Estamos a viver uma era difícil para a masculinidade. Faltam referências claras que orientem o crescimento dos meninos. Esta ausência não é apenas cultural — é profundamente educativa e afetiva. O mundo mudou, mas a identidade masculina parece ter ficado suspensa, num limbo entre o que era e o que ainda não sabe ser.
Importa fazer uma nota fundamental: os homens levaram séculos de vantagem social. Durante gerações, foram os únicos a eleger e a poder ser eleitos, os donos dos espaços de decisão, das instituições, dos corpos e das narrativas. O mercado de trabalho foi desenhado por eles e para eles. As mulheres, como sabemos, continuam a lutar por uma igualdade que, em muitos lugares do mundo, está ainda muito longe de ser alcançada. Dizer que a educação masculina vive tempos desafiantes não é ignorar essa luta — é reconhecer que há um novo problema a exigir atenção.
Ser mãe de menino hoje é perceber que o mundo já não oferece respostas claras sobre o que significa “ser homem”. As antigas referências — rígidas, autoritárias, insensíveis — caíram, e ainda bem. Mas o que veio depois? Muitos rapazes crescem sem ídolos positivos, sem vozes masculinas equilibradas, sem modelos inspiradores. A cultura popular oferece-lhes extremos: ou a hipersensibilidade convertida em caricatura, ou a toxicidade violenta dos chamados incels — jovens homens isolados, ressentidos, que se alimentam de discursos de ódio e misoginia.
Estes extremos são um espelho do vazio. E o vazio, como sabemos, nunca fica por preencher. Quando não oferecemos aos nossos filhos referências humanas, equilibradas, corajosas e justas, eles procurarão essas referências onde puderem — muitas vezes, nos sítios errados.
A crise da masculinidade tem expressões visíveis e preocupantes. Em Portugal, cerca de 80% das vítimas de suicídio são do sexo masculino, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Apesar disso, menos de 30% dos homens com sintomas de depressão procuram apoio psicológico, de acordo com dados da Direção-Geral da Saúde. É uma geração educada para não pedir ajuda — e paga um preço alto por isso.
Na escola, o cenário também é alarmante. Os rapazes têm maior taxa de insucesso e abandono escolar, e representam apenas cerca de 40% das matrículas no ensino superior, segundo dados do PORDATA. Estão a ficar para trás, silenciosamente, e muitas vezes sem que isso mereça destaque político ou social.
Já no mundo digital, o crescimento de comunidades como os incels mostra como o ressentimento pode ser facilmente capturado por discursos de ódio. A UNESCO alerta para o consumo crescente de conteúdos misóginos por adolescentes do sexo masculino, e estima-se que milhares de jovens interajam regularmente com influenciadores que promovem visões radicais sobre género.
Ao mesmo tempo, uma sondagem do Eurobarómetro (2022) revelou que mais de 60% dos jovens homens dizem não ter figuras masculinas com quem se identifiquem no espaço público. Essa ausência de modelos positivos é mais do que simbólica — é educativa.
É urgente resgatar figuras masculinas que sejam exemplo. Homens que saibam liderar com empatia, expressar fragilidade sem vergonha, assumir responsabilidades sem dominar. Homens que não tenham medo de cuidar, de se emocionar, de dizer “não sei”. Precisamos deles na política, na cultura, na escola, na casa. Precisamos deles nos livros e nas séries, nas conversas e nos afetos.
Ser mãe de menino em 2025 é, mais do que nunca, um ato de vigilância, esperança e reconstrução. O futuro da masculinidade joga-se agora — nas palavras que dizemos, nos gestos que permitimos, nas referências que damos. Não podemos falhar com eles. Nem com elas.