É ainda cedo para fazer um juízo histórico sobre o anterior pontificado, mas já se podem alinhavar algumas conclusões sobre o legado de Francisco. Pelas suas características muito peculiares, o anterior Papa suscitou grandes paixões, mas também algumas incompreensões e, por isso, não é fácil ser imparcial em relação ao seu ministério petrino que, como geralmente acontece, teve luzes e sombras.

Leão XIV não pode ignorar o magistério do seu imediato antecessor. Tal como Francisco foi disruptivo em relação a Bento XVI e a São João Paulo II, nomeadamente no que respeita à liturgia e aos ‘recasados’, respectivamente, o actual Papa pode divergir do magistério pontifício do seu antecessor, ou manter as suas linhas programáticas. É significativo que o sucessor de Francisco se tenha querido chamar Leão, tenha pretendido regressar ao apartamento pontifício e tenha também retomado as vestes papais, mas é provável que as suas reformas não se fiquem por aspectos tão secundários.

1. Francisco, o Papa das surpresas. A eleição papal do Cardeal Jorge Mário Bergoglio foi uma surpresa, não só porque se tratava do primeiro Papa sul-americano e jesuíta, mas também, em quinhentos anos, o primeiro Bispo de Roma a suceder a um Papa ainda vivo, mas que renunciara ao supremo ministério eclesial. Foi original a sua opção por viver na Casa de Santa Marta, não usar um carro oficial topo de gama, nem ter um secretário pessoal. Também não usou a residência de verão dos Papas, em Castelgandolfo, nem fez férias, apesar da sua idade avançada e escassa saúde.

2. A alegria do Evangelho. A escolha do nome Francisco, em memória do santo de Assis, foi um primeiro sinal de que queria uma Igreja pobre e para os pobres. A estes desfavorecidos acrescentou os refugiados e os imigrantes, destinatários preferenciais do seu zelo pastoral. Inaugurou, com a sua primeira encíclica, um estilo muito próprio de exercício da potestade petrina: mais pastoral do que doutrinal, mais pessoal do que colegial, mais evangélico do que clerical. A abertura a ‘todos, todos, todos’ viu-se contrariada pela epidemia do covid, em que a Igreja se viu impedida, pelas autoridades civis e eclesiais, de realizar a sua missão. A imagem do Papa Francisco só, numa Praça de São Pedro deserta, é um ícone inesquecível desse tempo difícil.

3. A devoção mariana e a São José. No âmbito mais espiritual, ou devocional, o anterior pontificado ficou marcado por duas notas muito positivas: a especial devoção de Francisco a São José, cujo nome introduziu nas orações eucarísticas em que não constava explicitamente; e a sua especial ternura por Nossa Senhora, tendo acrescentado três novas invocações marianas à ladainha lauretana e escolhido a romana Basílica patriarcal de Santa Maria Maior, onde jaz, para sua última morada.

4. Defesa da vida. Apesar de algumas ambiguidades de o magistério doutrinal de Francisco, a sua defesa da vida humana desde a concepção e até à morte natural foi de uma grande coragem e clareza, sem medo de enfrentar a mentalidade politicamente correcta, que tende a ver o aborto como um direito da mulher. Na sua viagem pastoral à Bélgica, Francisco quis incluir uma simples, mas muito significativa, homenagem ao Rei Balduíno, que provocou um protesto formal das autoridades belgas.

5. Pedofilia e abusos na Igreja. No esteio dos dois pontificados anteriores, Francisco prosseguiu a luta contra a pedofilia na Igreja católica, sobretudo pondo em primeiro lugar as vítimas e promovendo a sanção dos culpados, nomeadamente por via da sua demissão do estado clerical, como aconteceu com McCarrick, um cardeal norte-americano que foi reduzido ao estado laical. Não obstante as gravíssimas acusações que sobre ele pendiam, favoreceu, talvez por ambos terem sido jesuítas, a impunidade do Padre Rupnik, que só no actual pontificado começou a ser julgado.

Se estas são algumas das principais características da herança do Papa Francisco, outros tantos são os desafios a que o seu sucessor, Leão XIV, deverá dar resposta. A saber:

1. Unidade na diversidade. O lema do actual Papa – “In illo uno, unum”, ou seja, “nele, que é um, somos um” – sublinha a necessidade de fomentar a unidade da Igreja, por via do fortalecimento da comunhão eclesial. A Igreja católica define-se como sendo una, e o sucessor de Pedro é o garante dessa unidade que, contudo, não é uniformidade eclesial: desde os tempos apostólicos, a comunidade dos crentes reconhece muitas formas legítimas de espiritualidade e de apostolado.

2. Colegialidade e sinodalidade. O Bispo de Roma governa a Igreja universal em comunhão com o colégio episcopal. Para esse efeito, deve convocar consistórios, em que participam os cardeais; concílios e sínodos, em que têm assento os bispos. Assembleias de bispos, sacerdotes, religiosos e leigos são legítimas, mas não são expressão da colegialidade episcopal. A Igreja católica é hierárquica e não democrática, nem popular.

3. Abertura pastoral sem cedência doutrinal. É salutar o chamamento a “todos,todos, todos”, mas uma maior abrangência pastoral não pode implicar a falsificação da identidade cristã. Todos são chamados, mas nem todos são escolhidos. A Igreja a todos convida, mas só são fiéis os que crêem e estão dispostos a viver de acordo com a doutrina cristã. Neste sentido, os ‘recasados’ não podem – salvo nas circunstâncias referidas por São João Paulo II na Familiaris consortio – receber a Eucaristia. Os ditos ‘LGBT’ não estão dispensados dos 6º e 9º mandamentos da Lei de Deus, que obriga a todos os católicos, sem excepção.

4. A questão litúrgica. Bento XVI, de acordo com a maioria do episcopado mundial, promoveu uma maior transigência e abertura litúrgica, que Francisco inverteu. Não podem ser postos em causa os ensinamentos do Concílio Vaticano II, nem a sua reforma litúrgica, mas a unidade da fé não significa uniformidade litúrgica e, por isso, seria salutar mais tolerância em relação a expressões litúrgicas ortodoxas e mais de acordo com a bimilenar tradição eclesial.

5. Ecumenismo, sem abdicar da fé. O Papa deve impulsionar, de acordo com o Evangelho e o Concílio Vaticano II, o ecumenismo e o diálogo com as outras religiões. É importante sublinhar o que une todos os cristãos, mas sem esquecer o que os divide e que não pode ser ignorado sem trair a fé de Cristo e dos mártires. Os valores positivos de outras religiões – o apreço pela paz, o respeito pela vida humana e pela natureza, etc. – não se deve expressar pela aceitação de ritos pagãos e idolátricos, nem obstar ao anúncio da fé cristã, a única revelada por Deus como necessária para a salvação da humanidade.

Feliz Ano Novo!