Para mim dia de silêncio. Dia de pausa.

Também porque os sinto, e muito, como mãe e pai no meu coração.

Hoje é, assim, dia de morte.

Morte, igualmente, dos que sucumbem à injustiça.

Dos que partem por doença.

Dos que vivem em doença.

Dos que se perdem no desemprego.

Dos que atravessam o fim de uma relação ou de uma amizade.

Dos que sofrem com a ausência de quem já não está.

Dos que não são compreendidos.

Dos que vivem na pobreza.

Dos que não tiveram acesso a educação.

Há mortes que não são físicas, mas são, ainda assim, perdas profundas.
Cada uma dessas “mortes” traz, em si, a semente de uma possível ressurreição.
Mais fortes. Mais conscientes. Mais preparados.

Sexta-feira Santa é também isso: um tempo para refletir sobre tudo o que morre em nós — e ao nosso redor — ao longo da vida.

Histórias que ninguém conta. Sofrimentos anónimos.

Desilusões, abandonos, silêncios.

Mas também é um dia para reconhecer que, apesar das quedas, há sempre a possibilidade de renascer.
De reconstruir.
De resistir.
De recomeçar.

E se hoje é dia de luto, é também dia de esperança.
De lembrar que, com humildade, partilhamos estas perdas — e temos em nós a capacidade de transformação.

Hoje, mãe, pai, recordo-os novamente no meu coração. E nas lágrimas que sei que andarão comigo ao longo deste dia. E de muitos outros dias. Aquele aperto no estÕmago e no coração.

“Este é o dia. Esta é a hora, este o momento, isto é quem somos, e é tudo. Perene flui a interminável hora que nos confessa nulos. No mesmo hausto em que vivemos, morreremos. Colhe o dia, porque és ele.” — Ricardo Reis (Fernando Pessoa), Odes.