Kinokuniya Bunzaemon 紀伊国屋文左衛門 (1669—1734) nasceu pobre. Ainda ficou mais pobre quando aos cinco ou seis anos ficou órfão de pai e mãe. Foi recolhido em casa do proprietário da Daikokuya, um armazenista em Kumano, onde imediatamente começou a trabalhar. E do nada se haveria de tornar, um dia, o comerciante mais rico do Japão. Uma crónica antiga relata dele o seguinte episódio:

“Um dia, tendo Bunzaemon dezasseis anos, regressava a pé de um negócio que fora fazer a Osaka por conta da Daikokuya. Chegou a um trecho de estrada que atravessava umas colinas já perto de Kumano. Esta região era já então muito justamente conhecida pela produção de laranjas, as melhores do Império. Enquanto caminhava observava laranjeiras a perder de vista quando, de repente, ouviu ao longe um grande alarido de gritos e grunhidos inarticulados. Saindo da estrada direcionou os seus passos para o local de onde vinha a barulheira. E eis que dezenas e centenas de macacos, símios em número incalculável, faziam um círculo à volta de três pobres homens e lhes atiravam pedras. Os três infelizes estavam agachados e tinham puxado os haori para cima das suas cabeças, como que para se proteger dos projeteis que lhes eram atirados. Pareciam desesperados pois não conseguiam fazer mais que gritar por ajuda. Os animais, por seu turno, pareciam estar-se a divertir à grande, e só a morte dos homens parecia poder fazer com que a brincadeira terminasse.

“Quando viu a situação, Bunzaemon agiu rapidamente. Encheu de pedras as suas mangas, e pôs tantos seixos quanto pode no bolso frontal do seu kimono. E assim armado correu para a cercania da multidão de macacos e, ritmicamente tirando pedra após pedra do seu bolso, começou a atirá-las às travessas criaturas.

“Os macacos, gritando e grunhindo, imediatamente se voltaram para o rapaz e vendo-o tirar projeteis do seu peito tentaram fazer o mesmo. Como é evidente, não tendo bolsos nem pedras no torso, não tinham nada para arremessar, mas viam e sentiam as pedras que Bunzaemon, rápida e compassadamente, lhes lançava. Cheios de raiva os símios começaram a arrancar os pelos que lhes cobriam o tórax e a tentar atirá-los ao seu inimigo. À medida que as suas dores se multiplicavam e a sua frustração crescia a sua algazarra aumentava. E Bunzaemon conseguia fazer parecer que as pedras saíam do seu peito mesmo quando as tirava das mangas.

“À medida que os macacos se aproximaram do seu novo adversário, sempre arrancado o próprio pelo, os três homens ganharam espaço para respirar. Pretendendo por sua vez ajudar quem viera em seu auxílio começaram a apanhar pedras e a desferi-las aos monos.

“Vendo isto, o jovem gritou: “Parai! Não apanheis pedras do chão, que eles vos imitam! Se conseguirdes fazer lume, pegai fogo à erva seca.”

“Os homens fizeram como ele lhes pedia, e a brisa que fazia rapidamente espalhou fogo e fumo à volta dos animais. Estes, vendo que o dia estava perdido, e fazendo sempre grande algazarra, desapareceram saltando de árvore em árvore.

“Os homens, recuperados do susto, e tendo apagado o fogo disseram a Bunzaemon: ‘Estamos profundamente agradecidos por nos terdes salvo, honorável viajante. Se não tivésseis aparecido teríamos certamente sido lapidados por aquelas bestas.’

“Respondeu-lhes ele: ‘Foi por um triz, não é verdade? Mas saciai a minha curiosidade: foste vós quem lhes atirastes pedras primeiro, não é verdade?’

“Confirmaram eles: ‘De facto fomos…’

“Bunzaemon disse-lhes: ‘Sabeis bem que os macacos são animais tolos e que tentam imitar o que vêm fazer. Quando temos adversários desta laia temos de usar táticas que eles não consigam imitar, ou que conseguindo-o, não nos possam magoar.’

“E despedindo-se deles retomou o caminho para Kumano.”

A vontade de imitar é uma tendência fortíssima, não só em símios, mas também em humanos. No entanto, se apanhar pedras do chão e atirá-las a macacos é contraproducente, porque será que se atiram tantas na vida política, na vida empresarial e até … na familiar? O sucesso nestas esferas está, quase sempre, em fazer algo que macacos não consigam imitar.

Professor de Finanças, AESE Business School