Em 1980, Arthur Seldon, uma das principais figuras na difusão de ideias liberais no Reino Unido no Séc. XX através do seu trabalho no Institute of Economic Affairs, fez três previsões arriscadas:  “China will go capitalist. Soviet Russia will not survive the century. Labour as we know it will never rule again.”. Com a terceira previsão, Seldon pretendia vincar que o clima intelectual havia mudado de tal forma no Reino Unido que só um novo Partido Trabalhista poderia aspirar a voltar a governar. As décadas seguintes – e em especial a profunda reconversão  do Labour sob a liderança de Tony Blair – pareciam dar razão a Seldon.

A avaliação da sustentabilidade da previsão de Seldon podia no entanto ter mudado com as eleições desta semana no Reino Unido. De facto, sob a liderança de Ed Miliband o Partido Trabalhista atingiu patamares de radicalização que já não se viam desde há quase meio século. O discurso frontalmente “anti-austeridade” e as propostas igualitaristas e demagógicas de Miliband valeram-lhe inclusivamente a designação de “Red Ed”. Ameaçando a previsão de Seldon, até ao dia 7 de Maio a possibilidade de David Cameron ser derrotado pelo Red Ed parecia bem real, embora o Partido Trabalhista nunca tenha descolado nas sondagens.

Neste contexto a exit poll que apontava para a vitória dos conservadores, ainda que a alguma distância de uma maioria, caiu como uma bomba. Muitos apressaram-se a garantir que só podia estar errada. E a verdade, como se confirmou depois de contados os votos, é que estava mesmo errada, mas em sentido contrário, já que o Partido Conservador não só ganhou como garantiu uma maioria absoluta. O choque foi tão grande que alguns dos  principais jornais portugueses optaram por quase ignorar a notícia, certamente para poupar os seus leitores.

Além de proporcionarem uma vitória com maioria absoluta do Partido Conservador e uma derrota clara do Partido Trabalhista, as eleições arrasaram o Partido Liberal-Democrata. Curiosamente, apesar de ter feito parte da coligação de governo, os liberais-democratas foram sempre cépticos e reticentes relativamente à contenção da despesa pública, distanciando-se sempre que possível da “austeridade” dos conservadores. O resultado não foi famoso: redução de 23% para menos de 8% dos votos a nível nacional e perda de 49 dos 57 lugares que o Partido Liberal-Democrata tinha no Parlamento.

Outro dos grandes derrotados da noite foi uma das figuras mais destacadas da extrema-esquerda britânica e europeia: George Galloway, que perdeu o seu lugar em Bradford. Galloway, cuja retórica inflamada só encontra paralelo na repugnância da sua mensagem, manteve-se fiel ao seu estilo e, na hora de reconhecer a derrota, achou por bem culpar os racistas e os sionistas pela sua derrota.

Por último, também o United Kingdom Independence Party foi incapaz de atingir os objectivos traçados em termos de representação parlamentar. Apesar de ter sido o partido que mais subiu em apoio eleitoral a nível nacional relativamente às últimas eleições parlamentares (de 3% para mais de 12%) o UKIP elegeu apenas um deputado sendo inclusivamente incapaz de fazer eleger o seu líder Nigel Farage. A estratégia do Partido Conservador para conter o seu crescimento foi assim bem sucedida, ainda que os quase 4 milhões de votos no UKIP não possam ser ignorados e aumentem a pressão para que o Reino Unido adopte uma posição mais dura relativamente à União Europeia.

A esse propósito, vale a pena referir que Daniel Hannan, eurodeputado e uma das mais influentes figuras da actualidade no Partido Conservador, estará em Portugal em Junho para participar no Estoril Political Forum no que será uma excelente oportunidade para contrastar o seu discurso e argumentação com as posições socialistas e social-democratas dominantes em Portugal.

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa