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Crónica

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Claro que o ar do tempo começa a tornar-se irrespirável e que uma sociedade fundamentada na desconfiança e na delação não promete um futuro risonho. Claro que me apetecia fazer queixa. Mas a quem?

Segunda-feira

O prof. Marcelo promete assistir à estreia de uma telenovela. Para mim, é espantoso ainda haver telenovelas. Para o prof. Marcelo é um acontecimento a não perder: “(…) tenho de arranjar a minha vida porque tinha um jantar de trabalho já organizado (…)”. E acrescentou: “Hoje é fácil, puxa-se para trás e vê-se, mas é outra emoção ver no momento da estreia. Vou ver. Depois digo a minha opinião”. A opinião permanece um mistério. O facto de o prof. Marcelo ser Presidente da República também.

Terça-feira

Fui enganado. Fui enganado pela família, pelos amigos, pela escola e sobretudo por esse veículo essencial de socialização: os filmes sobre o universo do crime organizado ou desorganizado. Todos me garantiram não haver coisa pior do que um denunciante, um delator, um bufo, um chibo, um rato, um reles, muito reles, queixinhas – e isto num “ranking” que já incluía molestadores, necrófagos e vereadores com pelouro. Tendo crescido nessa convicção, hoje não reconheço o mundo. É um mundo onde os denunciantes treparam dos fundilhos da humanidade para os respectivos píncaros. Pior, é um mundo onde os denunciantes são estimulados a sê-lo e recompensados por isso. Essa virtude, dantes apenas apreciada nos regimes totalitários do tipo nazi ou comunista, é agora louvada nas democracias. Ou nas mistelas esquizofrénicas como a nossa.

Há dias, Manuela Moura Guedes emitiu uma opinião televisiva acerca da associação LGBTEtc. que celebremente “interveio” numa escola do Barreiro. Num ápice, a não menos célebre ILGA apresentou uma queixa à ERC, a Altíssima Autoridade para a “comunicação social”. Um acontecimento fortuito? Não: um modo de vida. Para não criar equívocos, a OLGA até tem uns cartazes com os seguintes dizeres: “A televisão (p)e(r)mitiu [que giro] discriminação? Denuncia!” Escusado notar que “discriminação” é aqui um conceito lato, que consiste em divergir, mesmo que ao de leve, dos dogmas que orientam a ILDA. Um mafarrico qualquer na SIC ousou desviar-se dos padrões que a ALGA acha aceitáveis? Denuncia! Delata! Bufa! Chiba! E por aí afora, sob pena de integrares as multidões de hereges que as inquisições modernas se esforçam por calar e, preferencialmente, expelir.

Claro que a GULA é só uma entre largos milhares de agremiações que, em Portugal e no Ocidente em peso, lutam para encostar os hereges à parede, por enquanto metafórica. Claro que a “causa” LGBTEtc. é só um entre centenas de pretextos para que os sensíveis se ofendam e arranjem uma espécie de vida a reclamar o extermínio dos ofensores. Claro que o desmesurado ódio aos “discursos de ódio” é no mínimo um instrumento de censura e, no máximo, um “case study” psiquiátrico. Claro que o ar do tempo começa a tornar-se irrespirável e que uma sociedade fundamentada na desconfiança e na delação não promete um futuro risonho. Claro que me apetecia fazer queixa. Mas a quem?

Quarta-feira

Confesso que, por absoluta falta de interesse, não conheço 90% dos membros do governo. Em compensação, os membros do governo conhecem-se muitíssimo bem. A cada dia, somos informados de mais um familiar directo de ministros ou secretários de Estado que caiu num ministério, numa secretaria de Estado ou noutro cargo acessório e igualmente simpático. Por regra, o argumento em prol (não confundir com “prole”, a qual por acaso também vai sendo enfiada nos postos disponíveis ou inventados para o efeito) deste método de selecção consiste em proclamar que as criaturas em questão não podem ser prejudicadas em função do parentesco. O argumento contrário consiste em garantir que as criaturas não deviam ser beneficiadas.

Não sei porquê, ninguém repara que, ao invés de prejuízo ou benefício, as criaturas têm exactamente aquilo que merecem. O facto de serem cônjuges ou descendentes de grandes figuras do PS indicia com alta probabilidade, por hábito ou genética, uma imbec…, perdão, percepção limitada da realidade. A percepção limitada da realidade condena-as desde logo a empregos de escassa exigência e nenhuma responsabilidade. Não há empregos tão fáceis e irresponsáveis quanto os disponíveis numa administração socialista. Em suma, tudo está bem.

Em eras remotas, desaconselhava-se a endogamia pela propensão a gerar filhos malucos. Hoje, porém, os filhos, esposos, sobrinhos, cunhados, primos e compadres que não regulam bem possuem adequadas saídas profissionais à sua espera. Os casos perdidos deixaram de representar um fardo – excepto para o povo, que, são como um pêro e lúcido como uma batata, patrocina, legitima e aplaude o arranjo.

Quinta-feira

Manter sob controlo do Estado um símbolo da soberania, um ex-libris da “lusofonia”, uma companhia bandeira, um baluarte da portugalidade, um bastião dos preços altos tem um preço. Exactamente, 118 milhões de euros anuais, que foi o prejuízo da TAP em 2018. Estão de parabéns todos os que contribuíram para “reverter” a privatização da empresa e que agora não contribuirão para pagar a factura entre eles.

Sexta-feira

Um dia, um nacionalista/ecologista/comunista/supremacista/anarquista/libertário (definições do próprio) assassina muçulmanos na Nova Zelândia e assume-se de imediato que o sujeito representa o homem branco e judaico-cristão em geral, que como se sabe ocupa as horas de lazer a chacinar gente. Quase todos os dias, um muçulmano mata infiéis onde calha e parte-se do princípio de que não representa ninguém: quando muito, foi movido por distúrbios mentais, emprego precário ou permissividade no porte de armas (e camiões). Em Utrecht, avançou-se com a hipótese de crime passional, que tipicamente convence um tipo comum a disparar sobre autocarros. No limite das mesuras, as “autoridades” e os “media” ocidentais são capazes de culpar a micose ou o degelo do ártico antes de admitir, contrariados, que o tipo matou em nome da religião. Perante isto, é natural que a Organização da Cooperação Islâmica exija “medidas concretas, abrangentes e sistemáticas” para acabar com o “flagelo” da “islamofobia”. Para a semana, o Rei dos Leitões vai emitir um comunicado contra o vegetarianismo.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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