de um dia para o outro uma forte base autárquica. Nisso Ventura tem razão: é um caminho que está a fazer, um caminho que nenhum partido para além dos partidos fundadores da democracia (PS, PSD, PCP e CDS) conseguiram até hoje fazer. O Chega não deitou foguetes, os seus adversários também não deviam festejar, como alguns fizeram na noite de domingo.

Em contrapartida a evolução do PCP é uma espécie de reverso da medalha do Chega: eleição após eleição que os comunistas têm visto minguar uma base autárquica que começaram a construir ainda no PREC, antes das primeiras eleições democráticas, que consolidaram nos dez anos que se seguiram, mas que depois se foi desfazendo pouco a pouco, apesar de muitos dos seus candidatos beneficiarem da vantagem dos incumbentes e de terem bom nome localmente. O que aconteceu aos comunistas ontem foi mais um desastre, e não pequeno: perderam as duas capitais de distrito que ainda governavam, Setúbal e Évora, sendo que nesta última cidade sofreram a humilhação de ficarem em terceiro lugar, atrás do PS e do PSD, apesar de terem apresentado um candidato forte, João Oliveira.

Com metade da votação a nível nacional do Chega, o PCP perdeu um terço das câmaras que governava (manteve apenas 12 das 19 suas presidências municipais), o que levou muitos a comentar que, apesar de tudo, o que ainda deu alguma alegria ao partido foi a votação de João Ferreira em Lisboa.

Restam, por fim, os dois maiores partidos, sendo que é indiscutível que o PSD ganhou as eleições e que os socialistas perderam, mesmo tendo saboreado algumas pequenas vitórias.

Os sociais-democratas ganharam nas duas câmaras mais importantes do país, com Moedas a reforçar a votação em Lisboa e Pedro Duarte a suceder a Moreira no Porto; o PSD vai governar os cinco concelhos mais populosos do país (por ordem, Lisboa, Sintra, Gaia, Porto e Cascais) e sete dos dez mais populosos (considerando Braga e Oeiras, este último por ter apoiado Isaltino); o PSD volta a ser o partido com mais presidentes de câmara, o que lhe permitirá regressar à liderança da Associação Nacional de Municípios; por fim os sociais-democratas, mesmo tendo perdido câmaras importantes e emblemáticas, como Viseu e Coimbra, conquistaram outras muito significativas, como Guimarães e Beja.

Mais do que isso: estes avanços eleitorais do PSD acontecem numa altura em que o Chega está a crescer, discutindo-se até que ponto poderia comprometer alguns resultados, como as vitórias em Sintra ou em Setúbal, para não falar também de Lisboa e do Porto.

Já os socialistas continuam a ser um grande partido autárquico e não se esperava outra coisa (apesar daquilo que sugeriu o seu líder na reacção aos resultados eleitorais). Não alcançou nenhum dos seus principais objectivos – as grandes cidades, a presidência da ANMP – mas ainda assim saboreou algumas vitórias com algum significado, por acontecerem em capitais de distrito (Bragança, Viseu, Coimbra, Évora e Faro), o que amenizou uma noite com sabor mais amargo do que agridoce, como a tentaram apresentar os seus líderes.

Não devem contudo iludir-se os socialistas, e já agora também os sociais-democratas. É verdade que, como disse José Luís Carneiro, o PS vai continuar à frente de um número muito significativo de câmaras, ainda mais significativo se compararmos com as que o Chega obteve, mas isso não significa que o partido (e o PSD em menor grau) não possa estar a viver uma erosão de certa forma irreversível. Vale a pena ver, por exemplo, o que se passou em países como a França, onde os velhos partidos, gaulistas e socialistas, conseguiram conservar muitas das suas bases locais e regionais mesmo quase desaparecendo quando olhamos para a Assembleia Nacional francesa. Em contrapartida nunca a União Nacional da senhora Le Pen, nem os macronistas, lograram construir uma forte base local. Significa isso que os velhos partidos tenham fugido a um desgaste irreversível? Não aconteceu e não se prevê que possa acontecer.

De resto, como genericamente se previa, estas autárquicas não provocaram qualquer sobressalto nas lideranças partidárias (apesar de pelo menos uma ter ficado em maus lençóis – Mariana Mortágua – mas isso são contas de outro rosário). O que também é coerente com a máxima de que toda a política é local, mesmo quando só temos olhos de Lisboa para ver o resto do país.